Bolsonaro diz que espera sinal da população para "tomar providências" contra restrição de circulação

Lisandra Paraguassu
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Presidente Jair Bolsonaro

Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA (Reuters) - O presidente Jair Bolsonaro disse nesta quarta-feira que espera "uma sinalização" da população para "tomar providências" contra medidas de restrição de circulação aplicadas por governadores para controlar a epidemia de Covid-19 e voltou a dizer que "teremos um problema sério" no Brasil.

Em uma conversa de mais de 20 minutos com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada, Bolsonaro criticou, mais uma vez, governadores e prefeitos pela adoção de medidas que fecham o comércio e disse que a crise econômica está transformando o país em um "barril de pólvora".

"O Brasil está no limite. Pessoal fala que eu devo tomar providências. Estou aguardando o povo dar uma sinalização", afirmou. "Porque a fome, a miséria, o desemprego, estão aí, só não vê quem não quer, quem não está na rua. Eu sempre estive na rua."

Bolsonaro disse mais de uma vez que lhe pedem para "tomar providências", mas ele espera um "sinal" da população.

"Só digo uma coisa: eu faço o que o povo quiser que eu faça", afirmou.

O presidente não explicou quais seriam essas "providências". Ele já tentou impedir medidas estaduais por diversas vezes por meio de ações no Supremo Tribunal Federal, mas foi derrotado em todas elas. Na última delas, pediu que a corte derrubasse medidas adotadas pelos Estados do Rio Grande do Sul e Bahia, e pelo Distrito Federal, mas o ministro Marco Aurélio Mello não reconheceu a ação por estar assinada apenas pelo presidente, e não ter a assinatura da Advocacia Geral da União ou de qualquer advogado.

Bolsonaro atribui as dificuldades econômicas do país às políticas de fechamento do comércio, apesar de nenhum Estado brasileiro ter adotado um lockdown estrito como foi feito em países europeus.

Só agora, neste momento, com a média de mortes diárias causadas pela Covid-19 em torno de 3 mil, alguns Estados têm adotado medidas mais duras como forma de conter a disseminação do coronavírus, mas ainda estão longe de ser um lockdown como na Europa, onde efetivamente as pessoas chegaram a ser proibidas de ir para a rua a não ser para comprar mantimentos ou medicamentos.

Na maior parte do tempo durante a pandemia, as restrições impostas por governadores e prefeitos foram bem mais leves e ainda assim sempre foram criticadas por Bolsonaro.

"Esse pessoal... amigos do STF, daqui a pouco vamos ter uma crise enorme aqui. Eu vi que ministro despachou lá um processo para me julgar por genocídio. Olha quem fechou tudo, quem está com a política na mão, não sou eu", afirmou.

"Eu não quero aqui brigar com ninguém. Mas estamos na iminência de ter um problema sério no Brasil. O que vai nascer disso tudo, onde vamos chegar? Estamos em um barril de pólvora. E tem gente de terno e gravata que não quer enxergar."

A decisão a que se refere é um pedido da ministra Cármen Lúcia, ao presidente da corte, Luiz Fux, para que marque o julgamento de uma notícia-crime contra Bolsonaro por suspeita de genocídio contra indígenas durante a pandemia.

Bolsonaro voltou a reclamar do STF ao afirmar que o ministro Luís Roberto Barroso, que determinou ao Senado que instalasse a CPI da Covid --em ação apresentada por dois senadores--, o fez para atingi-lo.

"Daí cria esse clima de animosidade. É uma interferência sim desse ministro junto ao Senado para me atingir. Agora, repito, a temperatura está subindo, a população está cada vez mais em uma situação complicada. Eu gostaria que pessoal que usa paletó e gravata, que decide, visite aí a periferia, converse com sua empregada doméstica", reclamou.

A CPI da Covid foi instalada na terça-feira e, por pressão governista, teve seu objeto ampliado para investigar uso de verbas federais transferidas aos Estados para combate à pandemia. A previsão até agora é que o governo não deve ter maioria entre os membros da comissão, o que tem preocupado o Palácio do Planalto.

A seus apoiadores, Bolsonaro reclamou dos senadores quererem investigá-lo e, exagerando números, disse que foram feitas "mais de 100 operações" contra governadores. Na verdade, foram cerca de 70 investigações da Polícia Federal, nem todas contra governadores. Há na lista, por exemplo, uma investigação contra o próprio presidente e o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello sobre a indicação e compra de remédios sem eficácia comprovada para tratar a Covid-19.

"Quando eu vi (a decisão sobre a CPI), fiquei chateado. Por que fiquei chateado? Por que investigar omissões minhas, não quem pegou dinheiro na ponta da linha?", disse.