Bolsonaro fala em 'guerra' e diz que 'só Deus' o tira da cadeira presidencial

Marcelo Freire
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Bolsonaro afirmou durante a live que apenas Deus pode tirá-lo da cadeira presidencial. (Foto: Reprodução/Facebook)
Bolsonaro afirmou durante a live que apenas Deus pode tirá-lo da cadeira presidencial. (Foto: Reprodução/Facebook)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) abriu sua live semanal nesta quinta-feira atacando o STF (Supremo Tribunal Federal) e afirmou, sobre a possibilidade de passar por um processo de impeachment, que "só Deus" o tira da Presidência. "E ele me tira [a cadeira], obviamente, tirando a minha vida", acrescentou.

O comentário foi feito sobre a decisão da ministra do STF, Cármen Lúcia, de conceder um prazo de cinco dias para que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), explique o fato de não ter analisado os pedidos de impeachment protocolados na Casa contra Bolsonaro. 

"Estou custando a crer que essa notícia seja verdadeira, por Deus que está no céu", disse o presidente.

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Na sequência, ele divulgou a informação sobre a decisão de Cármen Lúcia e disse que "alguma coisa muito errada vem acontecendo há muito tempo no Brasil". 

"Vamos ver como se processa a informação, qual é o encaminhamento que o Arthur Lira vai dar no tocante a isso, se vai abrir processo ou não. E a gente vai se encontrar, não na live, mas, com toda a certeza, em outro lugar, brevemente, para discutir esse assunto aí", disse, sem explicar exatamente sobre o quê estava falando.

"Eu não quero me antecipar e falar o que eu acho sobre isso aí. Só digo uma coisa: só Deus me tira da cadeira presidencial. E me tira, obviamente, tirando a minha vida. Fora isso, o que estamos vendo acontecendo no Brasil não vai se concretizar. Mas não vai mesmo", discursou o presidente.

Ele voltou ao tema no final da live, novamente se referindo à decisão de Cármen Lúcia. "Pelo que levantamos aqui, a notícia é verdadeira. A ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia deu um prazo de cinco dias para que o presidente da Câmara, Arthur Lira, explique a não abertura do processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro", leu o presidente.

Bolsonaro, então, olhou para a câmera e afirmou: "Boa noite. Fique tranquilo que vou dormir tranquilíssimo nessa noite, e vamos ver o desenrolar dessa notícia do Supremo Tribunal Federal".

Presidente pede ajuda do povo em "guerra"

Em outro momento, Bolsonaro voltou a atacar governadores e prefeitos que adotam medidas de restrição ao comércio e isolamento social e afirmou que a intenção deles é que a crise econômica atinja o governo. "A briga desses governadores não é contra o vírus, é tentar derrubar o presidente. O que esse futuro governante pode esperar do Brasil caso ganhe uma eleição no futuro? Lamento muito pelo futuro do Brasil", disse.

O presidente, então, iniciou um discurso em que pediu ajuda da população para o que chamou de "guerra". Enigmático, disse jogar dentro das "quatro linhas da Constituição", mas não esclareceu, efetivamente, o que planeja fazer.

"Só ganha guerra se tiver informações. Se o povo estiver bem informado, com consciência do que está acontecendo, a gente ganha essa guerra. Alguns querem que a gente seja imediatista. Eu sei o que tem que fazer, dentro das quatro linhas da Constituição. Se o povo cada vez mais se inteirar, se informar, cutucar seu vizinho e começar a mostrar para ele qual o futuro do Brasil, a gente ganha essa guerra", disse.

Depois, complementou: "Eu sei onde está o câncer do Brasil. Nós temos como ganhar essa guerra. Se esse câncer for curado, o corpo volta a sua normalidade. Estamos entendidos? Se alguém acha que eu tenho que ser mais explícito, lamento", disse, misterioso.

Em outro momento, ele afirmou que o Brasil está dando passos em direção ao "empobrecimento da população" e voltou a falar que "vai agir dentro das quatro linhas da Constituição, restabelecendo a ordem no Brasil". Ao mesmo tempo, criticou prefeitos e governadores que, segundo ele, estão violando o Artigo 5º da Constituição Federal – aquele que estabelece os direitos e deveres individuais e coletivos de cada cidadão.

"Infelizmente, por decisão do Supremo Tribunal Federal, alguns governadores e prefeitos tem jogado no lixo o artigo 5º da Constituição Federal. E, repito, é a população que dita os rumos da sua nação", afirmou.

Bolsonaro critica elegibilidade Lula e antevê disputa em 2022

As críticas de Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal não ficaram restritas à decisão de Cármen Lúcia. Ele também criticou o tribunal pela decisão, referendada em plenária, que retirou da Justiça Federal de Curitiba os processos contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – o que, na prática, tornou o ex-presidente novamente elegível em 2022.

Bolsonaro comparou o caso a "filmes de caubói" que ele assistia na adolescência. "O cara assaltava algo na Califórnia e começava a galopar em direção ao México. Uma vez transpondo a fronteira, estava tudo resolvido e ele não podia mais ser preso", ironizou. "Alguns torciam pro bandido, outros pra patrulha, mas aqui no Brasil a mesma coisa acontece hoje em dia."

O presidente, então, comparou sua gestão com a do Lula e disse acreditar "estar fazendo a coisa certa". Ele convocou o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, para que ele comparasse os lucros do banco federal nas gestões de Lula e Dilma em comparação com os dois anos de Bolsonaro. Guimarães atendeu o presidente e disse que, apenas em 2019, a Caixa somou mais lucro do que a soma de oito anos de Lula no poder.

Apesar disso, Bolsonaro negou estar iniciando uma campanha presidencial em 2022. "Mas, pela decisão do Supremo, o Lula é candidato. Faça uma comparação entre os ministros", pediu o presidente. "

"Se o Lula voltar pelo voto direto, auditável, tudo bem, mas veja o futuro do Brasil. E, se o Lula for eleito, em março de 2023 ele vai escolher mais dois ministros do Supremo Tribunal Federal. Acho que a conclusão cabe a todos vocês."

Em seguida, ele acrescentou: "Não estou dizendo que vou ser candidato e nem que sou o melhor de todos. Mas tira eu de combate. Que outro iria com o Lula pro segundo turno? É só fazer um racicíonio e entender qual é o futuro de vocês."

Presidente diz que não autorizou gravação de Kajuru e se refere a senador como "maluco"

Bolsonaro comentou mais uma vez sobre a conversa que teve com o senador Jorge Kajuru (Podemos-GO), que foi divulgada no último fim de semana e expôs o presidente cobrando que a CPI da Covid, instaurada no Senado Federal, incluísse também a investigação sobre governadores e prefeitos. No áudio, Bolsonaro também ofendeu o rival Randolfe Rodrigues (Rede-AP), autor do requerimento sobre a CPI que vai apurar os atos do governo federal na pandemia.

"O senador Kajuru ligou pra mim, conversou comigo, uma conversa que eu teria com qualquer senador. O fato de gravar a gente... no dia seguinte, ele me ligou novamente, conversou comigo e falou que tinha cortado partes agressivas a um senador. Fiquei quieto. Quando vi que ele falou aquilo, vi que o cara me gravou. E vai divulgar. Não vou discutir com um maluco aqui. Ele não pediu autorização pra gravar uma ligação telefônica comigo", declarou o presidente.

Depois, ele ironizou o senador. "Valeu, Kajuru. Agora está faltando você divulgar a outra ligação que você fez pra mim, dizendo que eu concordei, que falei 'publica aí a conversa telefônica entre nós'. Essa você não gravou? Porra, Kajuru, tu grava tudo! Não gravou porque você vai se ferrar, vai fazer uma prova contra você", criticou.