Bolsonaro falta a evento com Lira e Pacheco, faz live e ignora de novo o bicentenário

***ARQUIVO*** SÃO PAULO - SP - BRASIL - 28.08.2022 -  O presidente da república e candidato a reeleição pelo PL, Jair Bolsonaro, durante a entrada para o primeiro debate entre presidenciáveis.  (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO - SP - BRASIL - 28.08.2022 - O presidente da república e candidato a reeleição pelo PL, Jair Bolsonaro, durante a entrada para o primeiro debate entre presidenciáveis. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (PL) cancelou nesta quinta-feira (8) sua ida à sessão solene do Congresso Nacional comemorativa ao bicentenário da Independência do Brasil. No mesmo horário, o mandatário fez uma transmissão ao vivo nas redes sociais conversando com crianças no Palácio da Alvorada.

A ausência dele na solenidade ocorre um dia depois de o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), terem faltado ao desfile cívico do 7 de Setembro.

Na quarta, Bolsonaro transformou as comemorações do 7 de Setembro em comícios de campanha em Brasília e no Rio de Janeiro, repetindo ameaças golpistas diante de milhares de apoiadores, mas em tom mais ameno do que no mesmo feriado do ano passado.

Em cima de carros de som, ele pediu voto, reforçou discurso conservador e deu destaque à primeira-dama Michelle Bolsonaro, com declarações de tom machista.

O mandatário deixou de lado o Bicentenário da Independência nos palanques montados nas duas cidades e, tanto no Rio como em Brasília, adotou discurso parecido.

Nesta quinta, a ausência de Bolsonaro à sessão foi confirmada pelo Senado Federal pelas redes sociais.

"O presidente da República, Jair Bolsonaro, cancelou sua vinda à sessão solene do Congresso Nacional de hoje em comemoração ao Bicentenário da Independência."

Interlocutores de Pacheco disseram que o presidente não deu nenhuma justificativa. A comunicação foi feita pelo cerimonial do Palácio do Planalto.

O presidente afirmou que faltou à sessão porque tinha muitos apoiadores no cercadinho do Palácio da Alvorada.

A decisão de Bolsonaro pegou de surpresa a cúpula do Congresso Nacional. O cerimonial do Legislativo, que aguardava a presença de Bolsonaro, manteve o esquema de segurança tradicionalmente montado quando o mandatário comparece.

Aliados de Pacheco consideram que se tratou de uma "retaliação" pelo fato de ele e demais chefes de Poderes terem deixado Bolsonaro isolado durante os desfiles de 7 de Setembro. A ausência de Pacheco, em particular, foi uma sinalização para o chefe do Executivo, uma vez que ele estava em Brasília.

O senador mineiro chegou a oferecer um jantar durante o feriado para celebrar o Bicentenário da Independência. Compareceriam o chanceler Carlos França, membros da comunidade diplomática e o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.

Pacheco vinha falando a interlocutores que não compareceria aos desfiles de 7 de Setembro se considerasse que o evento se transformaria em um ato de campanha.

Efetivamente, após o desfile, Bolsonaro e ministros subiram em um carro de som e o mandatário discursou para seus apoiadores, com falas machistas, ataques ao STF e ao seu principal adversário na busca pela reeleição, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No Congresso Nacional, a cerimônia desta quinta-feira (8) teve a presença dos ex-presidentes Michel Temer e José Sarney, do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Luiz Fux; e do procurador-geral da República, Augusto Aras.

Também estiveram presentes os ministros do STF Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, esse último desafeto declarado de Jair Bolsonaro. Os dois sentaram na primeira fileira das autoridades.

Além do presidente de Portugal, participaram da cerimônia os presidentes de Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, e Cabo Verde, José Maria Neves.

Durante a sua fala, Pacheco não mencionou a ausência de Jair Bolsonaro. Mas, por outro lado, louvou a presença de Temer e Sarney e também o gesto dos outros presidentes da era republicana, o senador Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, por terem enviado cartas justificando as ausência e cumprimentando o Legislativo pela sessão solene.

O discurso de Pacheco, no entanto, conteve frases que soaram como indiretas a Bolsonaro.

"Lembro que daqui a menos de um mês os brasileiros e brasileiras vão às urnas praticar o exercício cívico de votar em seus representantes. E o amplo direito de voto, a arma mais importante em uma democracia, não pode ser exercido com desrespeito, em meio ao discurso de ódio, com violência ou intolerância em face dos desiguais", afirmou.

O presidente do Senado afirmou que não se pode usar os eventos cívicos do Sete de Setembro e as comemorações do Bicentenário da Independência, para fins políticos-eleitorais.

"Eu considero que há dois momentos no 7 de Setembro de ontem: o desfile cívico, que é a solenidade em que se celebra o Bicentenário da Independência, o 7 de Setembro, e depois os desdobramentos que tem um cunho naturalmente político, eleitoral, em torno do presidente da República", afirmou.

"O que não pode é confundir uma coisa com a outra. Uma coisa é a condição de um chefe do Executivo em um desfile cívico, e outra coisa é o desdobramento, já como um candidato à presidente. Respeito ambas as situações, desde que elas sejam independentes".

Pacheco também disse que a história independente do Brasil contou com "períodos marcados pela obscuridade dos odiosos regimes autoritários e repressivos". No dia anterior, Jair Bolsonaro havia citado o golpe de 1964, entre outros momentos turbulentos, e afirmou que a "história pode repetir: o bem vencendo o mal".

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), iniciou a sua fala saudando o desafeto de Bolsonaro Alexandre de Moraes e outras autoridades do judiciário presentes, como Toffoli, a presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Maria Thereza de Assis Moura, e o ex-presidente da corte, Humberto Martins.

Lira também lembrou que o bicentenário coincide com o ano das eleições presidenciais no Brasil e ressaltou a importância do pleito.

"Destaco, portanto, a chance de os cidadãos brasileiros, por meio do seu voto consciente, fortalecerem nossa democracia e este Parlamento de modo que ele continue a exercer a importante tarefa de acolher diferentes aspirações e transformá-las em balizas coletivas", afirmou.

O líder da oposição do Senado e coordenador da comissão do bicentenário, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), pediu desculpas à comunidade estrangeira pela ausência de Jair Bolsonaro ao evento.

"Quero cumprimentar e agradecer aos ex-presidentes Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff que, igualmente, mesmo não estando presentes, encaminharam mensagens a este Congresso Nacional por conta dessa sessão. Peço desculpas pelos chefes de Estado estrangeiros e ao mesmo tempo às missões diplomáticas pela ausência e não encaminhamento de nenhuma mensagem a essa sessão da parte do atual magistrado [SIC] da nação", afirmou.

O presidente do Supremo afirmou que Brasil e Portugal "não admitem retrocessos" e que as comemorações do Bicentenário da Independência "reafirmam o compromisso das duas nações com os elevados valores da democracia e da liberdade".

"Hoje, os Três Poderes celebram juntos dois séculos da emancipação da nação. Uma demonstração eloquente do avanço civilizatório das instituições democráticas dos dois países, que não admitem retrocessos", disse Fux.

No horário marcado para a sessão do Congresso na qual Bolsonaro havia confirmado a participação e que constava em sua agenda oficial, o presidente fez uma transmissão ao vivo conversando com crianças e passeando com elas dentro do Palácio da Alvorada.

O presidente fez piadas e aproveitou para atacar o ex-presidente Lula (PT), seu principal adversário nas eleições deste ano. Sem citar nominalmente o petista, ele afirmou às crianças que "pintado de vermelho que faz bem para vocês só o papai Noel" e que o "sem dedinho também faz o mal".

Além disso, o mandatário voltou a defender a ditadura militar e disse que Castelo Branco foi eleito "democraticamente" para comandar o país em 1964.

Ele criticou o fato de, em 2013, o Legislativo ter aprovado um projeto que anulou a sessão ocorrida 49 anos antes em que o militar foi eleito presidente.

Como de costume, porém, o chefe do Executivo omitiu o fato de a votação da época ter ocorrido no Legislativo em uma sessão secreta e durante a madrugada. Também deixou de dizer que a presidência da República foi decretada vaga mesmo diante do fato de João Goulart estar no país na ocasião.

Em outro momento da conversa transmitida nas redes sociais, Bolsonaro critica o ensinamento nas escolas do Brasil, mas é advertido por uma mulher do vídeo que diz que as crianças não vão ao colégio pois são educadas em casa. O ensino domiciliar é uma pauta defendida pelo presidente.

Após a sessão, o presidente de Portugal não quis comentar a ausência do presidente Jair Bolsonaro. "Tenho fé no Brasil. Fé no Brasil como pátria de democracia, esperança, inclusão e progresso. Não tenho mais nada a dizer."