Bolsonaro diz que deu carta branca a Alvim e que cultura tem de estar 'de acordo com maioria'

Daniel Gullino

BRASÍLIA — O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira que deu "carta branca" para o secretário Especial de Cultura, Roberto Alvim, fazer nomeações, ao ser perguntado se manterá a indicação do jornalista Sergio Camargo para a Fundação Palmares. Bolsonaro disse ainda que a área cultura precisa ser gerida "de acordo com a maioria da população brasileira".

— O secretário é um tal de Roberto Alvim. Dei carta branca para ele. A cultura nossa tem que estar de acordo com a maioria da população brasileira, não de acordo com a minoria. Ponto final — disse Bolsonaro, na saída do Palácio da Alvorada.

Questionado sobre declarações de Camargo — que já afirmou que no Brasil não existe "racismo real", que a escravidão foi "benéfica para os descendentes" e que o movimento negro precisa ser "extinto" —, Bolsonaro disse que não irá "entrar em detalhes" e que só responderá sobre isso depois de se reunir com Roberto Alvim.

— Não vou entrar em detalhes. Eu tenho um despacho semanal com ele, onde eu só vou responder alguma coisa depois de ouvi-lo.

Na quinta-feira, o GLOBO questionou a Secretaria de Comunicação da Presidência sobre se Bolsonaro concorda com as afirmações de Camargo, se ele participou da escolha e se ele cogita rever a nomeação, mas não houve resposta até a manhã desta sexta.

Ontem, entidades como Educafro e União de Negros pela Igualdade (Unegro) afirmaram que entrarão um pedido de anulação da nomeação do novo presidente na procuradoria-geral da República (PGR). Eles dizem que há "evidente incompatibilidade" entre os valores de Sérgio e o objetivo da Fundação Palmares, que é promover a cultura afro-brasileira.

"Trata-se de verdadeira operação de sabotagem dos poucos avanços que a população negra conquistou em nosso país, sobretudo nos últimos anos, resultado do acúmulo da luta de diversas gerações, situação absolutamente incompatível com a Constituição Cidadã", diz trecho do documento.

O PSOL também entrou com um recurso na PGR afirmando que a nomeação "violou todo o arcabouço constitucional que obriga o Estado a enfrentar o racismo institucional e estrutural e a promover políticas de promoção da igualdade racial".