Bolsonaro nomeia candidato com apenas 3 votos para reitoria da UFRGS e causa espanto: 'Temos medo'

João de Mari
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Carlos Bulhões (Foto: Daniel Martins/Divulgação)
Carlos Bulhões (Foto: Daniel Martins/Divulgação)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nomeou, nesta quarta-feira (16), o professor Carlos André Bulhões Mendes como novo reitor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) para um mandato de quatro anos. Ele assumirá o cargo na próxima segunda-feira (21). A decisão, no entanto, causou espanto para parte dos estudantes e professores, pois Bulhões recebeu apenas três votos na eleição interna do conselho da instituição.

A votação é feita para definir a chamada lista tríplice, documento que contempla os nomes dos possíveis reitores e é enviado para análise presidencial. A chapa liderada pelo atual reitor, Rui Oppermann, venceu a disputa interna com 45 votos. Em segundo lugar, com 29 votos, ficou a candidata Karla Müller. Carlos Bulhões foi o último, com apenas três votos.

Na avaliação do historiador e mestrando no Programa de Pós-graduação em História da UFRGS, Matheus Gomes, a decisão de Bolsonaro é uma mensagem para os “fiéis bolsonaristas”, como ele mesmo diz, e um claro sinal de que o presidente só “governa para os deles”.

“Eles se mobilizaram com base em mentiras, como a de que a universidade é governada por esquerdistas, para descaracterizar o que de fato é um ambiente universitário. A universidade é um espaço de diversidade de opiniões, pensamento político e científico”, avalia.

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Bolsonaro já escolheu 25 reitores de universidades federais desde o início de seu governo. Destes, 14 foram indicados sem liderar uma lista tríplice, conforme levantamento da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior).

É direito do presidente definir os nomeados para o cargo de reitor após envio da lista por parte da instituição. Porém, a decisão de escolher o último colocado, contrariando a votação, não é comum. Para se ter ideia, o episódio na UFRGS é tão raro que o último reitor nomeado, sem ser o mais votado, foi Gerhard Jacob, em 1988.

“Bolsonaro retoma uma prática que não foi seguida pelos presidentes eleitos democraticamente no Brasil, mas sim pelos militares. Me lembra do primeiro ato tomado pelos interventores na ditadura, organizada pelos militares, que caçavam professores que discordavam daquela intervenção”, diz Gomes, que já foi coordenador-geral do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da UFRGS, em 2013, e membro do Conselho Universitário, em 2012.

Além disso, ele afirma que a decisão do governo Bolsonaro é um plano para que as “universidades só sejam frequentadas pela elite e não por todos”.

“Isso pode acabar com a função social da instituição, que está de portas abertas para o povo contribuindo no combate das desigualdades sociais. Essa decisão coloca a universidade em crise, porque Bulhões foi o menos votado no conselho universitário, entre os estudantes, professores e técnicos administrativos. Temos medo que ações afirmativas sejam colocadas em risco”, conclui.

‘Fará uma excelente gestão’

Quem parece discordar do historiador é ala bolsonarista. Nas redes sociais houve comemoração após o nome de Bulhões ser anunciado. O deputado federal Bibo Nunes (PSL-RS), que tinha antecipado a nomeação de Bulhões na semana passada em suas redes sociais, disse nesta quarta-feira (16), que o novo reitor “fará excelente trabalho em sua gestão”.

“Presidente Bolsonaro nomeou Carlos Bulhões, como Magnifico Reitor da Universidade Federal do RS. Excelente profissional, que fará excelente trabalho em sua gestão. Conte comigo!”, escreveu em seu Twitter.

Um abaixo-assinado contra a nomeação de Bulhões foi organizado pelos alunos da universidade e até o momento da publicação desta matéria contava com mais de 11 mil assinaturas.

“Desde 2019 as Universidades Federais tem sofrido perseguição do Governo. Cortes nas verbas, nas pesquisas e nos incentivos foram as primeiras medidas. Além das declarações de que o que fazemos das Universidades é apenas ‘balbúrdia’ e das perseguições políticas, já tivemos 4 nomeações de ministros da educação”, diz trecho do documento.

Carlos Bulhões é professor titular e diretor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS. A reportagem entrou em contato com o Ministério da Educação pedindo posicionamento sobre a nomeação do reitor, mas não teve resposta até a publicação.