Obsessão por voto impresso pode minar alianças de Bolsonaro

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Brazil's President Jair Bolsonaro talks with Brazil's Infrastructure Minister Tarcisio Freitas during the launching ceremony of the program
Jair Bolsonaro com seu ministro dos Tranportes e provável candidato ao governo de SP, Tarcisio Freitas. Foto: Adriano Machado/Reuters

O histórico de descarte de antigos aliados é um espantalho sorridente e macabro sobre o altar onde Jair Bolsonaro tem trocado alianças com seus novos melhores amigos.

Dava para montar um novo time só com o elenco de dissidentes que saíram pela porta dos fundos do governo do ex-capitão. Puxam a fila nomes como Sergio Moro, Fernando Azevedo e Silva, Carlos Alberto dos Santos Cruz, Gustavo Bebianno, Luiz Henrique Mandetta, Otávio Rêgo Barros, Roberto Castello Branco, Joaquim Levy, entre outros.

Em seu histórico de traições Bolsonaro tem aliados de primeira ordem que nunca atravessaram a porta do Planalto, caso de Magno Malta, os que romperam com o governo nas primeiras articulações sob coice no Congresso, casos de Major Olímpio, Luciano Bivar e Joice Hasselmann, e os rebaixados a carregarem a pasta de Bolsonaro nas funções mais aleatórias, caso de Onyx Lorenzoni, atual secretário da Presidência que já foi ministro da Casa Civil, da Cidadania e agora está próximo de ser despachado para o recém-criado Ministério do Trabalho, um naco do superpasta cada vez mais desidratada da Economia sob Paulo Guedes. 

Isso sem contar o afastamento tático de aliados tóxicos, como Fabrício de Queiroz, que hoje usa suas redes sociais e sua metralhadora cheia de balas, e de mágoas, para se queixar do abandono dos velhos camaradas.

A coleção de cabeças empalhadas e/ou humilhadas deveria servir como argumento de dissuasão para os novos melhores amigos do governo, mas não só.

Jair Bolsonaro prenuncia a derrota nas eleições de 2022 com uma ameaça mais do que declarada de golpe. Se não tiver voto impresso, avisou o presidente, não vai ter eleição.

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A ofensiva do presidente não é só um perigo para adversários e saudosos da democracia. É também aos futuros aliados. Se houver.

Em 2018, Bolsonaro venceu a disputa presidencial com apoio de ao menos 15 dos 27 governadores eleitos. Em sua esteira, elegeu também a segunda maior bancada da Câmara, com 52 deputados.

Essa base imensa foi erodida pelo próprio presidente por implicâncias comezinhas e outras nem tanto. Hoje Bolsonaro é um pré-candidato à reeleição que até agora não tem partido.

As articulações para uma futura filiação, primeiro passo para firmar sua alça de aliados em 2022, passam necessariamente pela conversa do voto impresso. Afinal de contas, não é só a vaga de presidente da República que estará em disputa daqui a um ano e três meses.

Entre sobreviventes e novatos, quem permanece ao lado do presidente tem lá suas pretensões em ano eleitoral. Ciro Nogueira, portão de entrada para o PP e novo melhor amigo do presidente, é pré-candidato a governador no Piauí. Onyx deve concorrer no Rio Grande do Sul. O ministro dos Transportes, Tarcísio Freitas, em São Paulo.

Se nada der certo para os planos da turma, Bolsonaro repetirá o feito de 2020 e sairá da disputa novamente como Midas às avessas: nada brotou no terreno para onde ele apontou o dedo. Os casos mais notáveis aconteceram no Rio e em São Paulo, onde o apoio do, em tese, principal cabo-eleitoral do país mais atrapalhou do que ajudou os planos de Marcelo Crivella e Celso Russomanno, ambos do Republicanos.

Mas se o presidente repetir ao menos em parte o fenômeno de 2018 o bolsonarismo terá emplacado aliados na Câmara, no Senado, nos governos estaduais e nas Assembleias Legislativas.

Quem entrar em campo deverá saber que a próxima cerimônia de posse estará em risco. A não ser que Bolsonaro convença o país, com a ajuda de cabos, soldados, generais e ministro da Defesa, que os votos do sistema eletrônico supostamente fraudado chegaram limpos, e sem enrosco, apenas para seus aliados.

Em caso de derrota do presidente, como ficará o aliado eleito — digamos Tarcísio Freitas em São Paulo? E os deputados candidato a puxadores de voto em 2022? E os senadores? Vão topar cuspir no espólio da própria votação?

Esse impasse, somado à postura firme das Forças Armadas dos EUA —diferentemente do que tem sido visto no Brasil — transformou em vinagre a estratégia de Donald Trump de sequestrar a cadeira de presidente em seu país após a derrota para Joe Biden. A certa altura, os próprios aliados do Partido Republicado, parte deles eleita pelo sistema de votos atacado pelo chefe da Casa Branca, perceberam a encrenca e vociferaram contra a estratégia.

Por aqui, candidatos a futuros aliados do presidente na corrida eleitoral de 2022 já deveriam, se é que não estão, calcular as minúcias do custo desse apoio. Com esse apoio vem embutida a contratação de uma crise que, no limite, levará descrédito também para a própria pretensão eleitoral.

A taxa de letalidade de uma plataforma que descarta aliados com a mesma facilidade com que os atrai é a outra variável dessa conta.

Ao que tudo indica, quanto mais radicaliza, mais Bolsonaro corre em direção ao isolamento. A não ser que os sócios sejam, ou assim o julguem, mais espertos do que ele.

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