Bolsonaro exalta Malafaia como conselheiro, e pastor repete pedido a Deus para travar sistema eleitoral

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Com Jair Bolsonaro (PL) ao seu lado e uma bandeira do Brasil sobreposta ao nome de Jesus no telão, o pastor Silas Malafaia repetiu suspeitas -sem qualquer prova ou indício de fraude eleitoral- levantadas anteriormente pelo presidente e disse que "ninguém vai fraudar a vontade soberana do povo".

Já fora do púlpito, confirmou à reportagem que se referia à possibilidade de interferências indevidas nas urnas eletrônicas, tese que circula no bolsonarismo, baseada em teorias conspiratórias e que não encontra qualquer eco em pleitos passados.

"Não estou dizendo que autoridades do Judiciário vão fraudar, transcende eles. Se bandido vagabundo invade o sistema mais seguro do mundo que é Pentágono, por que não vão invadir aqui?", disse o pastor depois de sua pregação.

Às vésperas do ato bolsonarista de 7 de Setembro, Malafaia afirmou em culto que oraria para que o sistema eleitoral travasse caso houvesse fraude nas urnas, dando corda para suspeitas infundadas que Bolsonaro tenta colar nas eleições.

"Pedi a Deus mesmo", repetiu nesta quinta (15). "Tem uma arma que conheço que é a oração. Imagina oito horas um sistema desses travado o que vai acontecer: a eleição ó, um beijo, [convoca] outra. Se acontecer é grave, é sério. Se tiver algum roubo, que Deus no seu infinito poder trave isso [o sistema]."

No Brasil, nunca houve registro de fraude nas urnas eletrônicas, em uso desde 1996.

No palco, Malafaia fez nesta quinta uma referência velada ao número de urna de Bolsonaro ao citar um versículo bíblico, Juízes 10:3: "Depois dele veio Jair, de Gileade, que liderou Israel durante 22 anos".

Quando estava com a palavra, Bolsonaro exaltou Malafaia como seu "conselheiro" em culto que celebrou os 64 anos do pastor.

"Conselheiro mesmo", reforçou o presidente ao descrever um dos líderes evangélicos que lhe é mais fiel.

Por vezes, "em momento de alta temperatura", Bolsonaro admitiu que nem sempre abre os áudios do amigo pastor. "Fico irritado."

Em seguida, enalteceu o aliado como um "amigo de verdade", que "reclama, dá sua opinião, mas que no final nossa amizade acima de tudo, porque sabemos que somos passageiros aqui".

Bolsonaro usou seu breve discurso na sede da Assembleia de Deus Vitória em Cristo para cristalizar o papel de Malafaia como um dos seus mais importantes porta-vozes no segmento evangélico. Lembrou que foi o pastor carioca quem celebrou seu terceiro casamento, com Michelle, em 2013.

Voltou a dizer que um homem solteiro, "para ser mais feliz ainda", deve encontrar "uma princesa para casar".

De resto, Bolsonaro reproduziu falas corriqueiras em discursos que direciona aos evangélicos. Marcou posição contra aborto, "ideologia de gênero" e drogas. Disse também que "o bem continuará vencendo o mal".

Também elevou os decibéis patrióticos ao sugerir que a direita bolsonarista resgatou a bandeira do Brasil, que seria pisada e rasgada por militantes do outro lado -supõe-se que esquerdistas. "Este país chamado Brasil continua sendo a terra prometida", disse.

O primeiro político no púlpito foi o governador Cláudio Castro (PL), que chamou Malafaia de "reserva moral para todos nós" e "uma benção na nossa vida".

Os pitacos eleitorais estavam lá, nem sempre sutis na mensagem subliminar. Como quando a cantora gospel Eyshila, à moda de Malafaia, usou o número de Bolsonaro para instigar os fiéis a dizer para o vizinho de cadeira que Deus é fiel. "Queria que você falasse para 22 pessoas aqui do lado."

Na rua havia um atípico esquema de segurança, com revista e grades, inédito em outras visitas do presidente. Enquanto o telão exibia uma foto do aniversariante sorrindo com a mão no queixo, balões verdes, cinzas e pretos flutuavam sobre o salão. O letreiro com o nome da igreja estava iluminado por luzes verde e amarelas.

Os políticos à direita iam chegando aos borbotões. O deputado federal Daniel Silveira (PTB), que ganhou projeção por ofender ministros do Supremo Tribunal Federal. O deputado estadual Rodrigo Amorim (PTB), cuja fama vem de rasgar uma placa com o nome de Marielle Franco, a vereadora do PSOL assassinada em 2018. O senador Romário (PL), que disputa a reeleição com respaldo do presidente. A deputada Clarissa Garotinho (União Brasil), que também quer a chancela presidencial para o posto.

Membro da igreja e líder da bancada evangélica, Sóstenes Cavalcante (PL) foi um dos primeiros a chegar. À Folha ele disse que calhou de o aniversário do seu pastor cair no meio da campanha, e por isso o culto de celebração "acaba tendo conotação eleitoral".

Malafaia é um dos pastores mais ativos na defesa do bolsonarismo. Disse à reportagem que pagou do próprio bolso R$ 35 mil pelo trio elétrico carioca onde o presidente em busca da reeleição discursou no 7 de Setembro.

Em sua igreja, disse que o povo evangélico é "uma potência". "Vocês vão ter que nos engolir."