Bolsonaro diz temer interferência de outro Poder nos destinos do país

Presidente Jair Bolsonaro

Por Ricardo Brito

BRASÍLIA (Reuters) - O presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), afirmou nesta terça-feira temer a interferência de outro Poder nos destinos do país ao defender que "todo mundo jogue dentro das quatro linhas", em um novo recado à cúpula do Judiciário a 12 dias do primeiro turno das eleições.

"O que precisa é que todo mundo jogue dentro das quatro linhas, não apenas diga. Nossa carta pela democracia é a nossa Constituição. Não é aquela cartinha que se faz de quatro em quatro anos para ganhar simpatias, dizer que é democrata", disse.

"Tememos, sim, a interferência de outro Poder nos destinos do Brasil de forma não republicana", reforçou ele, em participação virtual da Associação Brasileira dos Supermercados (Abras), diretamente de Nova York, onde discursou na Assembleia-Geral da ONU.

Ao mesmo tempo em que Bolsonaro expressa temor pela interferência de outro Poder, numa provável alusão ao Judiciário, ele menospreza todas entidades e personalidades que vêm se posicionando a favor da democracia em meio aos contínuos ataques do próprio presidente a ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e às urnas eletrônicas, dando inclusive indicações de que pode não aceitar o resultado das eleições se for derrotado.

Sem citar seu nome, o presidente criticou o ministro do STF Alexandre de Mores --também presidente do TSE--, que havia suspendido a redução de alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre produtos de todo o país que também sejam fabricados na zona franca de Manaus.

"Não pensem vocês que eu não fico sensibilizado com certas medidas tomadas por certas pessoas na região da Praça dos Três Poderes que prejudicam a todos nós", disse Bolsonaro.

Em sua fala, o presidente não citou explicitamente nenhum ministro do Supremo ou do TSE, mas em Londres, antes de ir para Nova York, afirmou que se não ganhar por larga margem no primeiro turno "algo de anormal" terá acontecido no tribunal eleitoral.

"Está bastante dividido, muito mais favorável a mim. Eu digo, se eu não tiver ao menos 60% dos votos, algo de anormal aconteceu no TSE, tendo em vista o datapovo, que você mede pela quantidade de pessoas que não só vão nos meus eventos bem como nos recepcionam ao longo do percurso", disse.

As pesquisas de intenção de voto, no entanto, mostram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na liderança das intenções de voto. Se alguém tem chance de vencer no primeiro turno, segundo as pesquisas, é Lula.

Na campanha de Bolsonaro, segundo uma fonte, a aposta é manter o discurso de descrédito das pesquisas e manter a militância bolsonarista unida com as falas do presidente de que poderia ganhar já no dia 2 de outubro.