Bolsonaro foge do debate e segue contando com a mesma sorte que o elegeu

Bolsonaro nesses 4 anos não demonstrou eficácia política, mas o acaso das circunstâncias o manteve até o fim de seu mandato. (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
Bolsonaro nesses 4 anos não demonstrou eficácia política, mas o acaso das circunstâncias o manteve até o fim de seu mandato. (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

O primeiro texto que escrevi para o Yahoo foi afirmando que Bolsonaro seria reeleito se a sorte continuasse do seu lado. Fui muito criticada por ter dito que ele foi eleito pela sorte. Continuo reiterando meu ponto. Maquiavel afirma que o poder pode ser conquistado pela virtú ou pela fortuna.

Bolsonaro nesses quatro anos não demonstrou eficácia política, mas o acaso e a influência das circunstâncias o mantiveram até o fim de seu mandato. É claro que a durabilidade de um governo requer algum grau de legitimação pelos cidadãos.

Mas a que preço...

Bolsonaro extrapola a boa vontade de Maquiavel. Parece que não faz questão nenhuma de eliminar qualquer resistência em relação ao seu nome e aí eu entro no ponto deste texto.

O presidente, até o fechamento desse texto, não tinha decidido se iria à entrevista do Jornal Nacional com os presidenciáveis.

O mesmo candidato que em 2018 se beneficiou amplamente justamente nesse telejornal de uma conversa de mais de dez minutos ao vivo expondo sua batalha para sobreviver ao atentado à faca.

No dia anterior, 45 minutos no Datena lhe deram uma exposição que nenhuma Propaganda no Horário Eleitoral Gratuito jamais lhe darão.

Bolsonaro insiste em chutar a sorte quando essa insiste em lhe seguir. Lula, seu maior adversário, tem a frente mais ampla nessa campanha e não é um nome desconhecido como foi Haddad em 2018, da grande maioria do eleitor. Não é mais uma questão de novas formações políticas mas sim de manutenção do poder.

Bolsonaro tem a máquina do Estado de seu lado, o PL, o Centrão mas parece não saber direito o que fazer com tantas armas. Talvez sua aposta seja novamente nas redes sociais que o cacifaram em 2018, mas esquece que foi num contexto completamente diferente.

Na média das pesquisas está ao menos 12 pontos atrás de seu principal adversário e com uma taxa de rejeição que é o dobro de todos os outros ex-presidentes que tentaram a reeleição. É difícil contestar o argumento dos números.

Veja como foram as últimas pesquisas eleitorais de 2022:

Mas Bolsonaro ainda parece acreditar numa outra jornada do herói prestes a vir e transformá-lo novamente no Messias, esse que já ficou no passado. Bolsonaro hesita demais. Trabalha sempre com o “deveria ser” e não com a realidade dos fatos.

A eleição de 2022 não tem nada da eleição que conduziu Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Quatro anos depois tivemos uma pandemia global com 660 mil mortos no Brasil uma guerra com consequências no mundo inteiro e o velho discurso da velha política não cola mais.

Mas Bolsonaro trabalha num mundo irreal falando para 30% dos convertidos que certamente acham lindo ele se recusar a ir a uma entrevista na tal “Globolixo” não percebendo o poder captador que essa exposição tem. E entrega os eleitores ao seu maior opositor.

O mais incrível é como num país com 200 milhões de pessoas ainda não surgiu um líder que quebre essa hegemonia entre um lunático que luta contra moinhos de vento e um outro que comandou o maior assalto aos cofres públicos do país.

A política normalmente é movida por mudanças mas aqui no Brasil ela insiste em dar voltas num descontrole que assusta até o mais incauto dos analistas.

No Brasil a sensação que tenho é que política está sempre relacionada à opressão do povo que sofre ou pela corrupção ou pelo descaso. Fosse somente a manutenção do poder poderíamos acreditar que isso faz parte do jogo mas essa obsessão pelo conflito é algo que vai sobrevivendo e nunca chega, para finalizar, ao que Maquiavel pregava: a unidade.

Não estou otimista com essas eleições. Mas torço para que daqui a quatro anos tenhamos enxergado que as duas opções hoje existentes só fortalecem o elemento básico para destruição de um país: a intransigência.

Até Lula, com todos os questionamentos que virão, aceitou ir ao Jornal Nacional. Bolsonaro foge, desde 1991, quando pisou na Câmara dos Deputados, do debate. Que desperdício de democracia. Que pena de nós que precisamos eleger esses que estão aí.

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