Bolsonaro quer fazer do feriado uma grande liquidação da democracia

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Brazil's President Jair Bolsonaro attends a ceremony to honor Brazilian military athletes who went to the Tokyo 2020 Olympic Games at the Navy Sports Headquarters in Rio de Janeiro, Brazil on September 01, 2021. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP) (Photo by MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)
Foto: Mauro Pimentel/AFP (via Getty Images)

Sem máscara, Jair Bolsonaro foi a estrela dos atos pró-governo em diversas cidades do país.

De verde e amarelo, os manifestantes pediam intervenção militar, o fechamento do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e outras excentricidades golpistas.

Não, não venho do futuro.

Descrevo a manifestação de 15 de março de 2020, uma das muitas tentativas do presidente de demonstrar força e apoio popular para transitar sem as amarras de pesos e contrapesos de uma República Federativa.

Os atos daquele dia, realizados há cerca de um ano e meio, ocorreram já sob a sombra da pandemia do coronavírus, declarada pela Organização Mundial da Saúde quatro dias antes. O Brasil fecharia aquele mês 5.812 pessoas contaminadas e 202 mortos.

Déjà vu é uma expressão de origem francesa que descreve a sensação de alguém já ter experimentado a mesma experiência antes, com as mesmas pessoas, lugares e contextos. A história do governo Bolsonaro é a história traduzida como “já visto”.

De certa forma, os preparativos para o 7 de Setembro de 2021, quando Jair Bolsonaro promete dar um uma espécie de ultimato a quem ainda resiste a dar a ele o título de imperador, dão ao espectador a sensação de filme antigo.

Aqui e ali há alterações de situações e personagens. Em março de 2020, era a cabeça do deputado Rodrigo Maia, então presidente da Câmara, que os manifestantes pediam.

Maia não foi decapitado, mas perderia a queda-de-braço com o governo, que instalou o neoaliado Arthur Lira (PP-AL) em seu lugar. O governo, então, deslanchou, certo? Aham.

Nada que fizesse Bolsonaro mudar o roteiro, ancorado no mito de que o governo é liderado por um presidente acorrentado, sem apoio no Congresso, perseguido pelo Supremo Tribunal Federal; um oásis, em outras palavras, de boas ideias e boas intenções cercado por deserto, cactos e comunistas por todos os lados.

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O 7 de Setembro de Jair Bolsonaro parece redobrar um calendário de atos e ataques parcialmente suspensos e desidratados por conta da pandemia. Só que dessa vez teve tempo de ser organizado, financiado, alimentado.

Depois de certa tensão, o Brasil ainda era o mesmo em 16 de março de 2020. Bolsonaro seguiu com suas bravatas, seu ataques e ameaças, mas os pedidos de intervenção não foram atendidos por cabos e soldados de plantão. Congresso e STF marcaram, em diversas ocasiões, as fronteiras dos marcos civilizatórios.

Mas, entre atritos, tensões e cordas esticadas, muita coisa degringolou de lá pra cá.

A pandemia, por aqui, se transformou em uma carnificina com quase 600 mil mortos.

Uma CPI precisou ser convocada para investigar mutretas na compra de vacina e na difusão de remédios ineficazes.

Enquanto Bolsonaro brinca de comandos em ação com bonecos de tamanho real, o PIB patina, o desemprego beira os 15 milhões, a inflação bate a casa de dois dígitos, a gasolina está impraticável e uma crise energética, com risco de apagão, está contratada para o verão.

Ainda assim, há uma pequena multidão de apoiadores disposta a ir às ruas pedindo para mandar mais desastre que está pouco. Por quê?

Porque Bolsonaro sabe como poucos alimentar e manipular o ódio em seu favor. Como um prisma capaz dividir a luz em componentes com diferentes polarizações, o bolsonarismo recebe e rebate as responsabilidades por atos e omissões numa narrativa que, aos seus seguidores mais fiéis, serve como uma espécie de Gênesis da Terra Planta brasileira.

Crise econômica? Culpa dos governadores e prefeitos, que tomaram medidas para conter a circulação do vírus e quebraram os pequenos, médios e grandes empreendedores.

Governo ineficaz? Culpa do STF, que “amarrou” as mãos do presidente e seu plano infalível para salvar CNPJ à custa de CPFs e garantiu aos estados e municípios as atribuições asseguradas na Constituição.

Politicamente, Bolsonaro fez da crise sanitária uma oportunidade de angariar apoio de quem foi afetado, economicamente, pelas medidas de restrição. Em troca ofereceu a eles uma arma para matar ou morrer em sua defesa.

O “ultimato”, dessa vez, se deve à reação do STF para barrar ataques promovidos pelas bases bolsonaristas a seus ministros. É a "oportunidade" para uma multidão ir às ruas lamentar a prisão de gente como Roberto Jefferson, ex-deputado condenado no mensalão e que passou a maior parte de seu tempo em liberdade ameaçando, com armas, integrantes da corte e outros adversários.

O Bolsonaro que tenta transformar o 7 de Setembro de 2021 na versão brasileira da Noite dos Cristais já não tem a mesma base popular de março de 2020. Sergio Moro já não é seu superministro. Paulo Guedes já não engana (quase) ninguém. O centrão avançou ao coração de sua gestão.

Mesmo com tantas baixas na plataforma que o alçou à Presidência, Bolsonaro tem conseguido dobrar o comando militar, trocando os atuais comandantes das Forças Armadas por oficiais alinhados, forçou seus generais a mostrar desobediência à lei ao ingressar em palanques políticos, e manteve por perto o apoio de pastores e policiais militares, que prometem comparecer em peso aos atos em defesa da “liberdade” —leia-se, em defesa das delinquências de Roberto Jefferson, da família Bolsonaro e de grande elenco que de "cidadãos de bem" só têm o marketing. 

Os protestos seriam uma demonstração relativa de força, não fosse um detalhe: seus aliados mais fieis são os aliados que detém as armas. As particulares e as oficiais.

Acima de tudo, estarão os chefes militares que acumulam cargos e salários acima do teto para ir com Bolsonaro até o fim.

Longe do núcleo-duro, Bolsonaro já não tem hoje lugar garantido sequer no segundo turno das eleições do ano que vem. Essa é a realidade que extrapola qualquer imagem de apoio maciço em verde e amarelo. E que deve ser confrontada por outros protestos do dia 12 do mesmo mês.

Por isso o presidente, com seus aliados armados, tenta a todo custo melar as eleições com bravatas sobe voto impresso e outras diatribes. 

Uma mobilização de massa no Dia da Independência pode dar a ele uma justificativa artificial para avançar contra tudo o que identifica como inimigo. Era Rodrigo Maia em 2020. Hoje são os ministros do STF, os governadores, as leis eleitorais.

Na literatura política contemporânea, aprende-se que a democracia morre aos poucos, sem estrondo ou gemido. Bolsonaro parece tentar subverter até a ordem do disfarce. Quer levar a democracia e uma grande liquidação de feriado.

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