Bolsonaro diz que vídeo deveria ter sido destruído, e Moro pede divulgação na íntegra

Aguirre Talento, Bela Megale e Daniel Gullino
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O presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto

Jair Bolsonaro disse nesta terça-feira que a gravação da fatídica reunião do dia 22 de abril deveria ter sido “destruída”, pois visava apenas à aproveitação de trechos para divulgação. Disse não saber o motivo de o material ter sido preservado e disse ter determinado a entrega integral para não “faltar com a verdade”.

O presidente reiterou o pedido para que o STF dê publicidade apenas aos trechos do vídeo relativos ao inquérito. Sergio Moro, por sua vez, divulgou uma nota após ter assistido à gravação defendendo a divulgação integral e dizendo que o material confirma o teor de suas declarações.

Bolsonaro teria defendido trocas no comando da Polícia Federal (PF) do Rio para evitar que parentes e amigos seus fossem “prejudicados” por investigações em curso. Segundo o relato de três fontes que assistiram ao vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, o presidente disse que gostaria de substituir o superintendente no Rio e que demitiria até mesmo o então ministro da Justiça, Sergio Moro, caso não pudesse fazer isso.

 

O vídeo foi exibido nesta terça-feira em Brasília para Moro, seus advogados, representantes da Advocacia-Geral da União e investigadores da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. O material faz parte do inquérito aberto no Supremo após o ex-ministro ter deixado o cargo acusando o presidente de interferir politicamente na PF.

 

Bolsonaro demonstrou disposição de ser ouvido no inquérito. Ele disse que “tanto faz” depôr pessoalmente ou por escrito, mas lembrou que no passado o ex-presidente Michel Temer foi ouvido por escrito.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello determinou que a perícia da PF transcreva integralmente as declarações do vídeo, para depois decidir sobre sua divulgação. O vídeo foi exibido às partes no processo e aos investigadores sob forte esquema de segurança, e todos tiveram que deixar os telefones celulares do lado de fora da sala.

Após a repercussão da reunião de ontem, Bolsonaro negou ter usado as palavras “Polícia Federal”, “superintendente” e “investigação” durante o encontro do dia 22 de abril, mas ressaltou, contudo, que a interpretação sobre o que foi dito “vai da cabeça de cada um”.

Segundo fontes que assistiram ao vídeo, Bolsonaro afirma durante a reunião que precisava “saber das coisas” que estavam ocorrendo na Polícia Federal do Rio e cita que investigações em andamento não poderiam “prejudicar a minha família” nem “meus amigos”. Foi sob esse argumento que defendeu mudar o superintendente do Rio, o diretor-geral da PF ou até mesmo o ministro da Justiça.

De acordo com essas fontes, Bolsonaro fez essa referência à Superintendência da PF usando o termo “segurança” quando discursou sobre a necessidade de proteger familiares de eventual perseguição ou ameaças, sem entrar em detalhes sobre os motivos da preocupação. Segundo os relatos, o presidente citou que já havia tentado substituir o “segurança” no Rio, e que, desta vez, finalmente efetivaria essa substituição. Na mesma fala, Bolsonaro teria dito que, caso não pudesse trocar o “segurança” no Rio, trocaria o diretor-geral ou o próprio ministro.

Na avaliação de investigadores, o presidente confirmou expressamente que trocaria postos-chave da Polícia Federal em troca de indicar uma pessoa de sua confiança que garantisse acesso a informações sobre investigações contra familiares e pessoas próximas.

Ainda no vídeo da reunião do dia 22 de abril, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, teria pedido a prisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). No mesmo encontro, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, teria defendido a detenção de prefeitos e governadores.

Segundo relatos de quatro pessoas que assistiram à gravação da reunião ministerial, Weintraub afirmou que “tem que mandar todo mundo para a cadeia, começando pelo STF”. A declaração do titular da Educação não surpreendeu os ministros do Supremo. Os presentes relataram que a frase foi dita enquanto Weintraub criticava as pessoas que atuam nos Poderes em Brasília.

“Essa interpretação vai da cabeça de cada um”

Na terça-feira, em entrevista improvisada na rampa do Palácio do Planalto, Bolsonaro afirmou:

— Não existem as palavras “superintendente” nem “Polícia Federal”. Essa interpretação vai da cabeça de cada um. Não tem a palavra “investigação”.

O próprio presidente, porém, já reconheceu que tinha divergências com Moro por trocas no comando da instituição, especialmente a Superintendência do Rio. Perguntado se comentou algo sobre seus filhos, Bolsonaro disse que a sua preocupação é com a “segurança” deles, após a facada que sofreu:

— A preocupação minha sempre foi, depois da facada, de forma bastante direcionada para a segurança minha e da minha família. Em Juiz de Fora, o Adélio cercou o meu filho. Talvez quisesse assassinar ele ali. A segurança da minha família é uma coisa. Não estou e nunca estive preocupado com a Polícia Federal. A PF nunca investigou ninguém da minha família.

Apesar da negativa de Bolsonaro, um dos seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), foi investigado pela PF. O órgão, contudo, pediu em março o arquivamento do inquérito.

Ministros pestam depoimento

Ainda nesta terça-feira, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Instituicional (GSI), Augusto Heleno, prestou depoimento e confirmou que o diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, reúne-se “corriqueiramente” com Bolsonaro e falou haver uma “amizade” entre os dois após o delegado ter chefiado a segurança da campanha.

Ramagem havia sido o nome escolhido por Bolsonaro para comandar a Polícia Federal no lugar de Maurício Valeixo, diretor indicado pelo ex-ministro Sergio Moro. Sua indicação, porém, foi barrada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que entendeu haver “desvio de finalidade” pela proximidade com a família do presidente.

Heleno depôs ontem e, inicialmente, vinculou a relação entre Bolsonaro e Ramagem como “chefe e subordinado”. Depois, questionado pela defesa de Sergio Moro, afirmou que a “amizade (...) vem da época em que o presidente sofreu o atentado e Alexandre Ramagem assumiu sua segurança”.

O ministro disse que, como Ramagem realizou a segurança pessoal de Bolsonaro na campanha presidencial de 2018 “é natural que haja proximidade tanto com o presidente como seus filhos”. Em seu depoimento, anteontem, o diretor da Abin negou ter “intimidade pessoal” com Bolsonaro ou seus filhos.

O ministro da Casa Civil, Braga Netto, também falou aos investigadores ontem, assim como Heleno. Ele contou que Bolsonaro “se queixava” do inquérito da Polícia Federal (PF) sobre as declarações do porteiro de seu condomínio, mas disse que, no vídeo da reunião do conselho de ministros, Bolsonaro estava se referindo a uma possível troca do seu segurança pessoal no Rio de Janeiro, e não sobre interferências na Polícia Federal.

O depoimento de Braga Netto foi prestado no próprio Palácio do Planalto, assim como o de Heleno, e durou cerca de três horas Também foi ouvido nesta terça-feira o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos.

O porteiro do condomínio onde mora Bolsonaro havia prestado depoimento no inquérito sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco, afirmando que um dos acusados pela execução esteve no condomínio no dia do crime e teria informado na portaria que se dirigia à casa do presidente. Após a divulgação do depoimento, o então ministro da Justiça Sergio Moro determinou que a PF abrisse inquérito para apurar as declarações do porteiro. Ele voltou atrás em suas acusações.

Braga Netto manteve a mesma versão divulgada mais cedo por Bolsonaro, de que suas reclamações na reunião se referiam à sua segurança pessoal. O ministro, porém, não explicou se havia inquéritos que justificariam a preocupação de Bolsonaro de que sua família e aliados pudessem ser alvo de perseguição.

O ministro da Casa Civil também confirmou ter se reunido com Moro na véspera de seu pedido de demissão, mas negou que tenha se comprometido a tentar reverter a intenção do presidente de demitir o então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo.