Bolsonaro, é fake news dizer que fake news são parte da vida

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Brazil's President Jair Bolsonaro gestures during a ceremony at the Planalto Palace, in Brasilia, Brazil September 14, 2021. REUTERS/Adriano Machado     TPX IMAGES OF THE DAY
Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto. Foto: Adriano Machado/Reuters

Pouca gente sabe, mas durante sua turnê ao Brasil, em 2012, a Madonna descolou meu número de WhatsApp com um assessor de imprensa, me escreveu contando que acompanhava minhas colunas, que era minha fã número 1 e me convidou para tomar um drink após uma apresentação em São Paulo. Foi lindo. Mantivemos contato por cerca de cinco anos, quando me apaixonei por outra estrela da música pop e ela por mim. A Madonna nunca me esqueceu.

O parágrafo acima é uma mentira. Como toda mentira, ela tem perna curta e se desmente facilmente. Sua possível divulgação serviria apenas para minar a credibilidade de tudo o que eu contasse dali em diante e não faria qualquer efeito ao presente, passado e futuro da cantora —que, no máximo, mandaria um assessor desmentir em nota com o título “Se enxerga, rapaz”.

Fake News é outra coisa. Fake news é usar minha lista de seguidores nas redes sociais para espalhar que ontem à noite eu vi o presidente descer de helicóptero num descampado perto de casa e negociar com uma conhecida liderança de facção criminosa a compra de uma tonelada de cocaína para distribuir entre aliados largados ao vício caso votassem com ele no Congresso. Reparem que não disse de qual país era o presidente, mas com comandos simples de impulsionamento e ação orquestrada de amigos sacanas e robôs programados a simples divulgação da história, também sem pé nem cabeça, poderia causar estragos consideráveis durante o tempo em que permanecesse no ar —da Bolsa ao preço do dólar.

Mesmo que removida após um tempo, a notícia falsa, arquitetada e divulgada em um plano de trabalho mobilizado e equipe, seria uma gota a mais em um oceano de mentiras arquitetadas para minar a credibilidade do possível alvo. Ao fim do quiproquó haveria sempre algum adepto da teoria da conspiração a dizer que onde tem fumaça tem fogo e que é o “sistema”, e não a política de segurança das plataformas, o responsável por censurar a “verdade”, não o delírio. Um delírio longe de ser inofensivo.

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Na véspera do 7 de Setembro, quando impulsionou para sua rede de apoiadores com camisa verde e amarela em Brasília e em São Paulo a conversa fiada de que só voto impresso garantiria a lisura das próximas eleições, Jair Bolsonaro editou uma Medida Provisória que, no limite, dificultaria a remoção de fake news das plataformas eletrônicas. Essas plataformas se tornaram o território onde ele e sua turma espalham falsidades de modo explícito e calculado. Como quando inventou que o governo anterior distribuíra um certo “kit gay” para crianças nas escolas. Como faz agora a respeito da urna eletrônica. Ou quando ataca ministros do Supremo Tribunal Federal que ele acusa, sem pé na realidade, de agir fora das quatro linhas da Constituição para beneficiar seu adversário.

A bronca dele é outra.

Só que cada mentira dessas é uma picaretada a mais na credibilidade das instituições que ele —ou quem quer que se aproprie da prática— está disposto a minar. A ideia é demonizar tudo ao redor e carregar nas tintas, também com fake news impulsionadas, seus dotes de salvador da nação, desses que só querem o bem para você e só não consegue implantar seu plano devido ao boicote do “sistema”.

Bolsonaro é alvo do inquérito das fake news aberto a mando de Alexandre de Moraes, do STF.

Sua MP editada em causa própria acaba de ser devolvida pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). A medida foi também suspensa por decisão da ministra do STF Rosa Weber, como havia solicitado o procurador-geral da República, Augusto Aras. Uma desmoralização total para os autores da ideia.

No mesmo dia, Bolsonaro saiu em defesa das fake news —não, você não leu errado.

Em cerimônia no Planalto, ele disse que fake news faz parte de nossa vida e desafiou a plateia: “quem nunca contou uma mentirinha para a namorada? Se não, a noite não acaba bem”. E concluiu, rindo: “A fake news morre por si só, não vai para frente”.

Bolsonaro pode não ter lido muita coisa na vida, mas sabe a diferença entre fake news e “mentirinha para a namorada”. A não ser que o namorado da história conte com um gabinete do ódio, ou do pecado, mantido com dinheiro público, para espalhar a milhares de pessoas o seu atestado de fidelidade conjugal. Que, no limite, só diria respeito ao casal.

Se fake news morresse por si só, sem atuação atenta e constante das plataformas e sistemas de Justiça, a começar pelo Tribunal Superior Eleitoral, que agora mira o ecossistema e a monetização de projetos criminosos baseados em verdades torturadas, Bolsonaro não teria chegado onde chegou.

Não tem maior fake news do que dizer que fake news fazem parte da vida.

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