Bolsonaro mantém silêncio por medo da Justiça e de frustrar expectativa de apoiadores

Embora tenha voltado a aparecer em público, o presidente Jair Bolsonaro (PL) segue em silêncio. Nas redes sociais, publicou fotos nos últimos dois dias, mas sem comentários. Esteve duas vezes nos últimos sete dias em cerimônias militares, sem falar nada. O motivo da mudez, segundo O GLOBO apurou com pessoas próximas ao presidente, é que Bolsonaro está em um impasse. A um mês de deixar o cargo, Bolsonaro teme frustrar a expectativa dos apoiadores que contestam o resultado das eleições e receia que qualquer declaração piore sua situação com a Justiça.

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Desde que foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial, há um mês, Bolsonaro tem passado a maior parte do tempo no Palácio da Alvorada, sua residência, com idas pontuais ao Palácio do Planalto. Nesse período, o chefe do Executivo só fez duas declarações públicas, ambas na semana seguinte ao pleito.

Apesar de seguir reclamando que foi prejudicado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bolsonaro não está disposto a liderar um movimento que tente tumultuar a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como pedem os apoiadores. Até agora, o presidente não comentou publicamente o relatório das Forças Armadas sobre o sistema eleitoral — que não apontou indícios de fraudes —, tampouco sobre a ação que o PL que, sem provas de problemas, pediu a invalidação de parte dos votos do segundo turno das eleições. A Corte eleitoral aplicou ao partido do presidente uma multa de R$ 22, 9 milhões por litigância de má-fé — quando a Justiça é acionada de forma irresponsável. O PL recorre da decisão.

Ao ser derrotado, a maior preocupação de Bolsonaro tornou entrar na mira do Judiciário. Esta é a primeira vez em 34 anos que o presidente fica sem mandato e, portanto, sem foro privilegiado. A interlocutores que o visitam no Alvorada, o presidente diz temer que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do TSE, invista contra ele. Bolsonaro é alvo de investigação na Corte Superior em quatro inquéritos, entre eles o das Milícias Digitais e o que apura a divulgação de notícias falsas durante a CPI da Covid-19.

A decisão de evitar declarações aos apoiadores ficou evidente na última terça-feira, quando o presidente participou de um jantar com deputados e senadores do PL. Bolsonaro se irritou com a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) que o questionou sobre que orientação deveria passar para a militância que fazem atos país afora em frente aos quarteis e bloqueando estradas. A parlamentar reclamava que os grupos estão desorganizados, cada um agindo por si. Bolsonaro, gesticulando e de forma ríspida, disse que não tinha nenhum direcionamento a passar e que não iria falar sobre o assunto. O diálogo foi confirmado por duas pessoas que estavam próximas.

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Um dos mais próximos interlocutores do presidente disse ao GLOBO que Bolsonaro ainda não sabe como se dirigir aos apoiadores. O receio do presidente é que ao não atender aos desejos de radicalização a própria base se volte contra ele.

Queda nas redes Bolsonaro completou ontem um mês sem fazer sua tradicional live semanal. Como mostrou O GLOBO, a redução brusca no ritmo das postagens e a falta de transmissões ao vivo reduziram o fôlego do presidente nas redes sociais. Levantamento da consultoria Bites mostra que, na comparação com o mês anterior, o chefe do Executivo teve uma queda de 93% em suas interações (soma de curtidas, compartilhamentos e comentários) neste mês no Twitter, Instagram e Facebook. A média diária, que era de 7,6 milhões em outubro, passou a 487,7 mil.

Os filhos do presidente querem que ele volte a falar e aproveite o último mês para começar a organizar a oposição. Em conversas reservadas, admitem que tem perdido espaço nas redes sociais e no debate público, inclusive perdendo oportunidades de já reagir às medidas que vêm sendo tomadas pelo governo de transição de Lula.