Bolsonaro fala em tom de ultimato ao Judiciário, ataca Lula e diz ter a maioria no país

***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 28.08.2022 - Bolsonaro durante debate na TV Bandeirantes. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 28.08.2022 - Bolsonaro durante debate na TV Bandeirantes. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

BRASÍLIA, DF, E DIVINÓPOLIS, MG (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) falou nesta sexta-feira (23) em colocar um "ponto final" no que chamou de abusos de outro Poder, em uma referência velada ao Judiciário, alvo frequente do chefe do Executivo.

A declaração ocorreu em um comício em Divinópolis (MG).

Em seu discurso, Bolsonaro também disse que seus apoiadores são maioria no país e atacou seu principal adversário, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a quem chamou de ladrão. O primeiro turno das eleições ocorre em nove dias.

"O Brasil é um país livre. Vocês sabem que vocês estão tendo cada dia mais a sua liberdade ameaçada por outro poder, que não é o Poder Executivo. E nós sabemos que devemos botar um ponto final nesse abuso que existe por parte de outro Poder", disse.

Ele repetiu também uma frase que costuma dizer, que, se reeleito, "todos, sem exceção, jogarão dentro das quatro linhas da Constituição".

O mandatário disse ainda que, se reeleito, indicará pessoas contrárias ao aborto para as duas vagas no STF (Supremo Tribunal Federal) que ficarão disponíveis no próximo ano, com a aposentadoria de ministros.

Pesquisa do Datafolha divulgada na noite de quinta-feira (22) mostra que o ex-presidente ampliou sua vantagem para 14 pontos, aumentando as chances de a disputa encerrar no primeiro turno. Lula tem 47% das intenções de voto, contra 33% de Bolsonaro.

A estabilidade com oscilação positiva para o petista no cenários de uma semana para cá, aferida pela mais recente pesquisa do Datafolha, vai acirrar a queda de braço entre as duas campanhas líderes de uma corrida cuja decisão na primeira rodada pode ocorrer no olho mecânico.

Em mais de um momento, Bolsonaro chamou seu adversário de ladrão. Ele citou ainda o caso de países vizinhos que tem criticando também, como a ditadura na Nicarágua de Daniel Ortega, chamado pelo presidente como "amigo de Luiz Inácio Lula da Silva".

No comício mineiro, o mandatário também disse que não há oposição no Brasil, mas sim "bandidos que querem o mal da população", quando se referiu ao fato de parlamentares petistas terem votado contra o projeto que diminuía tributação para reduzir preço da gasolina —que era criticado por governadores.

Como a Folha de S.Paulo mostrou, a aposta da campanha nesta reta final é investir no antipetismo para impedir que Lula liquide a fatura já no primeiro turno.

A avaliação é que apostar no sentimento antipetista, com acusações de corrupção contra Lula, pode evitar a migração de votos de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) para o ex-presidente.

O ministro das Comunicações, Fábio Faria (PP), disse na quarta (21) acreditar que os votos dados a Ciro e a Tebet hoje tendem a ser transferidos principalmente para Bolsonaro.

"Eu acho que o crescimento que o Lula teve foi o voto que ia para ele já no segundo turno do Ciro da Simone. [Agora] os votos que permaneceram com o Ciro, com a Simone, são os votos que têm mais tendência de ir para o Bolsonaro", afirmou.

A escalada de tom no comício em Minas Gerais revela uma mudança na estratégia do mandatário. Pressionados por pesquisas, aliados do chefe do Executivo aconselharam-no a intensificar os ataques contra o petista, o que, uma ala do entorno do presidente já defendia desde o início da campanha.

A respeito do ataque ao Supremo, um segmento da campanha é contrário a esta postura. Mas há um entendimento de que, segundo levantamentos internos, ele pode perder votos criticando o sistema eleitoral e a urna eletrônica, mas não perde votos com críticas ao STF. Isso ocorre porque há rejeição a ministros da corte, de acordo com integrantes da campanha.

"Teremos uma grande decisão pela frente. O que vocês querem para o futuro dos seus filhos? Alguém na Presidência que desrespeite a família brasileira, que diz que vai liberar drogas para os nossos filhos?"

"Queremos à frente da Presidência quem diz que é favorável a ideologia de gênero, que não respeite propriedade privada? Querem à frente da Presidência um ladrão da República?", disse Bolsonaro.

A multidão, em coro, gritava "não" como resposta às perguntas do presidente.

"Nós, mais do que queremos, desejamos o contrário. Nós somos a maioria. Nós venceremos em primeiro turno. Não existe eleição sem povo nas ruas. A gente não vê nenhum dos outros candidatos fazendo um comício sequer que se aproxime a 10% do povo que tem aqui", disse o presidente.

Apesar de, para a militância, Bolsonaro insistir em vitória no primeiro turno, a maior parte dos seus aliados vê essa hipótese como improvável.

Eles acreditam que a disputa será acirrada e disputada voto a voto no segundo turno.

Mas, para apoiadores, o presidente reforça a tese de "Datapovo", quando usam fotos de manifestações nas ruas, como as do 7 de Setembro, para atacar institutos de pesquisas e, assim, manter apoiadores energizados no projeto da reeleição.

O senador Carlos Viana (PL), que oficialmente tem o apoio de Bolsonaro na disputa pelo Governo de Minas, recebeu o presidente no aeroporto de Divinópolis, mas não discursou no ato de campanha.

Os únicos candidatos a falar, antes do presidente, foram o deputado estadual Cleitinho (PSL) e o deputado federal Domingos Sávio (PL), ambos com base eleitoral na cidade.

Cleitinho é candidato ao Senado e tem como trecho de campanha a frase "STF com Cleitinho vai pegar rabo". Sávio disputa a reeleição.

Apesar de ter lançado Viana como seu candidato em Minas, Bolsonaro só fez isso depois de não conseguir o apoio do governador do estado, Romeu Zema (Novo) no primeiro turno.

Existe a possibilidade, no entanto, de Zema apoiar Bolsonaro no segundo turno, caso ocorra. O governador lidera as pesquisas de intenção de votos no estado.