Bolsonaro nega demissão, mas diz que falta humildade a Mandetta: "teria que ouvir mais o presidente"

Bolsonaro e Mandetta durante coletiva de imprensa no dia 18 de março (Andre Coelho/Getty Images)
  • Em entrevista, presidente diz que não demitirá Mandetta "durante a guerra", mas critica ministro por não ter endossado suas posições

  • Bolsonaro ataca Doria e Witzel e diz que "tem gente querendo minha cadeira"

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participou nesta quinta-feira (2) de uma entrevista na rádio 'Jovem Pan' e falou sobre suas posições em relação à crise do coronavírus. Bolsonaro novamente defendeu o fim do chamado isolamento social e atacou governadores como João Doria (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSL-RJ).

Ele também fez críticas ao atual ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que tem posicionado a favor do isolamento social. Bolsonaro foi questionado justamente pela diferença de posição do ministro em relação à sua. Ele, no entanto, disse que não demitirá o ministro em meio à crise do coronavírus.

"O Mandetta já sabe que a gente está se bicando há algum tempo. Não pretendo demitir ele no meio da guerra. Mas ele extrapolou em algum momento", disse Bolsonaro. "Respeito todos os ministros e o Mandetta também. Ele montou o ministério de acordo com a sua vontade. A gente espera que ele dê conta agora "

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"Não é uma ameaça ao Mandetta não. Se ele sair bem, nenhum problema. Agora, nenhum ministro meu é indemissível. Nenhum, nenhum. Todo mundo pode ser demitido, como cinco já goram embora", complementou.

"Acho que o Mandetta, em alguns momentos, teria que ouvir mais o presidente da República. Ele diz que tem responsabilidade. Tem, sim. Mas ele cuida da Saúde, o Guedes cuida da Economia e eu entro no meio para que não haja atrito entre essas áreas. As duas áreas são importantes."

"Não tenho problema com o Paulo Guedes. Agora, o Mandetta quer fazer muito a vontade dele. Pode ser que ele esteja certo. Mas está faltando um pouco mais de humildade a ele para conduzir o Brasil nesse momento difícil, e que precisamos dele para que a gente vença a batalha com o menor número de mortos possível."

Questionado sobre os momentos em que Mandetta não teria ouvido suas demandas, Bolsonaro citou o "isolamento vertical e a questão do emprego".

"[Ele] Poderia estar tratando do assunto, até porque o presidente da República diz desde o começo que [esses assuntos] não pode ser abandonado. Agora, alguns profissionais do ministério dele... aquela histeria, aquele clima de pânico que começou por volta de 40 dias, contagiou alguns. Eu entendo, mas já tá no momento de todos botarem os pés no chão, porque se destruir o vírus e também os empregos, nós vamos destruir o Brasil."

Bolsonaro, no fim da fala, desejou "boa sorte" ao ministro da Saúde. "Espero que o Mandetta prossiga na sua missão com um pouco mais de humildade. Que a gente vença esse mar revolto", avisou.

Crítica a governadores

A entrevista de Bolsonaro à Jovem Pan, que durou uma hora, ocupou o horário em que o presidente faz semanalmente sua live no Facebook, todas as quintas-feiras. No programa, Bolsonaro levantou a voz em alguns momentos, especialmente nos momentos em que criticou governadores.

Seus ataques foram direcionados principalmente a seus adversários políticos Doria e Witzel, que adotaram medidas restritivas em São Paulo e no Rio de Janeiro e contrariaram a visão do presidente, além de criticá-lo várias vezes nas últimas semanas.

Primeiro, Bolsonaro afirmou que foi "ver o povo" quando visitou as cidades-satélites de Ceilândia e Taguatinga, no Distrito Federal, no último domingo (29), contrariando as orientações da Organização Mundial de Saúde e do próprio Ministério de Saúde sobre a necessidade de isolamento social.

"É desesperador o que a gente vê, principalmente com alguns trabalhadores informais. Levaram uma paulada na testa por causa das medidas de alguns governadores, que deram remédio exagerado. Meu entendimento é que poderiam estar trabalhando. Sempre defendi de forma diferente o isolamento", afirmou.

"Para quem me criticou sobre ir a Ceilândia e Taguatinga, eu vou. Doria e Witzel, vão na periferia, vejam como estão as famílias, em um quartinho de nove ou 12 metros. Isso não é isolamento, é mentira."

"Vou continuar conversando com o povo. A responsabilidade é minha. Eu estou colocando minha vida em risco. Fui em farmácias, postos de combustível. Devemos tirar o povo da situação em que ele se encontra."

Bolsonaro afirmou que o conflito é também político, apontando os dois como seus possíveis rivais na eleição presidencial de 2022. Ele disse que "tem gente de olho na minha cadeira" e afirmou que João Doria, governador de São Paulo, é "péssimo". Ele não citou o nome dele, chamando-o de "porta-voz de São Paulo", e disse que ele "faz demagogia barata o tempo todo".

"Depois, alguns governadores, em especial o de São Paulo, vem com uma cara de virgem imaculada dizendo que o governo tem que ajudá-los. Esse governador, que usou meu nome para se eleger, está mirando 2022", declarou Bolsonaro.

Ao citar a troca de postagens entre Doria e Lula nesta quinta, o presidente disse que a situação do tucano ficou "ridícula". "Caiu a máscara dele."

Sobre Witzel, Bolsonaro voltou a criticar os pedidos do governador para que os moradores do Rio fiquem em casa. "Falou 'fica em casa, é uma ordem'. Que isso? É ditadura? Tem que tratar com respeito. Proibir o cidadão de ir à praia... na praia, ele está ao ar livre, melhor que ficar com 10 caras em casa fazendo churrasco."

Bolsonaro nega militares na rua e diz que pode reabrir comércio por decreto

O presidente ainda foi questionado sobre um vídeo que ele compartilhou hoje no Twitter em que uma professora pede ajuda do presidente, dizendo que ele deveria colocar "militares na rua".

Bolsonaro negou que endossaria uma ação militar para fazer valer uma ação federal. "Os militares não irão para aruá reabrir o comércio. O que existe é um projeto de decreto pronto, que considera atividade essencial toda aquela exercida pelo homem ou mulher através da qual seja indispensável para levar o pão para casa todo dia. Se tiver que chegar a esse momento, vou assinar, mas sei que tem ameaça para cima de mim, até de buscar meu afastamento sem amparo legal", afirmou.

O presidente ainda descartou a possibilidade de renunciar. "Da minha parte, não existe a palavra renúncia. Fico até feliz por estar na frente de um problema grande como esse. Penso como estaria se estivesse o que ficou em segundo lugar. É uma missão".

A entrevista de Bolsonaro à Jovem Pan, que durou uma hora, ocupou o horário em que o presidente faz semanalmente sua live no Facebook.

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