Bolsonaro usa imagem de internação para zerar um jogo em que está perdendo

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People take part in a demonstration against Brazilian President Jair Bolsonaro, in Sao Paulo, Brazil, on July 14, 2021. (Photo by Cris Faga/NurPhoto via Getty Images)
Foto: Cris Faga/NurPhoto (via Getty Images)

Jair Bolsonaro sentiu dores abdominais e foi internado no Hospital das Forças Armadas em Brasília. Com quadro de obstrução intestinal, foi levado a São Paulo para exames. Até onde se sabe, não estava descartada uma cirurgia.

No dia em que precisou ser hospitalizado, Bolsonaro tinha na agenda um encontro com os chefes do Legislativo e do Judiciário. Em pauta estavam os panos quentes para conter a escalada da tensão promovida pelo ex-capitão desde que começaram a virar vinagre seus planos de reeleição em 2022. Tudo graças a suspeitas nas compras de vacinas, áudios sobre supostas rachadinhas, investigações sobre crimes ambientais e, mais do que tudo, do retumbante fracasso em evitar mais de meio milhão de mortes pela covid-19.

Com uma multidão nas ruas pedindo seu impeachment e o avanço de apurações policiais em seu entorno, Bolsonaro não estava bem fazia um tempo.

Um antigo aliado, que em 2018 fez de sua mansão, no Rio, o QG da campanha bolsonarista, chegou a dizer que o presidente estava à beira de um ataque de nervos e não tardaria a dar um golpe para não entregar o poder. Ele não descartava a possibilidade de Bolsonaro ser preso por atos e omissões caso contrário.

Em encontro com apoiadores, a desconexão de frases e ideias chamava a atenção. Mesmo para os padrões do presidente, que não é exatamente reconhecido pela retórica, concisão ou pensamento lógico.

Foi parar no hospital após o agravamento da crise durante a madrugada. A interna e as externas. Isso, em si, já seria suficiente para governistas e adversários baixarem as armas e a temperatura da troca recente de ameaças.

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O clima de paranoia e desconfiança que paira até nos soluços vindos do presidente virou terreno fértil para todo tipo de teoria da conspiração. Elas se procriam e se espalham pelas redes que democratizaram o acesso à desinformação.

O fato é que Bolsonaro e família não perderam a chance de usar a internação como arma do discurso político. Pode chamar de oportunismo se quiser.

Como aconteceu em 2018, quando se tornou moralmente inaceitável atacar um candidato convalescente que acabava de sofrer um atentado a facas (Bolsonaro era o alvo preferencial até então), a fragilidade da saúde do presidente foi exposta como espetáculo. Mesmo quem depois de tudo isso apertou 17 e agora bate panelas por se sentir enganado fica confuso com a imagem de um líder debilitado. Humanizado, para alguns. Embora não pareça, debaixo de tantas ofensas não habita um robô.

Sabendo disso, a divulgação da imagem do presidente em um leito hospitalar, sem camisa, cercado por sondas e monitores tem em si uma conotação quase eleitoreira. Uma conotação reforçada pela declaração do presidente nas redes sociais, onde usou sua condição clínica para atacar opositores.

“Mais um desafio, consequência da tentativa de assassinato promovida por antigo filiado do PSOL, braço esquerdo do PT, para impedir a vitória de milhões de brasileiros que queriam mudanças para o Brasil. Um atentado cruel não só contra mim, mas contra nossa democracia”, escreveu o presidente que atenta contra a democracia e os votos confiados a ele, na urna eletrônica, dia sim, outro também, e que se associou ao centrão para atualizar o que sempre condenou.

Do mito desossado por demérito próprio, sobrou a de líder perseguido e atacado (inclusive fisicamente) pelo sistema, que só não conseguiu ainda mudar o mundo porque tem as mãos amarradas pelas rédeas impostas pelo Congresso e o Supremo Tribunal Federal. As rédeas se chamam Constituição, mas não no mundo paralelo onde vivem e se alimentam Bolsonaro e seus seguidores.

Nessa versão oficial, Bolsonaro entrou em colapso porque tem trabalhado demais, com uma agenda puxada que o impede de dormir e se alimentar bem. Paulo Marinho, o ex-aliado, tem outra versão para o esgotamento, mas vá lá.

O certo é que, terraplanismo médico difundido pelos opositores à parte, a pausa para a recuperação vem a calhar.

Bolsonaro vivia o pior momento desde que tomou posse. Não tem um índice apurado pelo Datafolha que não seja desolador para o um presidente hoje rejeitado pela maioria da população — maioria que hoje pede seu impeachment.

A imagem de presidente fragilizado, cercado e avariado por um atentado que ainda hoje tenta ligar aos adversários —uma ligação já refutada pela Polícia Federal — pode dar a ele um cessar-fogo, mas não carta branca para começar a reescrever sua história do zero.

Se há covardia de quem ataca uma figura temporariamente fragilizada por razões políticas, há também em quem usa a frágil condição clínica para escapar de um acerto de contas inevitável. Não dá para fugir do debate a vida toda.

Menos ainda das responsabilidades por atos e omissões tomados com plenas condições de saúde física.

Que o presidente tenha uma pronta recuperação. E que volte logo para a trilha da história que o espera em vida.

Ao redor daquele leito, há um país inteiro carente de respostas, não de mártires.

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