Bolsonaro diz que nunca houve ditadura no Brasil: 'tinha direito de ir e vir'

Foto: Pavel Golovkin/Pool via REUTERS

Resumo da notícia

  • Você tinha direito de ir e vir, você votava", diz Bolsonaro, ignorando que o regime proibiu o voto direto a presidente e governadores

  • Bolsonaro cita caos político da Bolívia para pedir mudança no sistema eleitoral do Brasil

Por Marcos Tordesilhas

O presidente Jair Bolsonaro defendeu novamente a ditadura militar que governou o Brasil por 21 anos, afirmando que a população brasileira tinha direito a voto na época – um dado incorreto, considerando que o voto popular ficou proibido no país nas eleições para presidente (entre 1964 e 1985) e governador (entre 1964 e 1982).

Bolsonaro abordou o assunto nesta quinta-feira (14), em sua transmissão ao vivo no Facebook, ao comentar sobre o último Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que não teve nenhuma pergunta sobre o período da ditadura.

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"A imprensa falou que não teve questão sobre ditadura. Parabéns, imprensa: nunca teve ditadura no Brasil. Que ditadura foi essa, sem querer polemizar, onde você tinha direito de ir e vir, você tinha liberdade de expressão, você... votava, tá?", perguntou o presidente.

Além de proibir o voto popular para presidente e governadores, que eram escolhidos indiretamente via Colégio Eleitoral ou pelas Assembleias Legislativas dos Estados, a ditadura militar também estabeleceu a nomeação de prefeitos de algumas categorias de cidade – a população de São Paulo, por exemplo, ficou sem eleger um prefeito entre 1969 e 1985.

Bolsonaro também citou "direito de ir e vir" e "liberdade de expressão" no período. Documentos, depoimentos e outras evidências mostram, no entanto, que os agentes repressores do governo militar praticavam prisões, torturas e assassinatos por motivação política, incluindo de pessoas que não participavam da luta armada contra o regime.

Além disso, conteúdos noticiosos e artísticos que eram veiculados ou publicados no Brasil eram submetidos a censura prévia – vários jornais e obras artísticas tiveram suas publicações barradas ou alteradas pela influência do governo.

"Eu não vou entrar em detalhe, não vou polemizar, tá certo? Quer chamar de ditadura, pode continuar chamando, não tem problema nenhum. O que interessa é o que tá na cabeça de grande parte da população, de como era aquele período e como está o Brasil hoje", acrescentou Bolsonaro, que na sequência afirmou ser democrático.

"Acho difícil alguém falar que quem estava há pouco tempo presidindo o Brasil era mais democrático do que eu. Em algum momento você me ouviu em falar de controle social na mídia? Zero. Ou de que eu quero que a internet seja regulamentada? Que eu estou muito preocupado com a CPMI da Fake News? Eu estou preocupado em dali ser um monstrengo, um relatório pro Ministério Público, um projeto de lei... espero que não saia", completou.

Bolsonaro concluiu a fala afirmando que foi a maior vítima de fake news durante o período eleitoral. "Fui acusado de racista, homofóbico, misógino, xenófobo", reclamou o presidente.

Auditoria nas eleições

Na live desta quinta, Bolsonaro falou rapidamente sobre a situação da Bolívia, que assistiu à renúncia de Evo Morales no último domingo (10). Ele lembrou que a crise política aumentou por uma acusação de fraude nas eleições presidenciais, em outubro, e afirmou que esse é um motivo para que o sistema eleitoral brasileiro seja alterado e permita a auditoria dos votos.

Bolsonaro já reclamou algumas vezes da metodologia utilizada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que não utiliza comprovantes impressos após o voto na urna eletrônica, como fazem outros países com sistemas digitais.

O comprovante em papel, que não foi citado pelo presidente na transmissão desta quinta, é considerado um dos instrumentos que podem ser usados em uma eventual auditoria dos votos. O TSE, no entanto, rejeita a ideia do recibo impresso e diz que o sistema eletrônico brasileiro é auditável.

"Devemos votar no começo do ano que vem um projeto de lei de modo que se possa auditar uma eleição. Não podemos ter essa suspeita de fraude, porque é um problema que pode acontecer, de um lado ou de outro. No ano passado, todo mundo dizia que eu tinha tudo para ganhar a eleição, e o resultado foi de 55% para mim e 45% para o outro candidato", lembrou Bolsonaro, sobre a disputa com o petista Fernando Haddad em 2018.

"Muita gente achou que a diferença era maior. Imagina se o outro lado ganha? Como iria auditar? Nós temos obrigação de termos um sistema votação confiável para as eleições – se não no ano que vem, a partir de 2022. Até para evitar problemas como na Bolívia, onde parece que o presidente abusou e fraudou o processo eleitoral", concluiu.