Morte da rainha suspende, mas não tira de cena roteiro golpista ensaiado nas redes

A supporter of Brazil's President Jair Bolsonaro takes part in a protest during Independence Day, in Porto Alegre, Brazil, September 7, 2022. REUTERS/Diego Vara
Apoiador de Jair Bolsonaro durante manifestação em 7 de Setembro. Foto: Diego Vara/Reuters

Quem espera uma travessia suave daqui até 2 de outubro, quando os brasileiros vão às urnas, pode trincar os dentes: há uma narrativa pronta de fraude colocada em banho-maria misturada à multidão de camisas verde e amarelas que foram às ruas em São Paulo, Rio e Brasília no último dia 7 de Setembro.

Um levantamento do jornal O Globo, com base em monitoramento de especialistas nas redes sociais, mostrou que pedidos de intervenção militar voltaram a mobilizar a militância bosonarista.

Mensagens com ataques à democracia e às urnas foram observadas em 76% das postagens, segundo o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital.

O vírus golpista estava embutido no cavalo de Tróia do coro de “imbrochável”.

O Monitor de Debate Público, da USP, traçou um perfil dos soldados que foram às ruas em defesa de Jair Bolsonaro. Em Copacabana, por exemplo, a multidão era formada majoritariamente por homens (57%), brancos (51%) e com idade média de 50 anos. Oito em cada dez manifestantes (78%) diziam ser “muito antipetistas” e conservadores (80%).

Em São Paulo, só 11% dos presentes aos atos ganhavam até dois salários mínimos (no conjunto geral, o segmento chega a 70% da população).

Nas duas praças o nível de desconfiança sobre as urnas eletrônicas era superior a 70% (71% no Rio e 72% em São Paulo).

Mais: na capital fluminense, 69% dos entrevistados defendiam "intervenção militar constitucional se as eleições forem fraudadas”, índice semelhante, segundo o Monitor, ao apurado na Paulista (68%).

O “se” aqui não é detalhe.

No dia seguinte aos atos, Bolsonaro voltou a levantar suspeitas sobre o sistema eletrônico de votação. E, apostando na potência visual dos atos, botou em campo seu DataPovo, para questionar: “Alguém acredita que numa eleição limpa o Lula ganha?”.

Pouco antes de se dirigir ao palco principal do desfile da Independência, em Brasília, Bolsonaro citou o ano de 1964, além de outras datas marcadas por ruptura no país, e afirmou que a História poderia se repetir.

Naquele ano, sob o argumento de que o país corria o risco de se transformar em uma república comunista, a exemplo de Cuba, militares tomaram o poder e só se retiraram 21 anos depois.

Até hoje tratam o golpe como um dever, não um desejo: afinal, o ato de força evitou algo supostamente “pior”.

Bolsonaro repete o roteiro dizendo que o Brasil hoje corre risco de se tornar uma ditadura esquerdista aos moldes da Venezuela e da Nicarágua.

A conversa não sobrevive a dois minutos de análise fria, já que o partido de seu adversário respeitou todos os ritos democráticos desde que disputou a Presidência pela primeira vez, em 1989. O PT passou quase 14 anos no poder sem alterar a estrutura do Judiciário ou instituir projetos de reeleição infinita, como fazem regimes autocráticos à esquerda e à direita, e Dilma Rousseff aceitou o processo de impeachment sem promover qualquer reação armada.

Ainda assim, como demonstraram as manifestações de 7 de Setembro, não são poucos os que temem uma guinada ditatorial à esquerda e veem na eleição de Lula o pontapé inicial para uma “fraude” vendida e anunciada por Bolsonaro desde o primeiro ano de governo.

O caldo está pronto: Como Donald Trump nos EUA, Bolsonaro quer realmente fazer parte do país acreditar que não tem como perder a disputa, a não ser por força de um “golpe”; qualquer resposta a isso, como ocorreu no Capitólio em 6 de janeiro, nasce com o nome de “intervenção constitucional”, supostamente justificada como “contragolpe”.

Este é o plano e esta é a mensagem que Bolsonaro vai martelar até outubro.

O dia seguinte das manifestações era parte importante para embalar a estratégia com imagens e discurso decorado. A morte da rainha Elizabeth 2ª, no Reino Unido, atrapalhou o plano ao monopolizar as postagens e atenções das redes sociais. O noticiário suspendeu o embalo golpista, mas não será suficiente para tirá-lo de cena.