Bolsonaro diz que Alemanha cancelou lockdown, mas distorce motivo

RICARDO DELLA COLETTA
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Um dia depois de ter sido cobrado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), por uma correção de rumo no combate à pandemia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) comentou a decisão do governo alemão de cancelar uma paralisação rígida do país durante a Semana Santa. O presidente, no entanto, omitiu o motivo do recuo do governo alemão: o aviso sumário não dava tempo para o cancelamento de planos da população, e por isso foi revisto. Em vez disso, ele alegou que a mudança ocorreu porque os efeitos do confinamento seriam mais graves do que as consequências do vírus —algo que não foi dito pela chanceler (equivalente a primeira-ministra) do país. "A Angela Merkel ia ter um lockdown rigoroso lá e ela cancelou, pediu desculpas. Ela falou lá, segundo a imprensa, que os efeitos do fechar tudo são muito mais graves do que os efeitos do vírus, palavras delas, não é minha não", disse Bolsonaro, em conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada. A declaração de Bolsonaro foi transmitida por um site simpático ao presidente. O presidente se referiu ao anúncio feito por Merkel na quarta-feira (24), quando ela recuou dos planos de promover um confinamento total durante o feriado de Páscoa, anunciados um dia antes. A líder alemã afirmou que a decisão de elevar as restrições fazia sentido, “porque é absolutamente necessário desacelerar e reverter a terceira onda da pandemia”, mas não houve planejamento prévio suficiente. Com o número de novos casos em alta há quatro semanas consecutivas, o governo havia decretado que todas as lojas ficariam fechadas de 1º a 5 de abril, com exceção de mercados no sábado, dia 3, e as cerimônias religiosas presenciais, suspensas. Mas as medidas foram questionadas por epidemiologistas, políticos e empresários, por motivos diferentes, levando Merkel a recuar. “A ideia teve bons motivos, mas não conseguiu concretizar-se bem no curto espaço de tempo disponível”, disse ela. Apesar do recuou de Merkel, a Alemanha conta com outras políticas de distanciamento social ainda em vigor. O país europeu apresenta números de infecções e de mortes inferiores aos do Brasil, hoje considerado o epicentro da Covid-19 no mundo, inclusive com a circulação de uma variante mais transmissível. Com cerca de 38% da população brasileira, a Alemanha registrou em 13 meses de pandemia pouco mais de 75 mil mortes decorrentes da Covid, 25% dos 301 mil mortos registrados no Brasil no mesmo período. Bolsonaro é contrário às ações de distanciamento social adotadas por governadores. O presidente frequentemente ataca os gestores locais por essas medidas que, segundo ele, afetam a economia do país. A fala de Bolsonaro contra a política de lockdown —confinamento rígido de cidadãos para evitar a disseminação do vírus— ocorre um dia depois de uma reunião entre os chefes dos três poderes para tentar esboçar uma reação diante do momento mais crítico da pandemia no Brasil. Nos últimos dias, o país tem contabilizado recordes diários no número de mortos pela doença, com os sistemas hospitalares nos estados à beira do colapso. Na reunião no Palácio da Alvorada, com a presença dos presidentes da Câmara, Arthur Lira, do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e de um grupo de governadores, Bolsonaro anunciou a criação de um comitê para coordenar as ações de enfrentamento à pandemia. O encontro foi pensado pelo Palácio do Planalto como uma forma de mostrar reação do governo na crise sanitária, uma vez que o aumento das mortes e a postura negacionista de Bolsonaro têm afetado a popularidade do presidente. "A vida em primeiro lugar. Resolvemos entre outras coisas, que será criado uma coordenação junto aos governadores com o sr. presidente do Senado Federal", disse o presidente na ocasião. Mas no final da tarde de quarta Lira decidiu subir o tom contra o governo. Ele afirmou que, se não houver correção de rumo, a crise pode resultar em "remédios políticos amargos" a serem usados pelo Congresso, alguns deles fatais. É a primeira vez que Lira faz menção, mesmo que indireta e sem especificar, à ameaça de CPIs e de impeachment contra o presidente da República, em um momento em que Bolsonaro tenta atrair Legislativo e Judiciário para a coordenação da pandemia. "Estou apertando hoje um sinal amarelo para quem quiser enxergar", disse Lira, afirmando que o caos na saúde gerado pela crise de Covid-19 precisa ser um fator de conscientização das autoridades envolvidas no sentido de "que o momento é grave” e que “tudo tem limite”.​