Bolsonaro diz que 'joga dentro' da Constituição e não se decidiu sobre tomar vacina

Marcelo Tuvuca Freire
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Brazilian President Jair Bolsonaro delivers a statement to members of the media on the resumption of emergency aid payments to the population most affected by the COVID-19 pandemic in the country, at Planalto palace in Brasilia, on March 31, 2021. - President Jair Bolsonaro will replace all three commanders of Brazil's armed forces, his government said Tuesday, the latest upheaval in Brasilia as the far-right leader braces against mounting criticism over an explosion of Covid-19 deaths. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Jair Bolsonaro conversa com apoiadores no dia 31 de março de 2021 (EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se defendeu, durante sua live semanal nesta quinta-feira (1º), das acusações de autoritarismo e afirmou que "sempre joga dentro das quatro linhas da Constituição", em alusão à demissão do general Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa e às saídas dos três chefes das Forças Armadas, no início desta semana.

Bolsonaro também voltou a falar sobre a possibilidade de ele tomar a vacinar contra a Covid-19. O presidente, que já afirmou anteriormente que não se imunizaria e chegou a colocar em dúvida a segurança das vacinas, declarou hoje que decidiria sobre o assunto depois que "o último brasileiro for vacinado".

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"Eu vou decidir. Eu já encontrei o vírus. Acho que, depois de o último brasileiro for vacinado, se tiver sobrando uma vacina, vou decidir se me vacino ou não. Esse é o exemplo que um chefe tem que dar", disse.

"Não tem faltado leitos de UTI"

Na primeira parte da live, Bolsonaro exaltou ações do governo e disse que o Brasil "está indo muito bem" na campanha de imunização. Ele ainda afirmou que o governo federal continua liberando recursos para leitos de UTI quando há solicitação de algum secretário estadual e citou que pode estar faltando "planejamento" nos locais que eventualmente sofrem com superlotação de UTIs.

"A informação que temos, pelo Brasil inteiro, é que não tem faltado leitos de UTI, Chega a 95%, 90%, mas não tem faltado. E se estiver faltando, está faltando planejamento por parte dos interessados, porque o governo não mede esforços para liberar recursos para leitos de UTI", declarou.

Logo depois, Bolsonaro começou a atacar as medidas de isolamento social, como faz frequentemente.

"Eu não sei o que passa pela equipe de alguns governadores que mantêm essa política de fechar tudo", reclamou. "A intenção era conseguir achatar a curva e preparar os hospitais com respiradores, leitos de UTI etc. O dinheiro foi para os estados e municípios, bilhões de reais, e muitos governadores e prefeitos usaram esse recurso para pagar folhas atrasadas e não deram a devida atenção para a saúde", acusou.

Ele afirmou que a imprensa justifica as medidas de isolamento social quando noticia que os hospitais estão utilizando "90% ou 95%" de sua capacidade de UTIs. "No meu entender, isso está equivocado", declarou o presidente.

Bolsonaro ainda afirmou que "fez sua parte", mas que as "mortes infelizmente estão acontecendo". "Mesmo se os governadores e prefeitos tivessem utilizado as melhores medidas do mundo, as mortes aconteceriam. Agora, culpar o governo federal pelas mortes, isso é má fé."

Ao iniciar seu discurso contra o lockdown, Bolsonaro voltou a citar que as medidas tomadas por alguns estados e cidades representam uma restrição "maior que o estado de sítio". Ele também disse esperar que o Supremo Tribunal Federal "reveja certas decisões", dizendo que todos podem errar. "Não dá para admitir esse excesso de poder", disse.

"A gente vê cenas de agentes de segurança e guardas municipais dando soco na cara de trabalhador, algemando trabalhador carregando carrocinha de verdura. Isso vai ter um limite um dia. Não pode continuar acontecendo essas coisas e nós assistindo passivamente. Não é possível esses superpoderes, com decretos mais restritivos que o estado de sítio", declarou.

"Meu Exército"

Na sequência, Bolsonaro voltou a se referir ao Exército do paós como "meu Exército", dizendo que a instituição não agiria para garantir as medidas restritivas de estados e governadores – introduzindo o assunto polêmico que envolve uma suposta tentativa de o presidente fazer uso das Forças Armadas de acordo com o seu próprio interesse.

A influência de Bolsonaro sobre os militares da ativa impulsionou a saída do ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva e do comandantes da Aeronáutica, Antônio Carlos Moretti Bermudez, do Exército, Edson Pujol, e da Marinha, Ilques Barbosa, nesta semana.

"Eu temo por problemas sociais graves no Brasil. E como você vai combater isso? Eu quero repetir: o meu Exército brasileiro não vai às ruas para agir contra o povo, ou fazer cumprir decreto de governador ou prefeitos. O meu Exército, enquanto eu for presidente, não vai", disse.

Bolsonaro, na sequência, reclamou que as medidas restritivas muitas vezes são prorrogadas além do seu prazo inicial, citando o desemprego e o fechamento das empresas.

"Jogamos dentro da Constituição"

Ao citar diretamente a saída de Azevedo e Silva, Bolsonaro negou que estaria "politizando" o Ministério da Defesa e criticou gestões anteriores, particularmente do PT, que colocaram políticos no comando da pasta. Ele também reclamou que a imprensa dá espaço a "três ou quatro" generais da reserva que trabalharam no governo sob o comando de Bolsonaro e hoje são críticos a ele.

"Quando a imprensa faz isso, deixa transparecer como se tivesse uma associação de generais. Não existe isso. É a opinião pessoal deles."

Ele agradeceu os três comandantes que deixaram a chefia nas Forças Armadas, citando o nome de todos eles – "foram excepcionais comigo", disse – e afirmou que as mudanças foram resultado da troca no ministério, que agora é comandado pelo general Braga Netto. Em seguida, se defendeu da acusação de que as saídas estivessem ligadas a um possível ato autoritário do governo que passe por cima da Constituição.

"Nosso jogo é dentro das quatro linhas da Constituição. Não vamos sair desse retângulo, e também devemos nos preocupar com quem está jogando fora, de forma errada. E alguma providência legal tem que ser tomada contra quem está agindo fora desses linhas", disse.

"Onde vocês viram ou ouviram uma ação minha que visasse algo fora da Constituição? Um arroubo de autoritarismo, um 'vamos fechar isso', 'vamos censurar aquilo'? Nada, nunca tiveram nada."