‘Com Bolsonaro, os negros estão marginalizados e sem direitos’, critica Sueli Carneiro

‘Com Bolsonaro, os negros estão marginalizados e sem direitos’, critica Sueli Carneiro

Texto / Lucas Veloso | Edição / Simone Freire

Atualmente, sob a política encabeçada pelo presidente Jair Bolsonaro, os negros no Brasil enfrentam uma realidade social semelhante aos escravos no pós-abolição: livres para morrerem. A opinião é da escritora Sueli Carneiro, que participou do 1º Encontro Internacional da Coalizão Negra Por Direitos.

Para ela, é importante que os afro-brasileiros se articulem em prol de conquistar direitos e espaços que as ações governamentais têm negligenciado. “Nunca os ataques foram tão aparentes. As mortes, por todos os lados, nos destroem. Estamos por nossa conta, precisamos ressignificar as estratégias que nos trouxeram até aqui”, atestou.

O Encontro reuniu participantes e militantes do Brasil, Estados Unidos, Equador, Colômbia e África do Sul entre os dias 29 e 30 de novembro na Ocupação 9 de Julho, região central de São Paulo (SP).

Um dos objetivos da atividade foi reunir lideranças das organizações do movimento negro brasileiro que têm promovido ações conjuntas para assegurar os direitos humanos da população negra no Brasil. Além de iniciativas de incidência política nacional, a Coalizão articula apoio internacional e promove denúncias em fóruns internacionais sobre a situação dos negros no país.

Durante sua fala, Sueli também relembrou avanços do movimento negro nas últimas quatro décadas. “Fomos capazes de conquistar a criminalização do racismo na Constituição de 1988, agravamos a pena de injúria quando a motivação é racial, inscrevemos o direito de terra aos remanescentes de quilombos, conseguimos órgãos de proteção racial”, exemplificou. “Nossa luta atual é contra o retrocesso como forma de sobrevivência”, definiu.

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Edson Cardoso, da organização baiana Irohin, comentou que as responsabilidades, frente ao atual governo, são enormes, mas que para ele, o mais urgente é a avaliação do que Bolsonaro e suas políticas fizeram com as pessoas negras no primeiro ano de seu mandato. ”Precisamos ler essa conjuntura urgentemente”, advertiu.

Segundo Cardoso, outra demanda é articular a intelectualidade negra para que possa influenciar nos espaços de poder. “Temos que dar mais expressão ao momento inédito que estamos vivendo em que sofremos ataques como ‘não há negros’, ‘não há racismo’, pois isso é um processo de negação de quem somos”, disse.

A vice-presidente do Conselho do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), Wania Sant ‘Anna defendeu que o movimento negro deve mostrar que existe um projeto de nação no Brasil. “Eu digo isso, com tranquilidade, baseado no nosso ativismo, o que pensamos para os negros é um país livre da discriminação racial”, pontuou.

“Tem gente que conhece o nosso projeto, isso faz com que tenham medo de nós e isso faz com que tenham a coragem de nos dizimar fisicamente, porque tá combinado, porque acham que assim pode destruir o projeto que temos, mas não serão vitoriosos. Somos maioria”, acrescentou.

O Senado Federal está discutindo os riscos de corte nas verbas do Censo Demográfico de 2020. O governo reduziu de R$ 3,1 bilhões para R$ 2,3 bilhões o dinheiro reservado para o levantamento dos dados sobre a população brasileira. Para especialistas, os cortes terão impacto especialmente na logística do levantamento, além de impactar negativamente em políticas públicas.

Durante sua fala, Wania ressaltou a importância do Censo e convocou ações em prol da coleta de dados a nível nacional. “Enquanto movimento negro, nós demonstramos as assimetrias raciais, as desigualdades entre a base da pirâmide e o topo, como trabalho, educação e política. O que vamos fazer pra diminuir? Pedindo um Censo sem cortes”, arrematou.

O Encontro promoveu quatro mesas de debates com discussões sobre os desafios do enfrentamento ao racismo, conjuntura nacional, internacional e resistência diaspórica, violência do estado e genocídio negro e a disputa de poder institucional e incidência política.