Não é Omar Aziz quem esculhamba Forças Armadas. É Bolsonaro

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Luiz Paulo Dominguetti, the representative of Davati Medical Supply, and senator Omar Aziz attend a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil July 1, 2021. REUTERS/Adriano Machado
O senador Omar Aziz durante sessão da CPI. Foto: Adriano Machado/Reuters

“Deus me ajudou e eu ganhei dinheiro”.

Desde a famosa frase do deputado João Alves, que em 1993 contava ter ganhado mais de 200 vezes na loteria para justificar a fortuna originária de desvios no escândalo dos anões do orçamento, não me lembrava de uma história tão fantasiosa como a contada à CPI da Pandemia pelo ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Dias.

A história é mais ou menos assim: ao fim de um expediente comum, Dias foi a um shopping de Brasília tomar um chope com um amigo, um servidor público e ex-funcionário da Anvisa, quando do nada surgiu um tenente-coronel e assessor em seu departamento junto com um PM de Alfenas com uma oferta imperdível de 400 milhões de doses de vacina contra covid-19 em liquidação.

Esse PM, Luiz Paulo Dominghetti, hoje acusa o ex-secretário de cobrar propina de um dólar por cada dose vendida ao seu ministério.

Dias, um ex-sargento da Aeronáutica, se enroscou tanto para justificar por que uma figura tão improvável como Dominghetti foi oficialmente recebida em agenda oficial que acabou preso por ordem do presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM). Acusado de mentir à comissão, ele foi solto pouco depois mediante uma irrisória fiança.

Durante parte do dia, as discussões, inclusive entre os próprios integrantes da CPI, eram se a prisão não representaria um espetáculo com pitadas de abuso de autoridade. (Spoiler: representava).

Por aqui, já falamos sobre como o colegiado tem incorporado métodos similares àqueles criticados nos tempos da falecida Lava Jato.

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Menos pela prisão, e mais pelo que disse na sessão, Aziz virou pivô de uma crise entre Legislativo e Forças Armadas que não se via, talvez, desde 1968, quando o deputado Márcio Moreira Alves, do MDB da Guanabara, denunciou abusos do regime militar e conclamou o país a boicotar os desfiles de sete de setembro daquele ano.

Ofendidos, os militares pediram a cabeça do parlamentar. Não foram atendidos. A crise serviu de pretexto, pouco depois, para a edição do Ato Institucional número 5, que resolveu a questão fechando o Congresso e cassando opositores. Era o momento mais duro da ditadura.

Mais de 50 anos depois, um senador foi enquadrado pelo ministro da Defesa e os chefes militares após afirmar que “fazia muitos anos que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo”.

A suspeita de propina sobre a oferta fajuta de 400 milhões de doses da AstraZeneca (que não reconhece a empresa de Dominghetti como representante) e os problemas na ordem de pagamento da vacina indiana ocorreram debaixo das barbas de Eduardo Pazuello, general que confundia Amazonas com Amapá e que deixou o ministério da Saúde se queixando da romaria por pixulés em seu gabinete (até agora não deu nome aos bois).

Ele também rasgou uma norma do próprio Exército ao figurar no palanque de Jair Bolsonaro durante um ato de campanha antecipada em forma de motociada no Rio de Janeiro. Passou longe de ser punido.

O ex-número 2 de Pazuello na Saúde, o coronel Elcio Franco, está a um passo de ser indicado pela CPI por sua atuação nas compras sob suspeita. Dias empurrou a ele a responsabilidade para a aquisição das doses. 

Aziz expressou o que qualquer espectador pensou ao ouvir o depoimento e ligar os pontos: representantes de um governo loteado por militares, e comandado por um ex-capitão que deixou o Exército pela porta dos fundos, não conseguia deixar de pé uma história para lá de estranha sobre compra de vacinas no momento mais grave da pandemia.

Tudo isso enquanto o presidente parece ocupado demais com sua nova obsessão, o voto impresso. Jair Bolsonaro está há dias focado em reescrever a história das eleições de 2014 e 2018, da qual se sagrou vencedor. E, já se antecipando a uma possível derrota em 2022, mal disfarça a intenção de golpear o país sem reconhecer o resultado das urnas eletrônicas. Faz isso enquanto bate no peito para dizer que tem a seu lado o “meu Exército”.

Mas, na versão da nota da cúpula militar, divulgada no mesmo dia, quem esculhamba a instituição é o presidente da CPI, criticado e emparedado justamente por declaração que não fez. Diferentemente do que escreveram os missivistas, Aziz não “generalizou” esquemas de corrupção nem acusou a instituição das Forças Armadas.

Pelo contrário: ao dizer que os bons militares deveriam se envergonhar de quadros como o ex-sargento que levou à CPI uma história da carochinha, deixou subentendido que estes não representavam a instituição.

Falta maturidade e bom senso. E falta sobretudo interpretação do texto. Alguém se importa?

Na gritaria, o estrago estava feito, com a tensão galgando mais degraus na deterioração institucional do país e sem que ninguém entre nós, mortais, se sentisse minimamente seguro na tormenta.

Que há uma esculhambação em curso há. Mas ela não é resultado de uma fala tirada do contexto da CPI. Ela é estimulada e alimentada diariamente pelo presidente que aposta no caos para colher sabe-se-lá-o-quê em troca de cargos e outras benesses.

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