Ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas seguem roteiro de sua obsessão por cloroquina

Electoral Urn. Translations Fim means End, Urna Urn, Eleitoral Electoral. Vector stock illustration.
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O modus operandi do bolsonarismo para transformar uma mentira repetida diariamente em verdade está testemunhado no vídeo do treinamento da médica Mayra Pinheiro, mais conhecida como Capitã Cloroquina, às vésperas de seu depoimento para a CPI da Covid, há cerca de um ano.

Àquela altura, ninguém que levava a sério o próprio diploma ou o juramento de Hipócrates acreditava na cura milagrosa divulgada por Jair Bolsonaro e outros terraplanistas sanitários a respeito do chamado kit Covid –conjunto de medicamentos ineficazes vendido como solução pelo governo disposto a convencer a população a sair de casa sem medo de contaminação ou impossibilidade de cura.

Ainda assim a então secretária da Gestão do Trabalho e Educação do Ministério da Saúde queria saber onde estava a “bala de prata” que ela poderia levar estampada num cartaz para dizer aos senadores: “Está aqui a prova estatística que tenho até hoje que hidroxicloroquina, que ivermectina funcionam”.

O questionamento foi feito em videoconferência com o epidemiologista Regis Bruni Andriolo e o secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos do ministério, Hélio Angotti Neto. O vídeo revelador foi obtido e divulgado pelo site The Intercept Brasil.

Mayra Pinheiro queria saber o que poderia apresentar visualmente que atestasse, com “certeza”, que aquele tipo de medicamento funcionava em algum lugar que não fosse a cabeça dela e do presidente.

O vídeo é didático em vários sentidos. Mostra que, na lógica bolsonarista, não são as opiniões que se moldam aos fatos, mas os fatos à sua opinião.

Cabem aos sabujos do presidente correrem para provar que o que ele diz faz sim, muito sentido e tem pé na realidade.

No caso da pandemia, a teimosia custou quase 665 mil vidas.

A obsessão do presidente com as urnas eletrônicas segue o mesmo roteiro.

Bolsonaro quer porque quer provar que está certo ao dizer que o sistema que o elegeu –e elegeu também o bancada do centrão que agora o apoia – é um perigo e está nas mãos do inimigo.

Um inquérito da Polícia Federal para investigar como ele acessou informações sigilosas vazadas durante uma live mostra que ele tinha suas próprias “Capitãs Cloroquinas” escaladas para provar sua tese.

A Folha de S.Paulo revelou que a ofensiva contou com a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e generais instalados no governo, como Luiz Eduardo Ramos (Secretaria Geral da Presidência) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional).

Eles basicamente assediavam servidores em busca de indícios que se mostrassem úteis para atestar supostas falhas no sistema. As “provas” alardeadas pelo presidente nunca foram apresentadas. Não foram porque eram baseadas em lorotas.

Aberta pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes (não por acaso, declarado inimigo número 1 do presidente), a investigação da PF demonstra a disposição do entorno bolsonarista em atendê-lo em sua obsessão de melar as eleições de 2022.

O roteiro é o mesmo que levou à carnificina pandêmica.

A apuração mostra também os riscos assumidos pelo então presidente do Tribunal Superior Eleitoral Luís Roberto Barroso ao chamar um representante das Forças Armadas para compor um tal conselho de transparência das eleições.

Bolsonaro não se preocupou sequer em disfarçar sua intenção viral num Cavalo de Tróia. Ele entendeu que o convite se estendia a ele e convocou seu secretário da Defesa a assumir o posto. Ou seja: o candidato à reeleição quer um subordinado instalado no colegiado responsável por atestar uma disputa que lhe interessa e que tenta melar desde o primeiro dia de mandato.

A casca de banana ganhou holofotes depois que o próprio ministro da Defesa cobrou que o TSE divulgasse seus questionamentos à segurança do sistema.

A ideia era constranger a corte, mas o tiro, até aqui, saiu pela culatra.

Em uma das respostas encaminhadas, o TSE precisou explicar aos fardados que a sala escura para apuração de votos, vira e mexe citada pelo presidente em seus discursos, só existem na cabeça do seu comandante-em-chefe.

Em outro trecho, os técnicos demonstraram que as Forças Armadas confundem os conceitos de erro amostral e risco de amostragem ao questionar o nível de confiança do teste de integridade das urnas.

Ao todo, o TSE negou 3 das 7 sugestões apresentadas pelos militares e explicou que as demais já estavam em prática.

Por delicadeza, evitou pedir aos questionadores que cuidassem da segurança das fronteiras enquanto eles se dedicavam à segurança das urnas –como tem acontecido desde 1996.

As respostas expuseram quem entende do que em cada assunto. Falta saber se os destinatários querem respostas ou se estão lá apenas para fazer o jogo do presidente em direção ao caos –aliás, como já anunciava o próprio Barroso.

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