O que Bolsonaro ganha tirando o corpo fora dos debates na TV? Muito

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Presidential candidate Jair Bolsonaro of the Party for Socialism and Liberation (PSL) talks with Ciro Gomes of the Democratic Labour party (PDT) before their first television debate at the Bandeirantes TV studio in Sao Paulo August 10, 2018 REUTERS/Paulo Whitaker
Jair Bolsonaro discute com Ciro Gomes durante debate da TV Bandeirantes em agosto de 2018. Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Jair Bolsonaro, presidente que levou o nível da discussão pública para a camada do pré-sal, está preocupado com a qualidade dos debates eleitorais. Temendo tomar bancada dos “dez candidatos” (contas dele) que irão para o embate na TV, ele já avisou que só participará de encontros do tipo no segundo turno.

Com isso, tornam-se oficialmente reais as chances de que a eleição seja decidida sem que nenhum candidato estapeie ou seja estapeado diante dos telespectadores. Uma perda tanto para quem gosta de enfrentamento (o acervo das últimas eleições é rico em duelos do tipo) quanto para quem quer ver testada, ao vivo e diante das câmeras, a inteligência emocional de seu candidato fora de seu habitat natural.

A de Bolsonaro habita há pelo menos quatro anos, contando as últimas eleições, em um seguro cercadinho composto por bajuladores. De quando em quando algum desavisado ou infiltrado consegue tirar o presidente do sério ao fazer perguntas incômodas no meio da claque. Digite aí em qualquer buscador da internet as tags “Bolsonaro” “se” “irrita” “apoiador” e divirta-se.

Bolsonaro, tanto em sua versão candidato como na de presidente eleito, não gosta de prestar conta de atos, ações e omissões. Evitou conceder entrevistas a veículos que pudessem confrontá-lo ou questionar versões fantasiosas da realidade. Essas foram divulgadas aos montes nas redes e em canais simpáticos ao presidente.

No último encontro, até a saúde sexual do ex-capitão foi questionada por um conhecido sabujo do entretenimento disfarçado de jornalismo. É onde Bolsonaro se sente bem.

Sabe onde o presidente não se sente bem? Isso mesmo, no tete-a-tete com outros candidatos.

Em 2018, antes do atentado a faca sofrido por ele na campanha, seu desempenho foi sofrível. Em um desses debates, ele foi jantado por Marina Silva (Rede) por ter ensinado uma criança a fazer arminha com a mão.

Alegando problemas de saúde, ele fugiu de encontros do tipo como o diabo da cruz. Tinha motivos para isso –além de uma fila de jornalistas chapa-branca dispostos a levar ao ar, no momento dos debates reais em emissoras concorrentes, perguntas camaradas ao já então favorito da corrida.

Bolsonaro, é bem verdade, não é o primeiro nem será o último candidato a fugir dos debates na TV.

Lula, seu principal adversário, já fazia isso quando despontava como favorito em 2006. No segundo turno, quando a água subiu ao pescoço, ele topou ir ao embate. Geraldo Alckmin, hoje seu pré-candidato a vice, bateu tanto que assustou seus eleitores. Ele terminou o segundo turno com menos votos do que conseguiu no primeiro.

Mais que um feito, um sinal de que o eleitor quer um pouco de equilíbrio e serenidade no meio do inevitável tiroteio de ideias.

O eleitor pode achar estranho que o presidente que mais propaga violência agora tenha medo das pancadas que pode tomar na TV. E lembrar que, diferentemente de outras disputas, o candidato à reeleição dessa vez não é o favorito.

O debate não é, então, uma oportunidade de mostrar para um público maior do que seu cercadinho seus planos para o país? Ou suas justificativas, ainda que esfarrapadas, sobre a crise da qual não conseguimos sair?

É e não é.

O eleitor menos apaixonado ou vulnerável ao canto dos cisnes do populismo de direita já percebeu que o atual presidente não sofre apenas de déficit de inteligência emocional, mas também cognitiva. A chance de se embananar com números, planos e projetos é imensa.

Bolsonaro pode arrancar aplausos dos eleitores mais fieis, mas dificilmente conseguiria transmitir alguma segurança ao eleitor desconfiado ao ser questionado sobre por que não tomou vacina, por que demorou a comprar os imunizantes, por que ataca tanto um sistema de votação que o elegeu há quatro anos, por que deixou ao centrão o comando do chamado orçamento secreto, o que viu nos olhos de Valdemar Costa Neto ao se filiar ao PL, por que a CGU precisou interromper processos de compras de laptops e mesas com preços suspeitos, o que levou à queda de Ricardo Salles após uma operação da PF contra madeireiros, o que explica os gastos de seu cartão corporativo nas férias ou se ele acredita mesmo que seu filho conseguiu comprar uma mansão de R$ 6 milhões apenas trabalhando como advogado.

São perguntas que parte do público gostaria de ver respondidas.

Lula não faz questão de fazê-las frente a frente porque lidera a corrida sem elas. Sem Bolsonaro, dificilmente ele vai topar virar o boi de piranha de Ciro Gomes, o franco atirador remanescente da disputa.

A estratégia de Lula e Bolsonaro, inclusive, tem sido ignorar as provocações lançadas pelo pedetista em suas redes. Por que dariam palanque a ele na TV?

O certo é que hoje, sem a possibilidade de testar a convicção do voto com o desempenho dos candidatos no debate, o eleitor tem tudo para decidir a peleja antes mesmo do segundo turno.

Isso favorece quem está na frente. E Bolsonaro, ganharia o quê?

Bem. Bolsonaro sabe que pode não ser reeleito. Mas seus aliados, entre eles integrantes da família, serão. E serão a base do bolsonarismo no Congresso e parte dos executivos estaduais durante quatro anos.

Seu ídolo Donald Trump perdeu as últimas eleições nos EUA e submergiu após a tentativa frustrada de virar a mesa na invasão do Capitólio. Virou uma espécie de Rei Sebastião ianque à espera do retorno triunfal. Não sem antes os republicanos engordarem sua bancada no Congresso de meio de mandato.

Bolsonaro pode não levar a disputa principal em outubro, mas não sairá de cena. Jogar parado, sem risco de ser nocauteado em público na TV, é uma forma de ajudar sem atrapalhar o movimento que leva seu nome.

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