Bolsonaro intervém na Petrobras e indica general para presidir a estatal

RICARDO DELLA COLETTA , BERNARDO CARAM , GUSTAVO URIBE E JULIO WIZIACK
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*ARQUIVO* CABO FRIO, RJ, BRASIL, 26-09-2012 - Aeroporto internacional de Cabo Frio. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)
*ARQUIVO* CABO FRIO, RJ, BRASIL, 26-09-2012 - Aeroporto internacional de Cabo Frio. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro indicou o general Joaquim Silva e Luna como novo presidente da Petrobras.

Luna é ex-ministro da Defesa e atualmente é diretor-geral da Itaipu Binacional.

A indicação do militar ocorre em meio às críticas de Bolsonaro à política de preços da Petrobras e das queixas de caminhoneiros pela alta dos combustíveis.

"O governo decidiu indicar o senhor Joaquim Silva e Luna para cumprir uma nova missão, como conselheiro de administração e presidente da Petrobras, após o encerramento do ciclo, superior a dois anos, do atual presidente, senhor Roberto Castello Branco", diz uma nota publicada por Bolsonaro numa rede social.

Em 2018, Silva e Luna agiu para atenuar a postagem no Twitter que o então comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, fez antes do julgamento de um habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nela, Villas Bôas diz repudiar "a impunidade".

O episódio foi revelado nesta segunda-feira (14) pelo jornal Folha de S.Paulo. Junto com o general da reserva Alberto Mendes Cardoso, Silva e Luna trabalhou para retirar menções que sugerissem intenções de interferência institucional aberta contra o Supremo. Sobrou a ameaça velada, que no livro "General Villas Bôas: Conversa com o comandante", de Celso Castro, o ex-comandante diz ter sido "um alerta".

Nesta quinta-feira (18), Bolsonaro já havia dito que promoveria mudanças na Petrobras e anunciou isenção de impostos federais.

O presidente disse que "não tem quem não ficou chateado com o reajuste" e fez críticas a Castello Branco.

"Não posso chamar a atenção da Agência Nacional de Petróleo, porque é independente, mas tem atribuição também. Não faz nada. Você vai em cima da Petrobras, ela fala 'opa, não é obrigação minha'. Ou como disse o presidente da Petrobras, há questão de poucos dias, né, 'eu não tenho nada a ver com caminhoneiro, eu aumento o preço aqui, não tenho nada a ver com caminhoneiro'. Foi o que ele falou, o presidente da Petrobras. Isso vai ter uma consequência, obviamente", disse Bolsonaro.

A Petrobras havia informado dois novos reajustes nos preços da gasolina e do diesel, que subiram 10,2% e 15,1%, respectivamente, a partir desta sexta (19). É o quarto reajuste da gasolina e o terceiro do diesel em 2021.

Mais cedo, em visita-relâmpago a Pernambuco, reafirmou que faria mudanças.

“Anuncio que teremos mudança sim na Petrobras. Jamais vamos interferir nesta grande empresa e na sua política de preços, mas o povo não pode ser surpreendido com certos reajustes”, discursou.

As falas do mandatário tiveram efeito imediato no mercado, que as interpretou como sinal de ingerência política na companhia e um aceno a uma política de controle de preços.

A Petrobras perdeu R$ 28,2 bilhões em valor de mercado nesta sexta.

Ao longo do dia, a equipe econômica tentou demover Bolsonaro de determinar a substituição de Castello Branco, visto pelo ministro Paulo Guedes (Economia) como um gestor eficiente que estava liderando um processo de recuperação da empresa.

Aliados de Guedes tentaram reduzir a pressão nesta sexta, contando que Bolsonaro poderia recuar da ideia a exemplo do que fez recentemente com o presidente do Banco do Brasil, André Brandão.

Em outra frente, a orientação de Bolsonaro de isentar tributos federais do diesel do do gás de cozinha criou um impasse na equipe econômica, que ainda não sabe como compensar as perdas de arrecadação provocadas pela medida.

Silva e Luna foi ministro da Defesa entre fevereiro de 2018 até o final do mandato do ex-presidente Michel Temer.

Ele foi o primeiro militar a chefiar a Defesa desde a criação da pasta, em 1999.

A efetivação da troca na presidência da Petrobras depende de decisão do conselho de administração da empresa.

Na terça (23), o colegiado discute a composição da diretoria, cujo mandato vence em março.