Bolsonaro marca churrasco para o dia em que o Brasil deve chegar a 10 mil mortes por coronavírus

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O presidente Jair Bolsonaro acena para apoiadores na saída de um evento no Ministério da Defesa, nesta sexta-feira

Um dia depois de anunciar que promoverá um churrasco para 30 convidados neste sábado, no Palácio da Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro fez piada ao ser perguntado sobre a confraternização, sem deixar claro se ela será realizada ou não. Se for confirmada, a festa acontecerá na data que provavelmente será lembrada pela triste marca de mais de 10 mil mortes causadas pelo novo coronavírus no Brasil — de acordo com o último boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, foram registrados 751 óbitos nas 24 horas entre quinta e sexta-feira, chegando a um total de 9.897, além de 145.328 casos confirmados.

Bolsonaro evitou responder questionamentos de repórteres se o churrasco não representaria um mau exemplo em função da necessidade de isolamento social e disse, em tom de ironia, que 1.300 pessoas já estavam confirmadas.

— Churrasco, eu só estou convidando a imprensa. Já tem 180 convidados — afirmou Bolsonaro, diante de apoiadores que riam, iniciando uma escalada de ironias sobre o número de convidados para o evento: — Duzentos e dez já tem. Tem 210 chefes de família, deve dar 500 pessoas no churrasco amanhã.

Pouco depois, o presidente deu sequência às ironias e disse que o número de confirmados tinha acabado de subir:

— Tá todo mundo convidado aqui, 800 pessoas no churrasco. Tem mais um pessoal de Águas Lindas, serão 900 pessoas confirmadas. Tem mais um pessoal de Taguatinga, 1.100. Vai estar todo mundo aqui amanhã? 1.300 pessoas no churrasco.

Na quinta-feira, quando falou pela primeira vez sobre o churrasco de hoje, Bolsonaro disse que cometeria um “crime”, ironizando as recomendações de autoridades de saúde para evitar aglomerações:

— Estou cometendo um crime. Vou fazer um churrasco no sábado aqui em casa. Vamos bater um papo, quem sabe uma peladinha, alguns ministros, alguns servidores mais humildes.

O vice-presidente Hamilton Mourão disse nesta sexta-feira que não foi convidado para o churrasco. Depois de participar de um evento ao lado de Bolsonaro, no Ministério da Defesa, Mourão comentou, rindo, que a taxa para participar da confraternização no Alvorada, de R$ 70 por pessoa, está muito cara.

— O presidente ainda não falou comigo sobre o churrasco. E R$ 70 está muito caro.

Houve muitas críticas à decisão de Jair Bolsonaro de promover um churrasco em plena pandemia do novo coronavírus, quando a maioria dos brasileiros está evitando confraternizações — inclusive amanhã, no Dia das Mães, várias famílias passarão a data separadas por precaução. Antigo aliado do presidente, o deputado federal Alexandre Frota escreveu no Twitter: “Sábado vamos chegar a 10 mil mortos no Brasil. E o Bolsonaro vai fazer um churrasco. O que ele vai comemorar?”.

O senador Randolfe Rodrigues também citou a triste marca que o país deverá atingir neste sábado: “O Brasil não tem presidente! Quem marca churrasco diante de 10 mil mortes, com milhares de famílias sentindo a dor da Covid-19 na pele, não é um chefe de Estado! É um irresponsável. Não há precedentes no mundo para isso”.

A deputada e ex-líder do governo Bolsonaro no Congresso, Joice Hasselmann, também usou a rede social para criticar o presidente: “Enquanto o PR (presidente da República) vai confraternizar em churrasco com 30 pessoas, hospitais do estado dele, o RJ, estão em colapso. Mais de MIL pessoas à espera de leito na capital. Ontem (quinta-feira) foram 155 mortes. Nenhuma palavra de conforto, nenhuma ação, nenhuma visita. Mas e daí, né @jairbolsonaro?”.

Fernando Haddad, candidato do PT derrotado por Bolsonaro no segundo turno da eleição de 2018, fez um apelo pelo cancelamento da confraternização: “Bolsonaro, hoje (ontem) tivemos um novo recorde de mortos. Provavelmente, não são seus conhecidos. São brasileiros que sequer serão velados. Não faça esse churrasco. É agressivo demais. Não há o que celebrar!”.

A declaração sobre o churrasco se junta a uma série de frases infelizes de Bolsonaro em meio à pandemia do novo coronavírus. No dia 19 de março, quando algumas cidades do Brasil já tinham tomado medidas restritivas para conter o contágio, Bolsonaro afirmou que faria uma festa familiar no Alvorada para comemorar o aniversário dele e o da primeira-dama. A festa não aconteceu.

No fim de março, ele afirmou que o país não chegaria a um número alto de mortes pela doença porque “o brasileiro tem que ser estudado. O cara não pega nada. Eu vi um cara ali pulando no esgoto, sai, mergulha... Tá certo?! E não acontece nada com ele”. Bolsonaro já chamou a Covid de “gripezinha”, disse não ser coveiro quando foi perguntado sobre o aumento das mortes e indagou “e daí?” quando o país passou a China em número de óbitos por coronavírus.

Líderes de países da Europa, da Ásia e da América Central também chamaram a atenção do mundo com suas atitudes e declarações diante do avanço do novo coronavírus. O site G1 noticiou, no dia 31 de março, que as palavras Covid-19 e coronavírus foram proibidas no Turcomenistão. Segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o ditador Gurbanguly Berdymukhamedov determinou que as palavras fossem banidas da mídia estatal e até de conversas privadas no país asiático. Segundo a agência de notícias Reuters, o presidente da Bielorrússia, Aleksandr Lukashenko, declarou, em 13 de abril, que ninguém morreria de Covid-19 no país europeu, quando o seu próprio Ministério da Saúde já confirmava 29 óbitos pela doença. “Ninguém vai morrer de coronavírus no nosso país. Eu declaro isso publicamente. Nós já encontramos combinações de drogas para salvar as pessoas”, garantiu ele, justificando que as mortes já registradas eram “resultado das condições de saúde pré-existentes dos pacientes, como problemas do coração e diabetes”. Em entrevista ao jornal inglês “The Times”, Lukashenko chamou as preocupações com a doença de “psicose” e sugeriu que beber vodca, ir a saunas e dirigir caminhões ajudariam a combater o vírus, além de jogos de hóquei.

Em 16 de abril, o jornal “El País” noticiou que o presidente da Nicarágua, na América Central, reapareceu depois de 34 dias sumido. Em um pronunciamento transmitido pela televisão, Daniel Ortega se solidarizou com parentes de vítimas da Covid-19, mas minimizou o impacto da pandemia em seu país e não justificou sua ausência por mais de um mês. Argumentando razões econômicas, ele descartou decretar quarentena ou o isolamento social — embora muitos nicaraguenses já tivessem adotado o distanciamento de forma voluntária. Enquanto a autoridade máxima do país esteve ausente, a política oficial promovida pela vice-presidente e mulher de Ortega, Rosario Murillo, promoveu aglomerações através de seu plano Verão 2020, que incluiu missas campais, shows, maratonas, visitas casa a casa para combater o vírus e uma marcha política batizada de “O amor nos tempos da Covid-19”. realizada na Páscoa.

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