Bolsonaro ignora decisão da Anvisa e provas científicas ao dizer que eficácia da CoronaVac 'não está comprovada'

João de Mari
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Brazil's President Jair Bolsonaro speaks to one of his ministers during a ceremony commemorating the 160th anniversary of the state bank Caixa Economica Federal at Planalto presidential palace in Brasilia, Brazil, Tuesday, Jan. 12, 2021. (AP Photo/Eraldo Peres)
Bolsonaro ignora decisão da Anvisa e provas científicas ao dizer que eficácia da CoronaVac 'não está comprovada' (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou nesta sexta-feira (22) que “não há nada comprovado cientificamente sobre essa vacina aí”, referindo-se a CoronaVac, vacina contra a Covid-19 que teve uso emergencial aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no último domingo (17).

"Eu não posso obrigar ninguém a tomar vacina, como um governador um tempo atrás falou que ia obrigar. Eu não sou inconsequente a esse ponto. Ela tem que ser voluntária, afinal de contas, não está nada comprovado cientificamente com essa vacina aí", afirmou o presidente a jornalistas na porta do Palácio da Alvorada.

Acontece que a fala do presidente ignora estudos conduzidos por centenas de cientistas durante toda a pandemia e a própria Anvisa, que autoriza apenas vacinas que têm a eficácia e a segurança necessárias para ser aplicada emergencialmente.

Ou seja, a afirmação de Bolsonaro não é verdadeira e ainda ignora decisão de todo corpo técnico responsável pela aprovação dos produtos e serviços submetidos à vigilância sanitária no Brasil há mais de 20 anos.

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A aprovação do uso emergencial da CoronaVac, e o da vacina da Universidade de Oxford e da farmacêutica AstraZeneca — a “vacina da Índia” — foi dada por unanimidade dos votos da diretoria da agência reguladora.

Durante a declaração nesta sexta-feira (22), Bolsonaro repetiu, como tem feito nas últimas semanas, que a vacinação não será obrigatória. Mas, na mesma fala, o presidente contariou sua própria linha de raciocínio ao dizer que se a “vacina passou pela Anvisa” ele não teria “mais o que discutir”.

"O pessoal dizia que eu era contra a vacina. Eu era contra a vacina sem passar pela Anvisa. Passou pela Anvisa, eu não tenho mais o que discutir, eu tenho que distribuir a vacina", completou Bolsonaro.

Na ocasião, a diretora Meiruze Freitas, relatora do pedido de uso emergencial, declarou que ambas as vacinas atendiam "aos critérios de qualidade e segurança para uso emergencial".

A eficácia e a segurança da CoronaVac foram comprovadas em ensaios clínicos conduzidos no Brasil. No país, a vacina é fabricada pelo Instituto Butantan, em São Paulo, instituição pública de pesquisa ligada ao governo do estado, em parceria com a farmacêutica chinesa SinoVac.

Vacina é segura

Estudos publicados na revista científica "The Lancet" mostram que duas vacinas são seguras e têm capacidade de gerar uma resposta do sistema de defesa.

Também não foram registrados efeitos adversos graves em nenhuma das duas vacinas. Os efeitos mais comuns foram dor no local da injeção, febre e dor de cabeça de intensidade leve ou moderada.

Além disso, a eficácia de uma vacina mostra como ela funciona sob condições ideais. Se ela tem eficácia de 50%, por exemplo, isso significa que ela conseguiu reduzir em 50% o número de casos de doença que ocorreriam se ela não tivesse sido aplicada.

No caso da CoronaVac, a eficácia geral é de 50,38%. Em outras palavras, esse percentual está acima do mínimo estabelecido pela Anvisa para aprovação de uma vacina, que era de 50%.