Bolsonaro diz que 'rachadinha' é comum e não responde se já adotou prática

Jair Bolsonaro em congresso evangélico realizado no dia 3 de agosto de 2022 (Foto: Ton Molina/Getty Images)
Jair Bolsonaro em congresso evangélico realizado no dia 3 de agosto de 2022 (Foto: Ton Molina/Getty Images)

O presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou neste sábado (13) que a prática de "rachadinha" é "bem comum", que poucos escapam dela, e não quis responder se ela já foi adotada em seu gabinete.

Seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), foi acusado dessa prática de corrupção quando foi deputado estadual, mas teve seu caso arquivado pela Justiça do Rio de Janeiro em maio.

A "rachadinha" envolve o repasse de parte dos salários de servidores a políticos e assessores dos gabinetes.

As declarações de Bolsonaro foram dadas ao podcast Cara a Tapa, no YouTube. O chefe do Executivo participou por cerca de 3 horas do programa, que alcançou mais de 400 mil espectadores ao vivo.

"É uma prática bem comum, concordo contigo [com o apresentador]. Não é só no Legislativo não", afirmou Bolsonaro, ao ser questionado sobre "rachadinha".

O apresentador, Rica Perrone, questionou sobre a existência desse tipo de crime no mundo político.

"Tenho informação que sim. Uns fazem legalmente, entre aspas, no estatuto, outros fazem por fora", disse.

O chefe do Executivo disse que partidos de esquerda menores têm no estatuto o recolhimento de parte do salário para fazer caixa para o partido. Legendas com poucos deputados têm fundo partidário menores.

Perrone então brincou que "Se gritar pega 'rachadinha'", e Bolsonaro completou: "vai sobrar pouca gente".

Na sequência, o apresentador questionou o chefe do Executivo se ele iria sobrar, mas o mandatário evitou responder. "Não vou falar de mim. Sou suspeito pra falar de mim. Não tem servidor meu falando, denunciando...", disse.

A entrevista começou às 10h30 e foi encerrada quase três horas depois, perto das 13h20.

Marcha de Jesus

Minutos depois da pergunta sobre a "rachadinha", Bolsonaro atendeu o telefone e disse que precisava encerrar a entrevista. "Tô saindo agora daqui", disse, "sim senhora, te amo". A partir das 15h, o presidente tinha participação programada na Marcha de Jesus no Rio de Janeiro com sua esposa, a primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Suspeitas de rachadinha

Flávio Bolsonaro foi acusado pelo Ministério Público do Rio de praticar o crime quando era deputado estadual. Em maio, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro decidiu arquivar a denúncia por anulação das provas que embasaram a acusação.

O pivô do escândalo envolvendo o senador é o ex-assessor Fabrício Queiroz, hoje candidato a deputado estadual pelo PTB no Rio de Janeiro.

No podcast, o presidente foi questionado sobre o caso envolvendo o seu filho 01 e voltou a dizer que, se ficar comprovado que houve irregularidade, ele "vai ter que pagar a conta".

O presidente disse que é verdade que o senador comprou casa em Brasília por R$ 6 milhões e que mais de 60% fora financiado pelo BRB (Banco de Brasília) —comandado pelo aliado bolsonarista, governador Ibaneis Rocha (MDB).

"Se aparecer algo de errado, [ele que] responda pelos seus atos, lamento", disse.

Ainda há dúvidas que pairam sobre a compra da mansão pelo senador e hoje coordenador da campanha de reeleição de Bolsonaro. Quando o caso veio a público, Flávio disse que o dinheiro ganho como empresário permitiu realizar o negócio, mas não fez menção a recursos recebidos como advogado.

O negócio foi concretizado às vésperas de Flávio ser beneficiado por uma decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça), que foi confirmada depois pelo STF.

O MP-RJ indicou que o dinheiro ganho no esquema serviu para Flávio comprar imóveis no estado.

Investigações e suspeitas sobre a prática da rachadinha são apontadas em relação ao presidente e seus familiares.

Em 2021, áudios divulgados pelo UOL, indicaram que o recolhimento de parte do salário de funcionários também ocorria no antigo gabinete de Bolsonaro na Câmara dos Deputados, com a participação ativa do hoje presidente da República.

A gravação mostra a fisiculturista Andrea Siqueira Valle, ex-cunhada do presidente, afirmando que Bolsonaro demitiu André Siqueira Valle, seu irmão, porque ele não devolvia o valor combinado.

Andrea é irmã de Ana Cristina Siqueira Valle, mulher de Bolsonaro de 1998 a 2007. Ela teve 17 parentes empregados nos gabinetes de Jair, Flávio e Carlos ao longo dos anos.

Dez deles tiveram o sigilo bancário quebrado na investigação sobre o gabinete de Flávio. Os dados mostram que eles sacavam, em média, 84% do salário que recebiam. A suspeita é que a entrega de dinheiro para a família Bolsonaro se dava com dinheiro vivo, a fim de dificultar o rastreamento.

Além disso, Bolsonaro fez transações semelhantes às que levantaram suspeitas contra Flávio, parte delas foram identificadas na quebra dos sigilos bancário e fiscal que foi anulada pela Quinta Turma do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

Apontado como operador financeiro do esquema do gabinete do filho de Bolsonaro, Queiroz foi nomeado por indicação do presidente. Eles são amigos desde 1984, quando se conheceram na Brigada Paraquedista do Exército.

De acordo com a quebra de sigilo bancário de Queiroz e sua mulher, Márcia Aguiar, a primeira-dama Michelle Bolsonaro, por exemplo, recebeu o depósito de 27 cheques entre 2011 e 2016 que somam R$ 89 mil.

Em 2009, o presidente adquiriu sua casa na Barra da Tijuca por R$ 400 mil. Quatro meses antes, a antiga proprietária havia comprado o imóvel por R$ 580 mil. Bolsonaro teve um desconto de 30% em comparação ao valor pago antes.

A transação foi revelada pela Folha em janeiro de 2018. Para investigadores, a desvalorização repentina pode indicar possível pagamento não declarado, a fim de ocultar o patrimônio do comprador de origem ilegal. O presidente, cuja casa permanece em seu nome, já negou ter adotado tal prática.

Já a análise dos documentos relativos aos 28 anos em que Jair Bolsonaro foi deputado federal, de 1991 a 2018, feita pela Folha, mostrou uma intensa e incomum rotatividade salarial de seus assessores, atingindo cerca de um terço das mais de cem pessoas que passaram por seu gabinete nesse período.

O modelo de gestão incluiu ainda exonerações de auxiliares que eram recontratados no mesmo dia, prática que acabou proibida pela Câmara dos Deputados sob o argumento de ser lesiva aos cofres públicos.

A entrevista de Bolsonaro nesta manhã é a segunda concedida a um podcast nesta semana. O chefe do Executivo está intensificando a participação em podcasts por orientação da sua campanha de reeleição.

A ideia é aproximá-lo do eleitorado jovem, um dos que mais rejeita o mandatário, segundo pesquisas de intenção de voto.

Nesta semana, mais notadamente, ele teve uma conversa de mais de cinco horas no Flow. O saldo do programa foi muito comemorado pela campanha.

No programa, Bolsonaro disse não ter interesse em nenhuma forma de anistia ou imunidade após o final de seu mandato.

Ele também admitiu "imoralidade" quando era deputado federal, ao receber auxílio-moradia da Câmara apesar de ter apartamento próprio em Brasília.

A avaliação de aliados é a de que o formato de podcast garante mais liberdade para o presidente falar, além de humanizar o mandatário, sem a contrapartida de perguntas jornalísticas.