O que explica a moral de Bolsonaro na Festa do Peão de Barretos?

Jair Bolsonaro, durante Cerimônia de abertura do rodeio da 64ª Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos. Foto: Marcos Corrêa/PR


Cerca de 1 milhão de pessoas são esperadas na 64ª Festa do Peão de Barretos em 2019. Entre os dias 15 e 25 de agosto, dezenas de atrações tomam conta dos arredores da arena projetada por Oscar Niemeyer, entre shows, apresentações culturais e competições de montarias, provas cronometradas e, claro, o rodeio tradicional.

Entre essas atrações está Jair Bolsonaro, que no último sábado, 17/08, vestiu a camisa e galopou em um cavalo quarto de milha de nome “Mito”.

Foi a quarta aparição do capitão na mais tradicional festa do peão, a primeira vez com a caneta de presidente da República, com a qual assinou um decreto que autoriza a realização de provas do laço em todo o país – mesmo onde as atividades foram proibidas pelos legislativos municipais. O decreto prevê ainda que a fiscalização das regras de garantia do bem-estar e as condições sanitárias dos animais será uma responsabilidade do Ministério da Agricultura.

“Este momento, onde tantos criticam as festas de peões ou as vaquejadas, eu quero dizer que, com muito orgulho, estou com vocês. Para nós, não existe o politicamente correto. Faremos o que tem ser feito”, afirmou, sendo ovacionado por uma plateia de cerca de 30 mil pessoas.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli

Era como se, naquele ambiente, o “mito” em cima do “Mito” fosse outro personagem que não o presidente caricato e atabalhoado que, fora dali, causa alvoroço nos órgãos de controle e combate à corrupção ao interferir, conforme seu gosto, na escolha de chefes da Receita, da Política Federal, do Coaf e do Ministério Público Federal; nem usasse a influência do cargo para nomear o filho na embaixada brasileira em Washington; nem fizesse homenagens a torturadores da ditadura; nem confundisse Noruega com Dinamarca.

Nenhuma das encrencas do presidente real parecia colar no figurino do presidente ideal naquele trecho do Brasil real.

Nesse figurino cabe um slogan de campanha que pedia mais Brasil, menos Brasília – um slogan que tinha como pano de fundo a construção estética dos doutores engravatados da capital que, nas entranhas dos bastidores e gabinetes, aos poucos perdiam contato com a população e a luz do sol. Bolsonaro, em sete meses de governo, ainda tenta se transformar na antítese desse modelo que foi à ruína. Assim, aos finais de semana, veste a camisa do time de futebol (de qualquer time), divide protagonismo com os detentores dos troféus, paga flexões em encontros com militares.

Em Barretos, onde uma vez por ano se encontram os microfones de fenômenos pop para o qual parte do Brasil torce o nariz, ele não só circula como o público, mas cavalga entre eles. Consegue imaginar os protocolares Michel Temer e Dilma Rousseff, que também já estiveram lá, fazendo o mesmo cosplay de caubói?

Pois é: nesse Brasil interiorano, religioso e de referências sertanejas Bolsonaro tenta transformar seu apoio em uma trincheira, fidelizando a parte do eleitorado que, nas últimas pesquisas, conferiam a ele 33% de aprovação (o mesmo índice dos que o desaprovam). Em Barretos ele teve 74% dos votos no segundo turno de 2018.

É na construção dessa imagem que reside sua força com seu eleitorado mais fiel, aquele que observa a cena e pensa que “um de nós” agora está no poder.

Se política é a capacidade de gerar identificação, o desfile de sábado mostra que Bolsonaro não perdeu de todo a imagem que conseguiu transmitir durante a campanha, enquanto o terreno da chamada política tradicional era esmigalhada.

Os aplausos à “atração” do Rodeio são uma demonstração de que o noticiário sobre o uso das mesmíssimas ferramentas da velha política para governar não produziu efeitos na trincheira de onde ainda não tirou o pé, ficando à vontade para seguir a metralhadora contra inimigos mundo afora, inclusive cientistas, defensores do clima, defensores do meio ambiente e possíveis parceiros comerciais.

Do lado de “lá” cabe tudo no grande balaio do “politicamente correto”, um clichê como todos os clichês políticos, mas ainda capaz de produzir efeitos, como mostra o discurso do locutor do rodeio, Cuiabanno Lima, que clamou a plateia a aplaudir “o simplão da República” que, em suas palavras, estava ali para provar que não é “um presidente Vaselina”.

Nesse Brasil nem sempre retratado nas análises políticas desfilam alguns dos nomes mais ouvidos da rádio e do sistema de streaming, como Simone & Simaria, Gusttavo Lima, Chitãozinho & Xororó, Jorge & Mateus, Fernando & Sorocaba, Alok, Kevinho, entre outros.

Para entender a moral do presidente naquela arena, no auge de sua fase hiperativa de impropérios, é preciso entender o que aquela plateia está dizendo ao restante do país.