Bolsonaro levou espírito da 5ª série ao poder e isso não acaba bem

·4 minuto de leitura
BRASILIA, BRAZIL - SEPTEMBER 13: Brazilian President Jair Bolsonaro attends a ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil on September 13, 2021. (Photo by Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images)
Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency (via Getty Images)

Fábulas da vida real.

Na segunda metade da década de 90, eu era um jovem estudante do ensino fundamental em uma turma razoavelmente equilibrada, sem grandes conflitos, entre a turma do fundão, os durminhocos, os esportistas e as estudiosas da primeira fileira. Uns e outros se conectavam de quando em quando com as piadas e brincadeiras mais infantis —o que se espera, aliás, daquela curva final da idade.

Até que, no meio do ano letivo, foi transferido para lá um certo valentão.

Curioso é que o valentão não tinha pinta de valentão. Não era alto, forte, não tinha cicatriz como herança de briga na testa —e a descrição fica por aqui, para que ele não se reconheça neste texto. O valentão da escola pode ser ainda o valentão da vida adulta.

Um dia o novo aluno se desentendeu com um prócer do fundão e quase afundou a cabeça do rapaz na parede.

Outro integrante da turma tomou as dores e como recompensa recebeu outra surra.

Um a um, o novo aluno foi colecionando pilhas de pequenos corpos humanos com as vértebras avariadas até estabelecer seu reinado no fundo da sala pelo terror.

Foi então que eu cometi um grande erro.

Com medo de ser o próximo alvo, eu me aliei ao valentão.

Com meu novo amigo eu imaginava estar protegido de avanços autoritários promovidos pelos rapazes cobiçosos dos lanches e tênis alheios no intervalo.

O problema daquela aliança é que, com o tempo, só tínhamos um assunto em comum: brigas.

As dele, no caso.

E havia muitas. O que explicava sua constante transferência de uma escola para outra.

Certa vez um outro amigo, desses que antes frequentava minha casa e chamava meus pais de tio e tia, falou alguma coisa que o valentão não gostou. Mas meu ex-melhor amigo, franzino, educado e meio atrapalhado, não era exatamente o público-alvo do valentão. Ele preferia lutar com rinocerontes e mastodontes com espinha no rosto. E terceirizou a refrega: duvido que você vai lá e dá um murro nele.

Leia também:

Não titubeei. Chamei meu outrora melhor amigo para uma conversa no meio da sala, na saída do intervalo, e meti-lhe um sopapo no rosto. Orgulhoso, procurei o valentão aliado para enxergar algum sinal de aprovação. E mais não enxerguei.

Meu ex-amigo, assustado com o ataque, baixou o espírito do demônio da Tasmânia e me cobriu de socos e pontapés. Devolvi alguns, mas saí em déficit e acossado.

Quando vimos, estávamos na diretoria, as costas esfoladas, com rasgos de cima a baixo nas camisas, chorando enquanto nossos pais, velhos amigos, se perguntavam como foi que dois amigos antes queridos puderam fazer o que fizeram.

O valentão apenas ria.

Daquela tarde vergonhosa, lembro da carta que aceitamos escrever prometendo nunca mais fazer um troço daqueles. Tenho ainda um certo rancor pela diretora. De alguma maneira a considerava culpada por ter visto tudo nos dias anteriores e só agido quando a coisa degringolou.

Até hoje, ao recordar as cenas e ver meu bom e velho amigo em alguma postagem da vida adulta nas redes sociais, sinto um amargo arrependimento. O maior da vida, talvez.

Um consolo mínimo vem da consciência de que éramos infantes. Estávamos nas primeiras séries do ensino fundamental e teríamos uma vida inteira para aprender que ela não se resume a tiro, porrada e bomba.

Vivendo no Brasil atual, sinto que às vezes aquela sala de aula ganhou corpo em forma de governo. A homologia dos campos permite o resgate de alguns arquétipos.

A diretora que nos obrigou a escrever uma carta de pacificação reencarnou na figura do missivista Michel Temer, ex-presidente chamado às pressas para apagar o incêndio provocado pelo sucessor em um ato prometendo porrada na avenida Paulista.

Tenho dúvida apenas se Bolsonaro é o tonto que manda bater ou o tonto que obedece e apanha.

O que sei é que não tem como dar certo um país que levou ao Planalto o espírito mais bruto da quinta série.

Em tempo. Ainda que timidamente, Augusto Aras tem dado sinais de que sua versão 2.0 não será tão subalterna aos desejos presidenciais quanto em seu primeiro biênio à frente da Procuradoria Geral da República. No começo da semana, ele pediu ao Supremo Tribunal Federal que suspendesse uma medida provisória assinada por Bolsonaro que alarga ainda mais o corredor para a difusão das fake news, pelas quais surfam os criadores de realidades paralelas bolsonaristas. A MP está com os dias contados. Por bem. Há sempre o dia do cravo e o outro, da ferradura.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos