Bolsonaro discursa aos gritos, usa palavrões e diz a empresários que eleição pode ser conturbada

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou, nesta segunda-feira (16), a relativizar os atos de raiz golpista do 7 de Setembro do ano passado, tratando-os como manifestações de liberdade de expressão, e disse que nunca irá para a cadeia.

"A liberdade é mais importante que a nossa própria vida. Em mais da metade do meu tempo eu me viro contra processos. Ainda falam que eu vou ser preso. Por Deus que está no céu, eu nunca serei preso", afirmou o chefe do Executivo federal, que na sequência emendou: "Não estou dando recado para ninguém." Bolsonaro é alvo de inquéritos no STF (Supremo Tribunal Federal).

Em fala de improviso e aos gritos, o presidente se irritou em diferentes momentos, falou uma série de palavrões e ameaçou mais uma vez não cumprir decisões do STF sobre terra indígena. Bolsonaro ironizou o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), chamado por ele de "inexpugnável".

O discurso do presidente foi feito a empresários presentes em um almoço fechado que marcou a abertura de uma feira da Apas (Associação Paulista de Supermercados), no Expo Center Norte, na zona norte da capital paulista.

A organização do evento afirma que 720 pessoas, incluindo autoridades, assistiram à cerimônia. O ministro da Economia, Paulo Guedes, e o ex-ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas, pré-candidato ao Governo de São Paulo, também discursaram.

O presidente elogiou os empresários do setor de abastecimento. "Vocês foram excepcionais na pandemia", afirmou. "Mas tudo pode acontecer. Podemos ter outra crise. Podemos ter umas eleições conturbadas. Imagine acabarmos as eleições e pairar, para um lado ou pro outro, a suspeição de que elas não foram limpas? Não queremos isso."

Ele voltou a atacar o sistema eleitoral brasileiro e o TSE por não aceitar novas sugestões das Forças Armadas à Comissão de Transparência nas Eleições (CTE), criada por aquela corte.

Em segundo lugar nas pesquisas eleitorais, distante do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Bolsonaro disse aos espectadores não ser um ditador. "Eu não sou ditador. Sou uma pessoa que tem responsabilidades pelo Brasil. E digo: se Deus me deu essa missão, eu vou ter que cumpri-la. E sempre falo: só ele me tira de lá. Não adianta alguém querer inventar uma canetada por aí, que não vai conseguir."

O presidente também disse aos empresários que não pediria a eles que não o abandone agora, mas que isso caberia à consciência de cada um deles.

"Não sou fodão, não. Mas creio que já dei mais do que provas suficientes a todos de que tem que conduzir com pulso firme o destino do Brasil. Eu não manjo nada de economia. Assim como o Guedes não manja nada de política. Eu sou o técnico do time."

Bolsonaro também ironizou Lula, a quem chamou de "nine" (nove, em inglês) e "analfabeto", e o ex-governador paulista João Doria (PSDB). "O engravatado lá, o cara que nunca sentiu cheiro de pobre na vida", disse sobre o tucano, a quem apoiou em 2018 na dobradinha BolsoDoria.

O mandatário criticou novamente o fechamento de comércios por governos estaduais durante a pandemia, medidas que ele chamou de absurdas. E culpou o STF por limitar a ação dele na gestão da crise sanitária. "Eu não tive poder de administrar a pandemia. O Supremo deu poder para os governadores e prefeitos. E barbaridades foram feitas."

Além das medidas de tentativa de conter a disseminação do vírus, Bolsonaro usou o surgimento de novos casos de Covid-19 na China para levantar dúvidas sobre a eficácia da vacina Coronavac. "Por que a China tá com Covid? Não é de lá a vacina? Qual é o problema? Ou era vacina só para exportar? Não era para ter ninguém com Covid na China", ironizou.

Bolsonaro, militares e integrantes do governo entraram na mira da apuração sobre uma suposta organização criminosa investigada pela Polícia Federal por ataques às instituições e disseminação de desinformação.

Isso ocorre devido à junção da apuração sobre a live de 29 de julho de 2021 —em que Bolsonaro fez seu maior ataque ao sistema eleitoral brasileiro— com o caso das milícias digitais, vinculação ordenada pelo ministro Alexandre de Moraes, relator das apurações no Supremo.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, a investigação da PF sobre a live aponta que o uso das instituições públicas para buscar informações contra as urnas vem desde 2019 e envolveu, além de Bolsonaro, o general Luiz Eduardo Ramos e a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), atrelada ao Gabinete de Segurança Institucional chefiado pelo também general Augusto Heleno.

Além de Bolsonaro e dos dois generais, entram na mira da PF a partir de agora o ex-diretor-geral da Abin, Alexandre Ramagem, o ministro da Justiça, Anderson Torres, e o coronel do Exército Eduardo Gomes da Silva, responsável por apresentar as suspeitas de fraudes na live.

No domingo, em Brasília, Bolsonaro disse que só "imbecil" ou "psicopata" afirma serem antidemocráticas as manifestações em apoio a ele realizadas no 7 de Setembro de 2021 e no último 1º de maio.

Nesta segunda, diante de empresários do setor de supermercados, repetiu o discurso, em meio a tímidos aplausos dos presentes.

No 7 de Setembro, em discursos diante de milhares de apoiadores em Brasília e São Paulo, Bolsonaro fez ameaças golpistas contra o STF, exortou desobediência a decisões da Justiça e disse que só sairá morto da Presidência da República.

Também nesta segunda, em conversa com apoiadores publicada nas redes sociais, Bolsonaro disse que "o povo vivia um pouco melhor" na época do governo de Lula.

"Lógico que vivia, concordo", disse. No entanto, ele afirmou que o petista não enfrentou uma pandemia nem uma guerra, em referência ao conflito entre Rússia e Ucrânia.

"Mas se lá atrás se vivia melhor, podia ter vivido muito, mas muito melhor ainda se não tivesse roubado tanto", atacou.

Bolsonaro também criticou discurso em que Lula disse que o atual presidente temia ser preso após deixar a Presidência da República.

"Discurso do Lula agora de prender minha família toda depois da eleição? Prender para que, qual acusação? Fake news? Essa é a acusação, fake news? Fake news é o que eles não gostam de ouvir, é a verdade deles", afirmou.

E prosseguiu: "Tem uma passagem bíblica que diz que a soberba precede a queda. Esses caras não sabem o que é Deus, não acreditam e não tem respeito por quem acredita".

No diálogo com simpatizantes, Bolsonaro também criticou o governador da Bahia, Rui Costa (PT), e disse que existem "canalhas" que querem "colocar toda a culpa" da crise econômica nele.

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