Depois do ‘meu Exército’, vem aí a ‘minha seleção’

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Soccer Football - Copa America Brazil 2019 - Semi Final - Brazil v Argentina - Mineirao Stadium, Belo Horizonte, Brazil - July 2, 2019   Brazil's President Jair Bolsonaro during the match   REUTERS/Pilar Olivares
Jair Bolsonaro busca holofotes antes do jogo do Brasil contra a Argentina na Copa América de 2019. Foto: Pilar Olivares/Reuters

Com a desistência de dois países, Colômbia e Argentina, de sediar a Copa América, Jair Bolsonaro se associou ao presidente da CBF, Rogério Caboclo, para realizar o torneio no Brasil.

Faltou combinar com os jogadores, a maioria em atividade na Europa. Eles descobriram pela imprensa que iriam passar um mês viajando por um dos piores lugares para se estar no Planeta neste momento da pandemia.

Revoltados, os craques receberam apoio do técnico Tite. No fim da semana passada, o treinador da seleção entrou na mira da milícia digital bolsonarista, que viram na atitude uma espécie de ensaio da revolução bolchevique.

Caboclo teria prometido entregar o pescoço de Tite numa bandeja para Bolsonaro. Ela seria guardada numa sala de troféus onde já estão expostas as cabeças de antigos comandantes das Forças Armadas, de superintendências da Polícia Federal, de ex-titulares dos ministérios da Saúde e da Justiça e de fiscais do Ibama.

Tite estrearia como técnico na prateleira de degolados pelo bolsonarismo não fosse um detalhe: Caboclo caiu tarde, mas caiu antes. Contra ele pesava “só” uma acusação de assédio contra uma secretária e a suspeita de que dirigia a entidade embriagado. Um homem de bem, como tantos que se aninharam no bolsonarismo para camuflar a própria índole naquele velho discurso segundo o qual vigarista é sempre o outro — o que veste vermelho.

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Um dia depois da queda, e da divulgação, pelo Fantástico, da TV Globo, de comprometedoras gravações envolvendo o dirigente, os jogadores enfim decidiram que vão a campo.

A bola voltou para o meio.

Por enquanto.

Quem conhece o presidente duvida que ele vai se dar por satisfeito.

Por enquanto, a CBF volta ao comando do Coronel Nunes, com quem certamente o capitão Jair manterá linha direta de sua trincheira.

“Os jogadores da seleção não podem desafiar o presidente”, disse um assessor palaciano ao colunista Vicente Nunes, do Correio Braziliense, dando o tom do clima geral.

Até segunda ordem, Tite segue no posto. Mas a fritura a óleo não deve arrefecer. Ele sabe disso.

Seu possível substituto, caso ele entregue os pontos, também deve saber.

Caso contrário, nem ele nem os novos velhos dirigentes poderão reclamar quando receberem ordens sobre estratégia, escalação e posicionamento.

“Esse time está jogando demais pela esquerda, tá ok?”

“Por que ninguém mais faz arminha quando comemora gol?”

“Que história é essa de não querer jogar porque tá com gripezinha? Não tem mais homem nesse time?”

“E se a gente colocasse uma cartela de cloroquina na mesa da coletiva?”

“Não é por nada não, mas tenho um filho muito bom de bola que já fritou muito hambúrguer nos EUA e pode jogar em várias posições. Da embaixada americana à ponta-direita”.

Parece ridículo tanta interferência alimentada por ideia ruim numa equipe de futebol, não é mesmo?

Imagina no comando do país. No auge da maior crise sanitária de sua história.

A derrota seria certa. Já é.

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