Bolsonaro diz que não discutirá sobre posts apagados pelo Twitter

DANIEL CARVALHO
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BRASÍLIA, DF, 30.03.2020 - JAIR-BOLSONARO-DF - Homem usando máscara registra imagem do presidente Jair Bolsonaro na saída do Palácio da Alvorada, em Brasília, na manhã desta segunda-feira (30). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
BRASÍLIA, DF, 30.03.2020 - JAIR-BOLSONARO-DF - Homem usando máscara registra imagem do presidente Jair Bolsonaro na saída do Palácio da Alvorada, em Brasília, na manhã desta segunda-feira (30). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não quis comentar nesta segunda-feira (30) o fato de o Twitter ter apagado um dia antes duas postagens dele. Questionado quando deixava o Palácio da Alvorada, alegou que, como se trata de uma empresa privada, não comentaria. "Não vou discutir, é uma empresa particular."

No domingo à noite, o Twitter apagou duas postagens feitas por Bolsonaro. A empresa considerou que as postagens violavam as regras de uso ao potencialmente colocar as pessoas em maior risco de transmitir o vírus. Foi a primeira vez que a rede social apagou postagens do presidente do Brasil.

Os posts eram de vídeos do tour que o presidente fez neste domingo no DF, contrariando seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que recomendou que as pessoas ficassem em casa como medida de enfrentamento ao coronavírus.

Nas filmagens, Bolsonaro cita o uso de cloroquina para o tratamento da doença e defende o fim isolamento social. A hidroxicloroquina, combinado de cloroquina e azitromicina, está em fase de testes e não há comprovação de sua eficácia na luta contra o coronavírus.

Em um dos posts, em Taguatinga, ele conversa com trabalhadores informais, escuta críticas à quarentena, concorda com a cabeça, e diz que o medicamento está dando certo.

No outro, em Sobradinho, o presidente entra em um açougue, fala com funcionários, projeta o desemprego que o isolamento social pode causar e, de novo, cita o remédio.

Antes de falar aos jornalistas, Bolsonaro ouviu de uma apoiadora apelos a favor do ministro da Saúde.

"Apoie o Mandetta, dê apoio ao Mandetta. Mantenha ele. Não dê munição para inimigo", gritou uma mulher que, junto com outras pessoas, aguardava o presidente deixar a residência oficial. O presidente não reagiu à manifestação, ficando apenas em silêncio.

Bolsonaro tem agido na contramão de seu ministro, o que tem levado o meio político a entender que o presidente está procurando desgastá-lo para forçar que peça para deixar o cargo.

No domingo (29), ele já havia escutado de uma outra mulher apelo semelhante.

"Presidente, confia no Mandetta, ele é o cara", disse um homem. Em seguida, uma mulher defendeu o isolamento. "Isolamento para nós, hein? Isolamento. Sem isolamento a gente não se cuida", afirmou no domingo, enquanto Bolsonaro entrava no carro.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, Bolsonaro saiu de carro na manhã de domingo para visitar pontos de comércio local e o Hospital das Forças Armadas (HFA).

A visita de Bolsonaro gerou aglomeração de pessoas no momento em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o próprio Ministério da Saúde recomendam isolamento social para evitar o contágio do novo coronavírus, que já matou 114 pessoas no Brasil.

O comboio presidencial passou por pontos de comércio na Asa Norte e no Sudoeste, além de Ceilândia e Taguatinga (cidades-satélites de Brasília). Bolsonaro falou com funcionários de supermercados e padarias e com vendedores autônomos.

O giro de Bolsonaro ocorreu um dia após Mandetta ter reforçado a importância do distanciamento social à população nesta etapa da pandemia do coronavírus.

Ele criticou, por exemplo, as carreatas, impulsionadas por discurso do próprio presidente, que pedem a retomada da rotina em alguns estados -em São Paulo, uma delas passou pelo centro da cidade na manhã deste domingo, sendo recebida com panelaços em alguns prédios e gritos de "Fora, Bolsonaro".

Os vídeos compartilhados por Bolsonaro neste domingo estão no Facebook, que não apagou as postagens. Nesta segunda, o presidente admitiu pela primeira vez que não há nenhum medicamento com resultado comprovado até agora.

"Estou ciente da minha responsabilidade. O vírus veio de fora para dentro e temos que buscar uma solução para minimizar as consequências do mesmo aqui no Brasil. Vai morrer gente? Vai morrer gente, como tem morrido algumas pessoas. Teremos uma crise maior? Poderemos ter. Tem vacina? Não. Tem remédio comprovadamente? Ainda não", afirmou.

"Mas temos um outro problema: desemprego. E tem que ser tratado com igual responsabilidade, o vírus a questão do desemprego", disse Bolsonaro.

Sobre ter apagado as postagens de Bolsonaro, o Twitter divulgou uma nota.

"O Twitter anunciou recentemente em todo o mundo a expansão de suas regras para abranger conteúdos que forem eventualmente contra informações de saúde pública orientadas por fontes oficiais e possam colocar as pessoas em maior risco de transmitir Covid-19. O detalhamento da ampliação da nossa abordagem está disponível em nosso blog".