Bolsonaro não manifestou insatisfação com investigação do caso Adélio, diz chefe da PF em MG

Adélio Bispo de Oliveira é transferido pela Polícia Federal para prisão

BRASÍLIA (Reuters) - O superintendente da Polícia Federal em Minas Gerais, Cairo Costa Duarte, afirmou nesta quarta-feira, em depoimento, que o presidente Jair Bolsonaro não manifestou qualquer insatisfação com as investigações sobre o atentado que sofreu durante a campanha eleitoral de 2018 nas das duas vezes em que se reuniu com ele.

"Indagado se o presidente da República naquela ocasião se mostrou insatisfeito com as investigações do 'caso Adélio', respondeu que acredita não ter sido manifestada pelo presidente da República na ocasião qualquer insatisfação em relação ao aprofundamento da investigação", disse Costa Duarte, segundo transcrição obtida pela Reuters.

O depoimento foi tomado no âmbito do inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as acusações do ex-ministro da Justiça Sergio Moro sobre suposta tentativa de interferência do presidente no comando da Polícia Federal.

O chefe da PF mineira, que ficou a cargo de investigar o atentado a faca contra Bolsonaro cometido por Adélio Bispo de Oliveira, disse que nunca foi cobrado por Bolsonaro, por Moro, ou pelo então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, sobre o caso.

Mesmo antes da saída de Moro e Valeixo do governo, o presidente vinha fazendo críticas públicas sobre os resultados da investigação. A principal delas é que, para Bolsonaro, Adélio não agiu sozinho.

No depoimento, o superintendente disse ter participado de um encontro no Palácio do Planalto em que houve, por parte do delegado responsável pelo caso, uma apresentação de forma geral do caso Adélio. Ele disse que há dois inquéritos sobre o caso, um já concluído sobre a tentativa de homicídio, e outro sobre os eventuais mandantes, com relatório parcial entregue.

Na semana passada, a PF concluiu em relatório parcial que Adélio, autor confesso do atentado contra Bolsonaro, agiu sozinho e sem mandantes para cometer o crime, conforme reportagem da Reuters.

O delegado disse que ainda houve um segundo encontro com o presidente, mais recente, na presença do atual ministro da Justiça, André Mendonça, e do novo diretor-geral da PF, Rolando Alexandre de Souza.

No depoimento, o superintendente da PF disse ter ofertado "todas as condições materiais e de recursos humanos necessárias ao bom andamento das investigações".

"O dr. Rodrigo Moraes, presidente da investigação desde o início, nunca externou qualquer insatisfação quanto a eventual deficiência de recursos necessários ao bom andamento das investigações", completou o delegado.

Também em depoimento nesta quarta, o próprio Moraes disse ter tido os meios operacionais para conduzir a investigação, e confirmou as duas reuniões com o presidente para falar sobre o assunto.

Moraes disse que, no primeiro encontro, realizado no início de 2019, Bolsonaro não manifestou insatisfação ou lhe fez perguntas durante a apresentação. No segundo encontro, ocorrido na sexta-feira da semana passada, o delegado disse que o presidente fez questionamentos no sentido de "elucidar dúvidas, sendo que, ao final, aparentemente, reconheceu o esforço investigativo, não se mostrando insatisfeito com o trabalho realizado pela Polícia Federal".

O superintendente da PF mineira disse ainda que não tem conhecimento de repasse direto de informações da apuração envolvendo candidaturas laranjas no Estado para a Presidência da República. Há um inquérito que apura esse caso que tramita na PF de Minas Gerais. 

Em outubro do ano passado, a PF indiciou o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, em uma investigação em que ele é alvo sobre uso de candidaturas laranjas do PSL no Estado de Minas Gerais nas eleições passadas.


(Reportagem de Ricardo Brito; Edição de Pedro Fonseca)