Bolsonaro 'ignora' 400 mil mortes pela Covid-19 e direciona ataque a governadores e prefeitos

Bolsonaro criticou governadores e prefeitos, falou que o governo federal não fechou comércio e mencionou somente
Bolsonaro criticou governadores e prefeitos, falou que o governo federal não fechou comércio e mencionou somente "enorme número de mortes". (Foto: Reprodução/Facebook)

por Marcelo Freire

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez uma rápida menção em sua live semanal ao número de mortos pela Covid-19, que ultrapassou os 400 mil nesta quinta-feira (29). Bolsonaro, no entanto, mencionou a frase dentro de um contexto de ataques a governos estaduais e prefeituras pelas políticas de fechamento de comércio e isolamento social.

O presidente comentava sobre a atual versão do auxílio emergencial, justificando que não poderia conceder um valor maior do que a média de R$ 250 porque ele aumentaria demais o endividamento do país. Nesse momento, Bolsonaro iniciou as críticas aos governadores.

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"Vocês, excelentíssimos governadores, que fecham o comércio e destroem milhões de empregos, poderiam fazer auxílio emergencial estadual, já que me criticam. Em especial os do estado do Nordeste, que fizeram caixa", atacou.

Na sequência, ele falou que o governo federal não fechou comércio e nem falou "que todo mundo tinha que ficar todo mundo em casa". "Falamos que as pessoas mais vulneráveis tinham que tomar cuidado especial, porque se o vírus pega, complica a situação dele."

Em seguida, o presidente citou rapidamente a situação dos mortos no país. "Lamentamos as mortes. Chegou um número enorme de mortes aqui agora", afirmou.

"E uma coisa importante. Lá atrás, eu falava: temos que enfrentar o vírus porque ele, infelizmente, vai ficar para sempre. E o que a OMS [Organização Mundial de Saúde] disse essa semana? Que temos que conviver com o vírus, porque vai levar anos, talvez, pro vírus ir embora. Não vai embora, infelizmente. Até porque está mudando. A gente espera que não haja uma terceira onda, a gente pede a Deus que não tenha uma terceira onda, mas temos que tratar."

Logo no início da transmissão, ele citou a entrega de 200 toneladas de alimentos feitas pela Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), que é federal, na cidade de Araraquara (SP), e aproveitou para atacar o prefeito Edinho Silva (PT), que adotou uma política de lockdown mais rígida na cidade do interior paulista.

"O prefeito botou para quebrar, fechou todo o município e quebrou muita empresa, muita gente perdeu o emprego. Foi uma coisa terrível. E a Ceagesp levou mantimentos para lá", disse.

"Se continuar uma política de lockdown igual em Araraquara, do prefeito petista lá, do fica em casa, fica em casa, fica em casa, vai levar a cidade à miséria", afirmou, ainda durante a transmissão.

Depois dos ataques direcionados ao prefeito, Bolsonaro começou criticar políticos de "esquerda", de forma genérica, e afirmou que eles recebem voto por causa do "empobrecimento da população".

O presidente voltaria a esse tema mais ao final a live, dizendo que os estados mais pobres do país teriam mais parlamentares de partidos como PT, PC do B e PSOL. "Faça o devido cálculo pra ver se, proporcionalmente, quanto mais pobre o estado, mais vereadores, deputados federais e estaduais do PT, PC do B, PSOL, Rede, Cidadania. É uma realidade", atacou.

Não estamos preocupados com CPI, diz presidente

Outro assunto que Bolsonaro citou brevemente na live de hoje foi sobre a CPI da Covid, que teve seu início nesta semana no Senado para investigar as ações do governo federal na pandemia.

"Não estamos preocupados com essa CPI", afirmou o presidente. "Nós não estamos preocupados. Num primeiro momento, era pra investigar omissões e ações do governo. Nem tinha fato definido, e acabou aquele ministro do Supremo [Luís Roberto Barroso] determinando ao senado que abrisse a CPI."

"Depois, foi feita uma coleta de assinatura pra uma nova CPI, que teve até mais assinatura que a primeira, para investigar também os recursos mandados pelo governo federal para estados e municípios", disse.

Ataques a europeus e ONGs

A maior parte da live desta quinta-feira foi destinada à discussão sobre a permissão de que indígenas exerçam atividades como agricultura, pecuária e mineração dentro das reservas, um tema polêmico que Bolsonaro defende desde o início de seu governo.

Acompanhado do presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio) e delegado da Polícia Federal Marcelo Augusto Xavier da Silva, o presidente voltou a falar que pretende legalizar o garimpo e aproveitou fazer ataques a países europeus e ONGs que atuam, ou atuaram, com indígenas.

Ele perguntou a um líder indígena que estava na live se algum país europeu comprava o que era produzido em terras indígenas. Ao ouvir que havia algum impedimento legal para essa comercialização, Bolsonaro comentou: " olha a discriminação do europeu, não compra o que eles produzem".

"A discriminação do índio vem de fora. Fala da Europa, que é tão zelosa. Quanto eles têm de área preservada? Sei que é infinitamente menor que o Brasil. Quanto um país como a Alemanha joga de CO2 no ar?", questionou. "Ninguém tem matriz mais limpa que a nossa."

Ele disse que as críticas ao Brasil em questões como desmatamento e preservação de áreas indígenas eram parte de um "jogo econômico". " Nós atrapalhamos realmente a economia de alguns países."

Sobre a atuação de ONGs, Bolsonaro afirmou que o Brasil conseguiu reduzir o número de invasões de terra "cortando dinheiro federal para ONG". "Se bem que estão bem organizados em Rondônia, uns 3.000. Um grupo guerrilheiro, já foi além do MST, e estão se organizando por lá. Temos novidades, mas vamos deixar pra isso", disse, sem fornecer mais detalhes.