Para Bolsonaro, "hienas" são todos os que não se curvam à sua majestade

Bolsonaro publica vídeo inusitado em redes sociais - Foto: Reprodução/Twitter


O presidente Jair Bolsonaro compartilhou em seu Twitter, na última segunda-feira, dia 28, um vídeo em que aparece como um leão cercado de hienas e outras espécies inimigas.

O vídeo nomeava um a um os que adversários que tentam devorar o rei da selva, salvo por um pedido animalesco de apoio irrestrito à sua majestade. Estão lá o STF, a CNBB, os jornais, os partidos políticos, inclusive o PSL, pelo qual foi eleito.

A montagem, que logo saiu do ar, foi veiculada após nova leva de áudios atribuídos a Fabrício Queiroz, o incômodo ex-PM e ex-faz-tudo do gabinete de Flávio Bolsonaro acusado de movimentar dinheiro suspeito e comandar um esquema de “rachadinha” no gabinete do então deputado estadual do Rio.

A rachadinha é como é conhecida a prática de nomear funcionários-fantasmas e morder parte do salário para enriquecimento próprio. Entre esses funcionários suspeitos estão parentes de milicianos, da ex-mulher do presidente e até a filha de Queiroz, que batia cartão em Brasília enquanto trabalhava como personal trainer na capital fluminense.

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Na semana passada, o jornal O Globo revelou um áudio em que o ex-PM mostra desenvoltura ao orientar um interlocutor a conseguir uma boquinha no Congresso através de Flávio Bolsonaro, agora senador.

No domingo foi a vez da Folha de S.Paulo divulgar uma conversa na qual Queiroz se queixava de abandono por parte do clã e atribuía ao Ministério Público a posse de uma “p... do tamanho de um cometa pra enterrar na gente”.

O vídeo-resposta veio menos de 24 horas, provavelmente pela veia criativa do vereador Carlos Bolsonaro, responsável pelas redes do pai, e levou o decano do STF, Celso de Mello, a afirmar que “o atrevimento presidencial parece não encontrar limites”.

Parece também não encontrar gratidão, já que é por causa do presidente da Corte, Dias Toffoli, que estão suspensas cerca de 700 investigações, entre elas as relacionadas ao primogênito da família, baseadas em dados sigilosos da Receita Federal e do antigo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), hoje chamado de Unidade de Inteligência Financeira (UIF) e sob as barbas do Banco Central.

Isolado em uma guerra intestina contra seu próprio partido e às vésperas de uma CPI em que ex-aliados prometem revelar o que sabem sobre uso de máquina pública para supostamente alimentar uma milícia digital em seu favor, Jair Bolsonaro aposta no conflito para sobreviver ao cerco - no caso, os sistemas de freios e contrapesos que impedem o presidente eleito de governar como autocrata.

As hienas são todos aqueles indispostos a dar um cheque em branco ao governo, inclusive os eleitores esperançosos que agora se interessam em saber que história é essa de rachadinha, cometa, fábrica de fake news.

Em vez de respostas, Bolsonaro prefere tratar e retratar como inimigo todos os que se negam a dobrar a espinha diante de sua majestade, o “rei”.

A visão distorcida pode ser um delírio provocado pelo jet lag de sua viagem para o Oriente Médio, onde alimentou a “afinidade” confessada em voz alta com o “príncipe” da Arábia Saudita Bin Salman, um ditador acusado, entre outras passagens biográficas nebulosas, de mandar esquartejar jornalista, apoiar jihadistas e cercear as liberdades de mulheres, homossexuais e igrejas em seu país.