Bolsonaro dá pista de reeleição em Marcha Para Jesus

O presidente Jair Bolsonaro durante a 27ª edição da Marcha para Jesus em São Paulo. (Foto: Newton Menezes/Futura Press)
O presidente Jair Bolsonaro durante a 27ª edição da Marcha para Jesus em São Paulo. (Foto: Newton Menezes/Futura Press)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Bolsonaro disse na Marcha Para Jesus, na primeira participação de um presidente no evento, que reeleição em 2022 pode ocorrer “se o povo quiser”

  • Presidente ainda destacou que o estado diz que é laico, mas “é cristão”

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) sinalizou sua candidatura à reeleição em 2022 durante discurso na Marcha para Jesus, na tarde desta quinta-feira (20), em São Paulo. Bolsonaro afirmou que a reeleição pode ocorrer se o governo não conseguir aprovar uma boa reforma política e "se o povo quiser".

Transmitido pelos telões espalhados pela Praça Heróis da FEB, no Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo, Bolsonaro fez questão de destacar que o “estado é laico, mas que ele é cristão”. Ao lado do presidente, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB). O tucano João Doria não subiu ao palco, mas discursou em um trio elétrico.

“É muito bom estar entre amigos. Melhor qdo estes amigos tem Deus no coração. Porque agora somos irmãos. Ano passado eu lhes disse "se Deus quiser ano que vem estarei nessa Marcha como presidente. Um presidente que diz que o estado é laico, mas que ele é cristão", discursou Bolsonaro.

Veja o vídeo:

Mais cedo, na manhã desta quinta-feira (20) em Eldorado, cidade onde foi criado, no interior de São Paulo, o presidente já tinha falado sobre uma possível reeleição. "Meu muito obrigado a quem votou e a quem não votou em mim também. Lá na frente todos votarão, tenho certeza disso", disse o presidente, em discurso no qual estava cercado por moradores.

Em entrevista à revista Veja, publicada no final de maio, o presidente já havia admitido disputar mais um mandato em 2022. A condição para isso não ocorrer seria a aprovação de uma ampla reforma política, o que não está no horizonte do Congresso.

"Se a gente fizer uma boa reforma política eu topo ir para o sacrifício e não disputar a reeleição. Porque um dos grandes problemas do Brasil na política é a reeleição. O cara chega ao final do primeiro mandato dele, ou ele quer continuar no poder, que lhe deu fama e prestígio, ou ele quer continuar porque se o outro, o adversário, assumir vai levantar os esqueletos que ele tem no armário. Existe isso no Brasil."

"Então o meu caso é o seguinte: com uma boa reforma política, que diminuiria o número de parlamentares de 500 para 400, entre outras coisas mais, eu toparia entrar nesse bolo aí de não disputar a eleição."

“QUEM MANDA SOU EU”

Ao falar sobre a demarcação de terras indígenas no País durante a Marcha, Bolsonaro afirmou que “quem manda sou eu”.

"Quem demarca terra indígena sou eu! Não é ministro. Quem manda sou eu. Nessa questão, entre tantas outras. Eu sou um presidente que assume ônus e bônus."

Um dia antes, o presidente havia editado uma nova medida provisória que reverte decisão de maio do Congresso e devolve a tarefa de demarcação de terras indígenas no país ao Ministério da Agricultura.

Publicada no Diário Oficial, a nova MP estabelece que constituem áreas de competência do Ministério da Agricultura a reforma agrária, a regularização fundiária de áreas rurais, a Amazônia Legal, as terras indígenas e as terras quilombolas.

Na sequência, o texto afirma que tais competências incluem "a identificação, o reconhecimento, a delimitação, a demarcação e a titulação das terras ocupadas pelos remanescentes das comunidades dos quilombos e das terras tradicionalmente ocupadas por indígenas".

Indagado nesta quinta-feira sobre a mudança na demarcação de terras indígenas, afirmou: "A reestruturação do governo é competência minha. O Congresso diz sim ou não"

(Foto: Newton Menezes/Futura Press)
(Foto: Newton Menezes/Futura Press)

SANTA NÃO TEM VEZ NA MARCHA

Nossa Senhora Aparecida, tida por católicos como a padroeira do país, não tem vez na Marcha para Jesus. "O Brasil não tem uma senhora, o Brasil tem um senhor, e o nome dele é Jesus", disse Fernandinho, no palco deste que é o maior evento evangélico nacional.

Ele é uma das várias estrelas gospel escaladas para se apresentar nesta quinta (20) de Corpus Christi, na 27ª edição da Marcha para Jesus --e a primeira com participação de um presidente.

A descrença em santos, um dos pilares do catolicismo, é uma marca da fé evangélica, que refuta idolatria e veneração de imagens (como as representações de santos comuns em igrejas sob jugo do Vaticano).

Juntos, evangélicos e católicos formam o bloco cristão, maior quinhão religioso no país. A relação entre os dois segmentos nem sempre foi boa. O auge da hostilidade foi em 1995, quando, em programa da Record, um bispo da Universal do Reino de Deus chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida. O bispo Edir Macedo criticou o ato 20 anos depois, no SBT: "Foi um chute no estômago".

A Marcha para Jesus reúne sobretudo evangélicos, embora seja possível esbarrar com pessoas de outros credos. Seu idealizador, o apóstolo Estevam Hernandes, da Renascer em Cristo, fez as vezes de mestre de cerimônias.

E lançou um desafio àqueles que não creem. Lembrou de um sujeito que pediu: "Me prova que Jesus existe". "Presta atenção", disse a ele. "Você conhece a Coca-Cola. Sabe por que conhece? Porque a Coca gasta bilhões em propaganda e tem uma fórmula que todo mundo gosta." Agora, quanto se gasta em propaganda para divulgar o nome de Jesus? "Nada", respondeu à própria pergunta.

Em seguida, pediu à plateia concentrada numa praça na zona norte paulistana: "Levanta o pé direito e dá um pisão na cabeça do satanás". O chão tremeu. A multidão na frente do palco era praticamente intransponível. A área estava tomada pelo público que assiste aos shows gospel, em músicas quase sempre finalizadas com um "amem".

Nas imediações, um vendedor de camisetas colocou um totem com uma foto em tamanho real de Bolsonaro com a faixa de presidente. Participantes tiraram fotos --alguns faziam gesto de arma com os braços, outros faziam um coração com as mãos.

O apóstolo Valdemiro Santiago, da Mundial do Poder de Deus, disse que orar pelo presidente é dever de todo evangélico, pois "toda autoridade é constituída por Deus".

Da FolhaPress