Bolsonaro diz que é 'prova viva' e que cloroquina poderia ter salvo 100 mil vidas

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TOPSHOT - Brazilian President Jair Bolsonaro shows a box of hydroxychloroquine to supporters outside the Alvorada Palace in Brasilia, on July 23, 2020. - In a study published in "The New England Journal of Medicine", Brazilian researchers from 55 hospitals point out that hydroxychloroquine was not effective in treating COVID-19 in patients with mild and moderate cases. The study shows that, after 15 days of treatment, similar percentages of patients, who took hydroxychloroquine or not, were already at home "without respiratory limitations". The percentage of deaths was the same in all groups: 3%. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Discurso ocorreu durante visita ao estado do Pará, na tarde desta quinta-feira (13). (Foto: EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

O presidente Jair Bolsonaro voltou a defender o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina como tratamento precoce contra o novo coronavírus, mesmo sem qualquer comprovação científica de que o medicamento combata a Covid-19.

Em discurso feito durante visita ao Pará, na tarde desta quinta-feira (13), o presidente disse ser “a prova viva” de que a medicação funciona e ressaltou que as mais de 100 mil mortes ocorridas durante a pandemia no Brasil “poderiam ter sido evitadas” se o uso precoce da cloroquina fosse feito.

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“Eu sou a prova viva de que deu certo. Muitos médicos defendem esse tratamento e sabemos que mais de 100 mil pessoas morreram no Brasil que, caso tivesse sido tratado lá atrás, com esse medicamento poderiam essas vidas (sic) ter sido evitadas. E mais ainda, aqueles que criticaram a hidroxicloroquina não apresentaram alternativa”.

Sem comprovação cientifica de eficácia para o novo coronavírus, a cloroquina é defendida por Bolsonaro. Ao anunciar que estava infectado pela Covid-19, no início de julho, Bolsonaro disse ter tomado o medicamento e chegou a fazer dizendo “eu confio, e você?”. No entanto, em outra live, disse “não recomendar” a realização do tratamento sem supervisão médica.

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Bolsonaro anunciou também que irá entregar mais de 400 mil unidades da hidroxicloroquina ao estado do Pará, além de R$ 2 bilhões para a região no combate ao novo coronavírus.

O medicamento, utilizado contra a malária e doenças como lúpus e artrite reumatoide, foi o mais politizado durante a pandemia. Quando começou a crise, foi fortemente defendido pelo médico francês Didier Raoult e nos Estados Unidos por partidários de Bolsonaro e do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

No início da pandemia, lembra, estudos pré-clínicos e estudos in vitro demonstravam uma possível efetividade da hidroxicloroquina para combater o novo coronavírus. Achava-se também que a associação de azitromicina pudesse potencializar o efeito desse combate.

ESTUDO MOSTROU INEFICÁCIA EM CASOS LEVES E MODERADOS

Um estudo inédito do grupo Coalizão Covid-19 Brasil, publicado no fim de julho, mostrou que o uso de hidroxicloroquina, associada ou não à azitromicina, não trouxe nenhum benefício ao tratamento de pacientes com quadros leves a moderados de Covid-19.

Ao contrário: além de ineficientes na melhoria do estado de saúde dos participantes, os medicamentos provocaram efeitos cardíacos e hepáticos adversos. A pesquisa teve a participação de 55 hospitais públicos e privados de ponta do país, e os resultados foram publicados no prestigiado periódico científico “New England Journal of Medicine”.

Os médicos e pesquisadores brasileiros acompanharam 667 pacientes de hospitais em diferentes regiões do início da pandemia no país, em março, a junho, apenas com casos leves a moderados. Parte deles recebeu uma combinação de hidroxicloroquina, associada a azitromicina e suporte clínico padrão (217 pacientes). Outros receberam hidroxicloroquina e suporte clínico padrão (221 pacientes). Por fim, um grupo de controle (227 pacientes) apenas o suporte clínico padrão, com acompanhamento de equipe médica e cuidados já conhecidos em casos de síndromes respiratórias. Já para os dois primeiros grupos, a hidroxicloroquina, associada ou não à azitromicina, foi administrada durante sete dias.

Todos os participantes foram analisados 15 dias depois de começarem o tratamento. Ao final, o quadro clínico era similar nos três grupos estudados, ou seja, os medicamentos não foram úteis no desfecho da evolução clínica.

Segundo a pesquisa, após 15 dias, estavam em casa, sem limitações, 69% dos pacientes que usaram hidroxicloroquina combinada a azitromicina. Mas o mesmo quadro foi visto em 64% dos pacientes que usaram somente hidroxicloroquina, e por 68% dos pacientes que receberam apenas suporte clínico padrão.

BOLSONARO NA CONTRAMÃO DA CIÊNCIA

As declarações de Bolsonaro sobre os benefícios da hidroxicloroquina, cloroquina e do antibiótico azitromicina colidem com as orientações de entidades médicas de todo o mundo.

Apesar de o Ministério da Saúde, a pedido do presidente, recomendar o tratamento da Covid-19 com essas medicações, entidades como a OMS (Organização Mundial de Saúde) não apoiam essas medidas, pois apontam que não há comprovação científica para tal.

Além disso, diversos testes com cloroquina e hidroxicloroquina foram suspensos, após não apresentarem bons resultados no combate ao novo coronavírus.

Em 30 de junho, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) divulgou uma nota para alertar sobre os riscos desses tratamentos precoces. "Nos últimos dias, muito tem se divulgado nas redes sociais a respeito do uso de medicamentos para a covid-19. Várias destas divulgações que circulam nas mídias sociais são inadequadas, sem evidência científica e desinformam o público", diz o comunicado.

A principal orientação das sociedades brasileiras da área da saúde, diante da ausência de um medicamento comprovadamente eficaz, é que o médico decida individualmente o tratamento que adotará, sempre citando os benefícios e riscos para o paciente. As medidas terapêuticas devem ser definidas conforme as necessidades e respostas de cada caso, sem que haja a imposição do uso de qualquer remédio.

Há meses, o presidente defende o uso da hidroxicloroquina e cloroquina no enfrentamento à Covid-19. Ele afirma que se trata da melhor alternativa por não haver nenhum medicamento comprovado contra o novo coronavírus.

No entanto, entidades como a OMS, a FDA (equivalente americana à Anvisa), a Sociedade Americana de Infectologia (IDSA) e o Instituto Nacional de Saúde Norte-Americano (NIH) recomendaram, em meados de junho, que os profissionais de saúde não usem cloroquina ou hidroxicloroquina em pacientes com a covid-19, exceto em pesquisas clínicas.

Anteriormente, a FDA havia autorizado o uso da cloroquina e derivados nos Estados Unidos para tratar a covid-19 em caráter emergencial, tendo como base estudos preliminares, sem passar por todos os testes necessários. Porém, desde a aprovação emergencial, o avanço das pesquisas trouxe evidências sólidas de que o remédio não melhora os quadros de pessoas em estado grave. Diversos efeitos colaterais, como problemas cardíacos, foram relatados. A revisão mais recente da FDA diz que o uso das substancias foi associado a relatos de arritmia cardíaca, problemas linfáticos e sanguíneos, nos rins e fígado.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Infectologia, o relatório preliminar de um grande estudo coordenado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, apontou que as medicações não trouxeram benefícios para pacientes hospitalizados.

A utilização da cloroquina e hidroxicloquina em casos de covid-19 leves ou moderados está em estudo e ainda não há resultados. Por não haver comprovação científica, entidades de saúde apontam que o uso dessas medicações é arriscado.

Já os estudos com a azitromicina apontaram que seu uso indiscriminado e inadequado favorece a resistência bacteriana. Os efeitos do antibiótico em pacientes com a covid-19 ainda não foram comprovados cientificamente.

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