Bolsonaro diz que medidas de restrição contra a Covid-19 mostram 'como é fácil impor ditadura' no Brasil

Julia Lindner e Leandro Prazeres
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BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro comparou as medidas restritivas decretadas por prefeitos e governadores contra a Covid-19 a um "estado de sítio". Para ele, as ações demonstram “como é fácil impor uma ditadura” no Brasil. Ao se colocar novamente contra o ‘lockdown’, ele repetiu a frase dita durante reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, tornada pública por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).

- Vou repetir: como é fácil impor uma ditadura. Estamos vendo municípios com guarda municipal de cassetete mantendo todo mundo dentro de casa. Imagina uma Forças Armadas, com fuzil. Em nome da ciência, da sua vida, você vai ficar em casa mofando. Uma pequena parcela da sociedade até pode ficar em casa mais tempo, mas a grande maioria não pode. Não pode produzir mais nada, todos vão sofrer. Eu sou o garantidor da democracia. Usam o vírus para te oprimir, para quebrar a economia - disse Bolsonaro.

Após discussão entre o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, Bolsonaro reforçou críticas a uma decisão da Corte que trata das atribuições dos governos federal, estaduais e municipais no combate à pandemia do novo coronavírus.

- No Brasil, o Supremo decidiu que somos concorrentes, eu, estados e municípios (...) O Estado tal toma medidas mais restritiva que a minha, aí dentro do estado o prefeito quer uma restrição mais grave ainda e o cara fecha tudo. Ou seja, quem decide na ponta da linha não sou eu, é muitas vezes o prefeito. Ele que decide. É o estado de sítio - criticou Bolsonaro.

O presidente disse, ainda, que algumas decisões tomadas no país por outros gestores sobre a pandemia são "absurdas", mas que precisa aceitá-las para cumprir a Constituição:

- Têm decisões que são absurdas. Busco o diálogo com alguns, digo que o caldo vai entornar. Vai entornar por parte de quem? O povo com fome, a pessoa com fome perde a razão, topa tudo. Estou antevendo um problema sério no Brasil. Não quero falar que problemas são esses porque não quero que digam que estou estimulando a violência, mas teremos problemas sérios pela frente.

Na transmissão, Bolsonaro falou que as Forças Armadas acompanham o que está acontecendo, reclamou de críticas feitas a militares, mas evitou opinar sobre a ditadura militar, a qual já defendeu no passado.

- Eu faço o que o povo quiser. Digo mais: eu sou o chefe supremo das Forças Armadas. As Forças Armadas acompanham o que está acontecendo. As críticas em cima de generais, não é o momento de fazer isso. Se um general errar, paciência. Vai pagar. Se errar, eu pago. Se alguém da Câmara dos Deputados errar, pague. Se alguém do Supremo errar, que pague. Agora, esta crítica de esculhambar todo mundo? Nós vivemos um momento de 1964 a 1985, você decida aí, pense, o que que tu achou daquele período. Não vou entrar em detalhe aqui - declarou.

Bolsonaro estava acompanhado do médico Marcelo Marcos Morales, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que acompanhou a missão do governo a Israel em busca do spray nasal que está em fase de testes para tratamento do novo coronavírus. Durante a transmissão, o presidente questionou o médico sobre o lockdown. Aparentemente constrangido, o médico contemporizou.

- Acho que isso depende da, falando tecnicamente, depende de cada momento em cada situação - respondeu o médico, em contraste ao que Bolsonaro argumentava.

O presidente, então, cortou a fala e reagiu dizendo que "estamos há um ano já em lockdown e o vírus continua aí".

Na mesma live, Bolsonaro voltou a defender remédios sem eficácia comprovada para a Covid-19 e disse que o tema do tratamento precoce virou tabu no Brasil.

- Você passa a ser terraplanista - reclamou, em referência a uma fala do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Olha o jumento me chamando de terraplanista, um jumento. Eu tenho dois cursos superiores.

No final, Bolsonaro fez uma brincadeira com o ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes. "A terra é redonda?", questionou Bolsonaro, aos risos. Pontes respondeu que sim e que nunca viu o presidente dizer o contrário. Durante toda a transmissão, o presidente manteve um globo terrestre em cima da mesa.