Bolsonaro marca 1 ano de governo com descontrole em “show” contra a Globo

Foto: AFP via Getty Images

Por Renato C. Abreu

Na semana em que celebraria 1 ano de sua eleição à Presidência da República, Jair Bolsonaro provou novamente seu total destempero e despreparo para ocupar seu atual cargo.

Após enaltecer seu mandato até então, o presidente recebeu um duro golpe no formato de uma reportagem promovida pela Rede Globo durante esta semana e protagonizou um verdadeiro show em suas redes sociais. Relembre sua atividade na internet nos últimos dias.

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Na segunda-feira (28), Bolsonaro completou um ano no poder. Para relembrar sua vitória nas urnas em 2018, ele destacou alguns de seus feitos no cargo e agradeceu a população.

“Há um ano, a minha eleição. Em 10 meses de governo: mais de 760 mil empregos formais gerados; menos 22% de assassinatos, quase 8 mil vidas salvas; menos de 12% de estupros. Estamos devolvendo a dignidade que a esquerda tirou dos brasileiros”, atacou.

Na terça-feira (29), Bolsonaro celebrou um acordo bilionário realizado durante sua viagem à Ásia. O fundo soberano da Arábia Saudita prometeu investir até US$ 10 bilhões em projetos no Brasil.

De acordo com o ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni, obras de infraestrutura serão os principais pilares de investimento, como a da ferrovia Ferrogrão, que liga o Mato Grosso ao Pará.

Segundo Bolsonaro, Mudabala “é um dos dois grandes fundos soberanos dos Emirados Árabes Unidos. Intenção é investir em portos, estradas, mineração, imóveis e entretenimento”.

O acordo foi selado após o encontro de Bolsonaro com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Outros cinco países já receberam investimento do fundo soberano, como Estados Unidos, Japão, França, África do Sul e Rússia.

A boa notícia, entretanto, deu espaço a mais uma bola fora do deputado federal Eduardo Bolsonaro. O filho do presidente recebeu uma dura resposta de Estanislao Fernández, de 24 anos, filho o novo presidente da Argentina, Alberto Fernández, após essa publicação.

Eduardo publicou uma imagem provocativa em seu Twitter, onde aparece segurando uma arma. Ao seu lado está o argentino posando para uma foto enquanto fazia cosplay. Na legenda, o deputado ainda salientou: “isso não é um meme”.

Estanislao, que se veste de drag queen, respondeu a provocação em português. “Irmãos brasileiros, estamos juntos nessa luta. Os amo”. Em outra publicação, disse que tanto a Argentina quanto o Brasil devem se unir contra o ódio. “Lembre-se de que o amor sempre vence o ódio e entre nós temos que cuidarmo-nos sempre”.

Na quarta-feira (30), enfim explodira a maior crise de Bolsonaro contra a Rede Globo. O Jornal Nacional noticiou uma reportagem apontando que um dos suspeitos da morte da vereadora Marielle Franco no ano passado se reuniu com o ex-policial militar Ronnie Lessa, outro acusado pelo crime, no condomínio do presidente, no Rio de Janeiro. Vale destacar que a visita ocorreu no mesmo dia da morte da vereadora.

Ao entrar, o homem teria dito ao porteiro do local que iria na casa de Bolsonaro. No dia e horário, entretanto, o nome do presidente consta na lista de presença da Câmara dos Deputados em Brasília. A citação do nome tornou obrigatório que o Supremo Tribunal Federal investigue o caso.

Ao tomar conhecimento da publicação, Bolsonaro não perdeu tempo antes de ir às redes sociais e responder a matéria. Visivelmente irritado, o presidente ofendeu a emissora e ameaçou a renovação de concessão no futuro.

"É uma canalhice o que vocês fazem. uma ca-na-lhi-ce, TV Globo. Uma canalhice fazer uma matéria dessas em um horário nobre, colocando sob suspeição que eu poderia ter participado da execução da Marielle Franco, do PSOL”, disse.

"Temos uma conversa em 2022. Eu tenho que estar morto até lá. Porque o processo de renovação da concessão não vai ser perseguição, nem pra vocês nem para TV ou rádio nenhuma, mas o processo tem que estar enxuto, tem que estar legal. Não vai ter jeitinho pra vocês nem pra ninguém", disparou o presidente.

Em resposta, a Rede Globo emitiu um comunicado onde afirmou que “não fez patifaria nem canalhice”, como acusou o presidente durante a transmissão. Ainda na quarta-feira, foi a vez de Carlos Bolsonaro defender seu pai nas redes sociais.

“A Globo, sabendo dos fatos e podendo esclarecê-los, preferiu levantar suspeitas contra o Presidente e alimentar narrativas criminosas. Um simples acesso aos registros internos do Condomínio mostra que no dia 14/03/2018 NENHUMA solicitação de entrada foi feita para a casa 58”, contou.

Na quinta-feira (31), Bolsonaro realizou sua tradicional live semanal, onde repetiu os ataques contra a Rede Globo e ao governador Wilson Witzel (PSC), que teria revelado informações sobre a investigação do caso Marielle à imprensa.

Bolsonaro afirmou que deseja um direito de resposta à matéria e prometeu não descansar até que tudo seja esclarecido. "Desafio vocês a me convidar para falar por 10 minutos sobre esse episódio", disse.

Ainda na transmissão, Bolsonaro falou sobre o desastre ambiental no nordeste do país, causado pelo vazamento de óleo no litoral. Ao lado do secretário de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif Júnior, o presidente afirmou que a população das regiões afetadas pode continuar a consumir pescados apesar das manchas de óleo atingirem o local.

"O peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê uma manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo", afirmou Seif Júnior. "Então, obviamente que você pode consumir seu peixinho sem problema nenhum. Lagosta, camarão, tudo perfeitamente sano", continuou.

Bolsonaro ainda completou a fala do secretário, afirmando que sim, alguns animais podem ter sido atingidos pelo óleo, mas que isso é normal. "De vez em quando fica uma tartaruga ali na mancha de óleo - para não falar que ninguém fica, né? Um peixe, um golfinho podem ficar, mas tudo bem", explicou. A declaração rapidamente viralizou e entidades do meio ambiente e internautas condenaram a posição do presidente.


Outro membro da família Bolsonaro que não ficou salvo das críticas na quinta foi Eduardo. Em entrevista ao canal da jornalista Leda Nagle no Youtube, o deputado levantou a possibilidade de o governo reeditar um novo AI-5, caso a esquerda comece a “radicalizar”.

Na conversa, Eduardo disse que chegará um momento "em que a situação vai ser igual ao final dos anos 1960 no Brasil, quando sequestravam aeronaves, quando se sequestravam, executavam-se grandes autoridades, cônsules, embaixadores, execução de policiais, de militares”.

A fala ocorreu diante do tema dos protestos realizados no Chile contra o governo. "Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta. E uma resposta pode ser via um novo AI-5, pode ser via uma legislação aprovada através de um plebiscito como ocorreu na Itália, alguma resposta vai ter que ser dada”, completou.

Duramente criticado por entidades da sociedade civil e também por internautas, Eduardo viu seu pai sair em sua defesa, minimizando a fala. “Quem quer que fale de AI-5, está sonhando", afirmou o presidente a jornalistas no Palácio da Alvorada.

Mais tarde, Eduardo chegou a pedir desculpas pela declaração em entrevista à TV Bandeirantes, alegando que “talvez tenha sido infeliz” ao cogitar a volta do AI-5, ressaltando que não há a menor chance de isso acontecer novamente.

Na tentativa de apagar o incêndio, Bolsonaro usou suas redes sociais na sexta-feira (1) para comparar seu governo ao de sua antecessora, Dilma Rousseff, mostrando avanços em pontos como criminalidade e economia.

Opositores, entretanto, criticaram duramente a publicação e chegaram a pedir que Bolsonaro comparasse seus resultados ao do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Irritado, o presidente afirmou que o petista está preso, causando ainda mais debates nas redes sociais.