Longe do cercadinho, Bolsonaro mostrou ao mundo que é só um líder inseguro

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Italy's Prime Minister, Mario Draghi (L) greets Brazilian President Jair Bolsonaro as he arrives for the G20 of World Leaders Summit on October 30, 2021 at the convention center
Primeiro ministro Mario Draghi recebe um constrangido Jair Bolsonaro na reunião do G20, em Roma. Foto: Alberto Pizzoli/AFP (via Getty Images)

Jair Bolsonaro é um homem inseguro.

Foi o que transpareceu nos poucos minutos em que, longe da sua turma, sem o cercadinho do Planalto ou as lentes de aumento de sua equipe digital, o presidente aparece perdido, isolado, sem iniciativa ou capacidade de dialogar com seus pares durante a reunião do G20, em Roma. Na COP 26, em Glasgow (Escócia), ele nem o ar da graça deu. Preferiu voltar ao seu cercadinho como um peixe que procura o seu tanque de água.

Nos encontros com o público, Bolsonaro fala sempre de sua vida privada. Inclusive quando diz que chora sozinho no banheiro. Ou quando cria um cenário de confraternização com a família e os filhos em volta da churrasqueira ou da mesa de café, montada para fazer o líder do país parecer gente como a gente. Quem olha e ouve tudo a certa distância tem dificuldade para capturar o que ali é real e o que é encenação.

Bolsonaro foi eleito falando sobre patriotismo e honra militar. Na segunda página o leitor admirado pela capa do livro descobre que ele não tem apreço a manifestações culturais e artísticas de seu país, menos ainda por suas riquezas naturais, que gritam por preservação, e que saiu pela porta dos fundos do Exército após enfrentar um traumático processo por indisciplina.

Bolsonaro surfou no moralismo lava-jatista, recrutou o ex-juiz da operação para seu governo e cuspiu tudo quando nada mais daquilo lhe servia. Meses depois, batia no peito para falar que acabou com a Lava Jato.

Bolsonaro, em seu terceiro casamento, também levou ao palanque o discurso em defesa da família.

E vem repetindo a mesma passagem bíblica decorada como prova de seu temor a Deus, que prometeu colocar acima de tudo.

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Na campanha, tentou mostrar humildade ao reconhecer que não sabia nada de economia e escolher um entendido no assunto para ser seu Posto Ipiranga, espécie de oráculo para apontar caminhos que só os matutos conhecem. Hoje o Posto Ipiranga é um ministro de joelhos diante das urgências eleitoreiras do chefe.

Mas as contradições e promessas não cumpridas ao longo do mandato têm sido obsessivamente encobertas pelas nuvens fantasiosas do entorno presidencial. O retrato exposto nas redes ou mesmo nos discursos de ministros e apoiadores pintam Bolsonaro como um leão incansável e ciente de seu destino. Um detentor da verdade que veio ao mundo para inaugurar um novo tempo. Haja tinta (além de armas) para manter a fantasia.

O vídeo, divulgado pelo UOL, em que Bolsonaro circula sozinho, perdido, sem ideia do que faz ali, diante dos líderes globais presentes à reunião do G20, é um dos raros momentos em que o presidente aparece sem filtro, longe dos retratos pujantes e cheios de virilidade dos memes e correntes de WhatsApp em que sempre parece rugir, guiar ou ser guiado pelas mãos divinas, a quem o retrato mostra sempre uma ligação direta, como se ele, Messias, fosse não um devoto, mas o próprio salvador.

O vacilo do presidente inseguro diante seus pares globais, incapaz até de devolver a pergunta ao líder turco que lhe perguntava como estavam as coisas no Brasil, e ao menos fingir interesse sobre a situação no país de Erdogan, é o que se pode chamar de retrato real do presidente fabricado como “mito”. 

Um “mito” que só ruge em sua versão para as redes sociais ou quando se sente encorajado na presença dos seguranças, dos amigos do fundão da sala e do conforto do aplauso fácil dos seguidores. Por ele todos estão sempre dispostos a dar coices em quem se aproximar para dizer que aquele rei está nu. Basta ver o tratamento dispensado aos repórteres que cobriam sua viagem para a Itália.

Bolsonaro ruge quando está em bando.

Sozinho, é só um leão desdentado e assustado.

Como lembrou Malu Gaspar, em sua coluna em O Globo, Bolsonaro só estreou no G20, em 2019, com peito estufado porque chegou ali acompanhado de Donald Trump, então líder da maior potência global.

Dois anos depois, não conta com as costas largas do republicano que abria para ele as rodas de conversa. Em sua nova versão, Bolsonaro mostrou que, sem um texto pronto para ler e apresentar diante da plateia, não é nem de longe o líder arrogante e cheio de si a peitar metade do mundo com sua verdade. É só um homem perdido, apequenado dentro do figurino. Talvez venha daí sua obsessão em apequenar o país para poder transitar e falar em segurança de igual para igual.

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