Maior opositor de Bolsonaro hoje não é Lula. É Luciano Bivar

Jair Bolsonaro e Luciano Bivar: ex-aliados e hoje antípodas


Ok, Lula está solto. Pintou o rosto para a guerra, atiçou a militância contra Bolsonaro, atacou o plano econômico de Paulo Guedes e, como um rei Sebastião que volta do mar, promete agora restabelecer ao povo as bem-aventuranças de um passado recente.

Mas Lula não é candidato. Está inelegível. As próximas eleições, municipais, só acontecem daqui a um ano. E é mais fácil ver Ciro Gomes cantar “Lula lá” do que imaginar o PT, com Lula, com tudo, com alguma chance de dobrar o antipetismo e eleger prefeitos em cidades-chave, como São Paulo.

É possível que, solto, Lula consiga mobilizar seu eleitorado mais fiel e, de quebra, trazer para seu lado os eleitores desencantados com os dez primeiros meses de governo Bolsonaro. Seja como for, difícil será manter o fogo alto pelos próximos três anos enquanto responde a outros processos na Justiça.

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Embora o presidente fale sobre Lei de Segurança Nacional como resposta à beligerância retórica do petista, alimentada pelo medo de que o país venha a receber protestos como no Chile ou na Bolívia incendiada, não é Lula que pode fazer estrago no barco bolsonarista neste primeiro ano de travessia. É Luciano Bivar, presidente do PSL, partido que está prestes a ver o capitão desembarcar.

Bolsonaro foi eleito com uma base de apoio com relativa musculatura.

Levou com ele a maior bancada da Câmara (hoje com 53 deputados), além de três senadores e três governadores.

Poderia estender a ponte com partidos alinhados ideologicamente, como o PSC, ou em sintonia com a agenda liberal, caso do DEM.

Mas preferiu apostar no isolamento.

Suspeitas, rachas internos e uma briga fratricida pelos fundos partidário e eleitoral transformaram o capital político de 2018 em uma corda tensionada até o limite.

Nessa briga, Bivar, um deputado irrelevante que até outro dia administrava com mão de ferro um partido nanico enquanto fazia as vezes de cartola no Sport Clube do Recife, conseguiu com sucesso trancar o jogo e emparedar o presidente e seus filhos, que lançavam os olhos sobre postos-chaves da legenda.

O racha criou uma leva de ex-aliados, como Joice Hasselmann, que agora chora em plenário, acusa o clã Bolsonaro de perseguição e promete revelar tudo o que sabe na CPI das Fake News, e o senador Major Olímpio (PSL-SP), que vive às turras com os filhos do presidente. Ambos foram fundamentais para o apoio ao capitão na campanha de 2018.

Tudo o que une bolsonaristas e ex-aliados hoje é o antipetismo, um espólio que será disputado a tapa pelos próximos meses. 

Até lá, o PSL já dá sinais de que vai fazer de tudo para impedir a criação do novo partido que abrigaria Bolsonaro e sua família a tempo de disputar as eleições em 2020.

Sem estrutura partidária, o clã corre o risco de posar como figurante na disputa.

Sob o cajado de Bivar, a sigla deve expulsar e pedir o mandato de parlamentares que apoiarem a proposta, conforme noticiou a coluna Painel, da Folha de S.Paulo.

Uma força-tarefa para impugnar assinaturas pelo novo partido também começa a ser montada.

Até aqui, estavam mais do que claros seus esforços de Bolsonaro na articulação para emplacar os filhos nos postos-chaves da legenda. Agora, com um país a governar, terá “só” um partido novo a criar no muque e em tempo record.

Vai precisar de muito espaço nas emissoras aliadas para conseguir o número de assinaturas.

Tempo, claro, é o que não falta (ops, contém ironia). 

Com o presidente ocupado com o novo partido, cabe aos ministros a tarefa de dar a cara a tapa em anúncios de medidas para a retomada da economia. Na segunda-feira foi o secretário da Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, quem veio a público explicar o pacote de incentivo para as empresas contratarem jovens dispostos a ganhar R$ 1.497 para trabalhar aos domingos e serem trocado por outros jovens trabalhadores após 24 meses.