Bolsonaro e o trato à imprensa: quando o incabível virou aceitável?

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Brazil's President Jair Bolsonaro speaks to journalists holding a protective face mask on hands during a press conference amidst the Coronavirus (COVID-19) pandemic at Galeao Airport in Rio de Janeiro, Brasil, on May 5, 2021. (Photo by Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)
Presidente Jair Bolsonaro falou com jornalistas no dia 5 de maio de 2021 (Foto: Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)

A cada dia, as ações antidemocráticas do governo de Jair Bolsonaro (PL) se tornam mais comuns. Com isso, vivemos um processo de normalização: as instituições que sustentam a democracia se enfraquecem em um processo que começa por dentro.

A repetição faz com que que o que antes antes gerava indignação vire parte da rotina. Um exemplo claro é em relação ao jornalismo. Em determinado momento, em maio de 2020, diversos veículos de imprensa anunciaram que deixariam de fazer a cobertura do chamado "cercadinho", em frente ao Palácio da Alvorada, como forma de repudiar os ataques de Jair Bolsonaro aos jornalistas.

Isso, no entanto, não fez com que jornalistas deixassem de seres atacados pela maior autoridade pública do país. Mas, aos poucos, a indignação foi se esvaziando - a não ser por eventuais notas de repúdio.

Passado um ano e seis meses, o presidente da República filiou-se ao PL. No evento, jornalistas foram isolados em uma sala ao lado de onde ocorria a cerimônia e só puderam assistir tudo por um telão, como se fossem espectadores, não repórteres veiculando o que ocorre em um evento de interesse público.

O que um dia gerou indignação, hoje já deixou de ser assunto na opinião pública. E isso preocupa.

A democracia deve sempre pautar as discussões. Pautou quando PT e Lula defenderam a Nicarágua, a repercussão foi grande - e com razão. O mesmo já aconteceu no passado quando o mesmo Partido dos Trabalhadores apoiou a Venezuela. É importante não defender regimes autoritários apenas por estarem dentro do mesmo espectro político, seja ele de direita ou de esquerda. Isso não pode ser normalizado.

Mas, fora da bolha do Twitter, o quanto a sociedade debate o fato de o presidente minar o trabalho da imprensa? Outro episódio que poderia ter sido mais debatido foi o fato de a Polícia Rodoviária Federal ter prendido uma mulher que xingou Bolsonaro.

O PT, claro, está errado em apoiar Nicarágua, Venezuela e qualquer outra ditadura mundo afora. Mas o quanto estamos olhando para aquilo que corrói a democracia dentro do Brasil? A repercussão dos casos é diferente.

Como Bolsonaro age contra a democracia

BRASILIA, BRAZIL - SEPTEMBER 7: Brazil's President Jair Bolsonaro attends a demonstration to support him for attack on the country's Supreme Court, in front of the Brazilian national congress in Brasilia, Brazil, September 7, 2021. (Photo by Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images)
PResidente Jair Bolsonaro durante atos antidemocráticos em 7 de setembro (Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images)

As críticas incomodam muito o presidente da República. Qualquer questionamento mais incômodo é respondido com agressões verbais, ofensas. Com a popularidade caindo e a rejeição se expressando de forma popular - como o xingamento por uma pessoa no meio da Via Dutra -, Bolsonaro enfrenta o que Jacques Racière chama de "crise do governo democrático". Diz o autor que o que provoca essa crise é, nada mais, nada menos, do que a "intensidade da vida democrática", isto é, o povo expressando seu poder.

Outro exemplo foi em 25 de junho de 2021, quando uma jornalista da rádio CBN, Victória Abel, perguntou sobre o caso Covaxin, investigado pela CPI da Covid. Bolsonaro reagiu de modo agressivo e sugeriu que a repórter voltasse ao jardim de infância.

Aguentar críticas e questionamento faz parte da já citada "vida democrática", é do jogo. Minar essas possibilidades leva, passo após passo, a uma crise da democracia. O que leva novamente ao que diz Rancière: "O novo ódio à democracia pode ser resumido então em uma tese simples: só existe uma democracia boa, a que reprime a catástrofe da civilização democracia".

A sensação é que Bolsonaro estica tanto a corda da democracia - até que ela fique por um fio. Dessa forma, tudo o é um pouco menos radical parece, de certa forma, razoável e deixa de gerar indignação. É, também, um método.

Se em um momento, o presidente diz que uma repórter deveria voltar para o jardim de infância ou que um jornalista tem "uma cara de homossexual terrível", deixar a imprensa fora de um evento oficial parece algo tão pequeno que quase não incomoda. Não repercute, não vira editorial de jornal.

O atual governo brasileiro atua em duas frentes claras, a difamação e os ataques. Esses ataques constantes deveriam acender um alerta importante, como aponta Steven Levitsky, autor de "Como as Democracias Morrem" (o grande clichê dos últimos anos), mas as mentiras, compreendidas como verdades por alguns, justificariam as ofensas. "Se o público passa a compartilhar a opinião de que os oponentes são ligados ao terrorismo e de que a mídia está espalhando mentiras, torna-se mais fácil justificar as ações empreendidas contra eles".

A corrosão da democracia acontece não a passos largos, pelo contrário. Como descreve Levitsky, esse processo é feito "de maneira gradativa, muitas vezes em pequeníssimos passos. Tomado individualmente, cada passo parece insignificante - nenhum deles aparenta de fato ameaçar a democracia". Mas a soma deles, a normalização de tudo isso, fez o país chegar onde está hoje.

É importante revoltar-se com a situação de países onde a democracia está em risco. Mas em que medida essa preocupação se reflete em relação ao Brasil?

Há um consenso na ciência política de que a democracia tem sido corroída, não só no Brasil, mas no mundo. Para que um país seja considerado democrático, há três pilares essenciais:

  • Ataques às eleições

  • Falta de liberdade de expressão

  • Fim do Estado de direito e do sistema de freios e contrapesos

Bolsonaro foi, de fato, eleito pelo voto. Mas se esforça para que as próximas eleições sejam diferentes, como por exemplo, atacando constantemente o sistema de urnas eletrônicas. Ainda há liberdade de expressão, mas este é um direito perseguido com uma frequência perigosa. E precisamos nos atentar à situação do estado de direito e do sistema de freios e contrapesos, quis serão os próximos passos e até quando estarão funcionando.

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