A Grande Família versão Bolsonaro

Presidente Jair Bolsonaro, fala à imprensa ao sair do Palácio da Alvorada
Presidente Jair Bolsonaro, fala à imprensa ao sair do Palácio da Alvorada

Jair Bolsonaro foi eleito prometendo defender as famílias e acabar com a boquinha. Dias atrás, ao justificar sua inclinação ao dirigismo sobre a produção cultural brasileira, escolheu como alvo a Ancine e filmes como “Bruna Surfistinha”.

O argumento é que não poderia permitir certos ativismos “em respeito às famílias”.

Em sua edição de domingo, o jornal O Globo divulgou um grande levantamento segundo o qual, em quase 30 anos de vida pública, desde que o patriarca foi eleito vereador no Rio, o clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com parentescos entre si, fazendo parte, ao todo, de 32 famílias.

Entre os funcionários altamente gabaritados está uma babá que trabalhou com Carlos Bolsonaro por 14 anos, uma dona de casa que jura nunca ter pisado na Câmara Municipal e a tia do ministro Jorge Francisco (Secretaria Geral da Presidência) que atuou por 16 anos no gabinete de Flávio mesmo sendo “do lar”.

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Investigado por movimentação financeira atípica, e sumido desde então, o ex-assessor Fabrício de Queiroz emplacou sete parentes em três gabinetes da família desde 2006, inclusive uma ex-cunhada de quem ninguém havia ouvido falar até domingo. Outra era sua filha, que batia cartão em Brasília enquanto dava expediente como personal trainer no Rio.

Em abril, oito parentes do ex-assessor tiveram o sigilo quebrado em investigação do Ministério Público do Rio por supostamente praticar a tal da “rachadinha”, como é conhecida a apropriação de parte do salário dos funcionários.

A revelação acontece no momento em que o presidente está prestes a emplacar o filho Eduardo no posto mais alto da carreira: a embaixada brasileira em Washington.

Questionado sobre a Bolsa Família particular, Bolsonaro demonstrou irritação. “Que mania que todo parente de político não presta? Eu tenho um filho que está para ir para os Estados Unidos e foi elogiado pelo Trump. Vocês massacraram meu filho, a imprensa massacrou, (chamou de) fritador de hambúrguer”, disse.

Para ele, a reportagem mostra que a imprensa ainda não entendeu que a eleição acabou e segue no papel de oposição.

Até aqui, esta é a única instituição que não tem (ainda) a prerrogativa de emparedar e demitir quando publica uma realidade distinta daquela que tenta vender aos eleitores. Em sua versão real, afinal, a família e a rede de amigos é o maior banco de talentos que nenhuma empresa privada jamais percebeu.

As baixas na Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos e no Inpe, o instituto nacional de pesquisas espaciais que divulgou números sobre desmatamento que desagradaram o chefe, mostram o que acontece quando o presidente que passou a vida toda apontando o dedo para adversários tem o dedo apontado contra si.

“Eu não peço. Certas coisas, eu mando. Por isso que sou presidente”, disse Bolsonaro ao falar da demissão de Ricardo Galvão, diretor do Inpe que ousou dizer em público que o governante não tinha qualificação para analisar os dados produzidos pelo instituto.

Bolsonaro exigiu do Inpe que tivesse acesso aos dados antes da divulgação – deixando sob suspeita a independência de órgãos responsáveis por produzir documentos que o presidente já demonstrou interesse prévio sobre o conteúdo. A prova do Enem, por exemplo.

Resta saber como seu eleitor vai reagir nos confrontos sobre os quais Bolsonaro não consegue emplacar sua versão oficial, caso da reportagem de O Globo. O risco é perceber que, ao defender a família brasileira, quem estava acima de todos era sua rede de parentes e parentes de amigos.