Bolsonaro deseja partido cristão e de direita, mas setor do Patriota resiste

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*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  22-06-2021 - O presidente Jair Bolsonaro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 22-06-2021 - O presidente Jair Bolsonaro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Aliados do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que está em negociação para se filiar ao Patriota, querem incluir no DNA da sigla valores cristãos e uma posição contrária à legalização do aborto, em um movimento para tentar reconquistar votos de evangélicos para a eleição de 2022.

O plano também deve visar que o estatuto do partido incorpore símbolos da direita bolsonarista, como uso de armas para autodefesa.

A estratégia, nesse caso, é um agrado à base ideológica do presidente, que, na avaliação de pessoas próximas a ele, exerce um contrapeso ao atual ciclo de queda de popularidade de Bolsonaro.

Essas bandeiras do presidente fizeram parte do regulamento da legenda em 2017, quando o Patriota foi reformulado à espera de Bolsonaro. Ele, porém, acabou se abrigando no PSL, após divergências nas condições negociadas para a filiação do então pré-candidato à Presidência.

Diante da fracassada negociação, o Patriota se fundiu, em 2018, com o antigo PRP (Partido Republicano Progressista). O objetivo foi cumprir a cláusula de barreira e garantir acesso ao fundo partidário.

No processo para englobar o PRP, foi acordado que expressões do bolsonarismo seriam retiradas do estatuto. A varredura foi feita --e trechos, excluídos.

Foi apagado o trecho que exigia a todos os filiados o compromissos de defesa do combate à legalização do aborto e do direito à autodefesa, inclusive com o uso privado de armas para essa finalidade.

A ala do Patriota mais ligada ao antigo PRP rejeita embarcar na proposta de transformar o partido em um símbolo da agenda bolsonarista. Alguns integrantes desse grupo aceitam debater eventual filiação do presidente, mas querem impor condições.

"O Patriota é um partido de centro e vai continuar sendo de centro", disse o secretário-geral da sigla, Jorcelino Braga.

Em entrevista à Folha, o presidente do Patriota, Adilson Barroso, descreveu a legenda da seguinte forma: "É um partido de centro-direita. Não é um partido de direita, para não dizerem que é um partido de extrema direita. Não podem dizer que o partido é radical. É um partido também com pessoas que não entendem nada de direita nem esquerda. É um partido que pega tudo".

Parte do Patriota tem resistência à aliança com Bolsonaro. Há também o receio de que aliados do presidente irão tomar o espaço político e na estrutura de partidária de quem já está na legenda.

O vice-presidente da sigla, Ovasco Resende, comandou uma convenção para suspender Adilson do cargo. Os dois ainda travam uma guerra de versões sobre qual lado detém apoio da maioria da legenda.

Adilson é o canal de comunicação dos principais representantes do presidente na negociação. São eles: o advogado e ex-ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Admar Gonzaga e o filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (RJ), que se filiou no fim de maio ao Patriota.

"Fui para o Patriota antes de todo o mundo para arrumar a casa, e é o que vamos fazer", afirmou Flávio, em nota após a escalada do racha na sigla.

Apesar da briga interna, Bolsonaro tem tentado avançar no plano de se filiar ao Patriota e ter controle sobre ele.

Bolsonaro e o advogado Admar se encontraram com os deputados federais Pastor Eurico (PE) e Roman (PR), ambos do Patriota e da bancada evangélica, no último dia 22, no Palácio da Alvorada.

Bolsonaro conta com a ampla defesa da pauta cristã --e com a indicação de um evangélico ao STF (Supremo Tribunal Federal)-- para retomar popularidade nesse segmento da sociedade.

Pesquisa Datafolha divulgada em maio apontou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Bolsonaro empatados tanto no primeiro quanto no segundo turnos entre o eleitorado evangélico --35% a favor do petista e 34% escolheriam o atual presidente.

Aliados de Bolsonaro avaliam que, durante a campanha, o presidente irá reconquistar o público. O primeiro argumento é o de que, às vésperas das eleições, os evangélicos vão acabar optando por quem defende abertamente os valores do grupo.

Lula, apesar da aproximação com alguns líderes evangélicos, tem evitado se posicionar claramente sobre temas caros aos pastores.

O segundo ponto citado por bolsonaristas é a perspectiva de reaquecimento da economia, após o avanço da vacinação. Aliados do presidente esperam que, com isso, a rejeição caia e o apoio de evangélicos que estiveram com Bolsonaro em 2018 seja retomado.

A estratégia de pré-campanha traçada por pessoas próximas de Bolsonaro prevê ainda o discurso de que Lula é um ex-presidiário --recentemente o STF anulou as condenações do petista na Lava Jato e remeteu as denúncias contra ele para o Distrito Federal.

Bolsonaristas contam que, até a eleição, os processos contra Lula avancem, mesmo que não cheguem a ter uma conclusão na segunda instância.

Com isso, o presidente, que pretende disputar a reeleição, ampliaria o arsenal de ataque ao petista na corrida ao Palácio do Planalto.

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