Bolsonaro diminui vantagem de Lula entre católicos, e a expande com evangélicos, mostram pesquisas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sempre teve a preferência do maior bloco religioso do Brasil, o católico, mas sua intenção de voto no segmento vem caindo no segundo turno, enquanto Jair Bolsonaro (PL) avança.

Já entre evangélicos a dianteira bolsonarista aumentou, expondo uma fragilidade do petista com um nicho conhecido por ser mais influenciado pela comunidade de fé do que a média na hora de votar.

A predileção por Lula oscilou menos entre o eleitor que diz não ter uma religião específica, terceira maior parcela do eleitorado quando levamos em conta a crença dos brasileiros. É o dobro dos que optam por Bolsonaro.

É o que mostra uma ferramenta do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) que reuniu 146 pesquisas eleitorais realizadas de fevereiro até aqui. Com ela, é possível acompanhar os recortes religiosos de como pretendem votar os brasileiros.

A última atualização considerava uma média móvel de sete dias para levantamentos feitos até 27 de outubro por nove institutos: Datafolha, Ipec, Quaest, Ipespe, FSB, Vox Populi, PoderData, MDA e Futura.

Para o segundo turno, pela média desse conjunto de pesquisas, Lula tem apoio de 54,5% dos católicos, e Bolsonaro, 38,5%. O petista fica com 31,5% dos evangélicos, e seu rival, 60,5%. Já entre os eleitores sem religião, 61% favorecem o ex-presidente, e 29,5%, o atual.

No quadro geral, Lula alcança 48,5% de respaldo, e Bolsonaro, 43,5%, quadro similar ao resultado do primeiro turno.

O favoritismo do PT entre católicos permanece, mas a diferença se estreitou no segundo turno. Já no evangelicalismo é possível identificar momentos em que o endosso a Bolsonaro espessou, como logo após Sergio Moro (União Brasil) desistir de disputar a Presidência. Bolsonaro cresceu oito pontos percentuais no grupo a partir desse evento.

Já a saída de João Doria (ex-PSDB) do páreo pode ter beneficiado Lula num primeiro momento. O petista ganhou cinco pontos, e seu adversário perdeu quatro pontos nessa parcela do eleitorado.

O primeiro debate na TV também impulsionou o candidato à reeleição. Já o 7 de Setembro bolsonarista, farto em acenos religiosos, não mexeu os ponteiros em prol do bolsonarismo.

O instrumento do Cebrap mostra como, no primeiro semestre, a distância entre os dois rivais era bem menor, às vezes até um empate técnico dentro da margem de erro. A vantagem de Bolsonaro dispara com o começo da campanha eleitoral, o que coincide com a multiplicação do discurso a seu favor nas igrejas.

O presidente nunca descuidou dessa base religiosa, mas intensificou a aparição em templos e atos evangélicos nos últimos meses. Soma-se a isso "a participação forte de pastores demonizando Lula", diz o sociólogo Dirceu André Gerardi, um dos responsáveis pelo agregador de pesquisas eleitorais por religião.

Para esta reportagem, o jornal não considerou dados do público espírita, por terem uma presença pequena no eleitorado -vão de 1% a 6% das amostras analisadas, a depender do levantamento. Isso cria margens de erro maiores. Já os eleitores sem religião são mais numerosos e, na média, ficam acima dos 10% dos entrevistados.

A ausência de um novo Censo, com dados atualizados sobre a religiosidade brasileira, faz falta para medir o peso de cada fé na população, segundo Gerardi. Não é possível saber com precisão, por exemplo, qual é a dimensão no eleitorado dos evangélicos, grupo que endossa maciçamente Bolsonaro.

Há variações importantes nas diferentes sondagens compiladas, num rol amostral em que católicos representam de 40% a 58%, e evangélicos, de 22% a 35%. Especialistas têm discutido se isso pode ajudar, em parte, a entender por que as pesquisas do primeiro turno não capturaram parte do voto bolsonarista -até porque esse bloco cristão pode também ser mais apegado à campanha antipesquisa promovida por presidente e aliados, deixando de respondê-las, o que facilita a subnotificação de votos em Bolsonaro.

Influenciado pela "máquina de campanha do bolsonarismo" e pela "campanha intensa em redes sociais", o eleitor bolsonarista "tende a acreditar menos em pesquisa eleitoral", afirma Gerardi.