Após prometer divulgar lista de países que compram madeira ilegal, Bolsonaro faz acusação genérica

Reuters
·Agência de notícias
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(Photo: ASSOCIATED PRESS)
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Após prometer desde a semana passada que iria revelar quais países estariam importando madeira ilegal do Brasil, o presidente Jair Bolsonaro usou nesta quinta-feira (20) sua transmissão pelas redes sociais para fazer acusações genéricas contra importadores ilegais do insumo brasileiro, que envolveriam empresas europeias nessas operações.

Na live semanal, Bolsonaro disse ter “nomes de empresas” que importam madeira ilegal, sem identificar nenhuma delas. Ao contrário do esperado, ressaltou logo no início da transmissão que não iria acusar países. A transmissão foi feita ao lado do ministro da Justiça, André Mendonça, e do superintendente da Polícia Federal em Amazonas, delegado Alexandre Saraiva.

“A gente não vai acusar nenhum país aqui de cometer um crime ou ser conivente com um crime, mas empresas (estrangeiras) poderiam estar nos ajudando a combater esse ilícito que interessa para nós qualquer ajuda nesse sentido”, disse ele, logo no início da transmissão, em um tom bem diferente do que vinha adotando nas últimas falas sobre o assunto.

Na terça-feira, no início do seu discurso na Cúpula dos Brics ―grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul―, Bolsonaro afirmou que nos próximos dias iria revelar quais países estariam importando madeira ilegal da Amazônia e contribuindo para o desmatamento da floresta.

“Então revelaremos nos próximos dias o nome dos países que importam essa madeira ilegal nossa, através da imensidão que é a região Amazônica, porque aí sim estaremos mostrando que esses países, muitos desses que nos criticam, em parte têm responsabilidade nessa questão”, disse ele, na ocasião.

Apesar da fala mais moderada, Bolsonaro fez durante a transmissão menção a dois países de forma genérica. Citou o Reino Unido, que vai sediar em novembro do próximo ano a cúpula do clima da ONU, ao afirmar que há um projeto em discussão por lá que torna ilegal o uso de commodities por parte de empresas que importam material de países que realizam desmatamento.

“Então é um grande jogo econômico que existe entre alguns países do mundo, em especial, para nos atingir porque nós somos realmente uma potência no agronegócio, nas commodities que vem do campo, e eles querem exatamente diminuir a concorrência nossa, com toda certeza facilitando outros comércios ou até mesmo o comércio interno desses commodities”, disse.

″É um cartão de visita que a Inglaterra está apresentando, isso vai ser feito política em cima disso com o objetivo, em grande parte, de atingir o Brasil”, reforçou.

Em outro momento, o presidente mencionou a França ao dizer que o país é concorrente do Brasil na questão dos commodities. “O grande problema nosso, para a gente avançar no acordo União Europeia e Mercosul, é exatamente na França”, disse, numa referência à resistência do país europeu de chancelar o acordo entre os os dois blocos econômicos.

(Photo: TARSO SARRAF via Getty Images)
(Photo: TARSO SARRAF via Getty Images)

“Estamos fazendo o possível, mas a França, em defesa própria, nos atrapalha no tocante a isso aí”, destacou.

As autoridades pediram empenho dos países importadores de madeira ilegal brasileira para atuar em conjunto com o governo brasileiro na identificação dessas mercadorias comercializadas a preços abaixo do mercado. Destacaram que, com a tecnologia atual, já é possível identificar a origem da madeira exportada do Brasil e assim verificar se ela é ilegal ou não.

“Não adianta nós ficarmos combatendo aqui se os outros países não combatem a receptação desse material”, disse o ministro da Justiça.

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A Coalizão Clima, formada por representantes de organizações de defesa do meio ambiente e empresas brasileiras ligadas ao agronegócio e ao setor financeiro, divulgaram nesta quinta-feira uma carta em que apontam o governo federal como um dos principais responsáveis pelas ilegalidades que dominam o mercado de madeira no país.

Depois das ameaças do presidente, a carta da Coalizão Clima apontou que o Brasil perde uma oportunidade de ter um ambiente de negócios no qual a lei é de fato aplicada e de promover uma economia que gere benefícios econômicos e ambientais.

“Mas o maior obstáculo a esse modelo é, justamente, a insegurança jurídica causada pela falta de fiscalização e comando e controle pelo Estado”, diz a carta.

O grupo, que tem entre seus participantes organizações ambientais como WWF e Imazon e empresas como Klabin, JBS, Marfrig e Natura, entre outras, em um total de 262 empresas e organizações, lembra que levantamentos recentes mostram que 90% do desmatamento o Brasil é ilegal e esse índice é semelhante o da exploração florestal.

Além disso, a maior parte da madeira saída da Amazônia, mais de 90%, é consumida dentro do próprio país, e não exportada.

“Nenhuma parte das cadeias de produção, dentro e fora do país, pode se declarar livre do problema da ilegalidade, seja ela uma empresa, comércio, consumidor e, obviamente, o governo. Se, juntas, essas partes apostarem em uma solução e atuação conjunta, todos ganham. Mas basta um desses elos não cumprir com seu papel que todos perdem”, diz a carta.

“O Brasil dispõe de conhecimento, informações e experiência suficientes para eliminar imediatamente a ilegalidade de sua produção e ir além. Mas isso só será possível quando todos os setores, públicos e privados, integrarem esforços, cooperarem e assumirem sua responsabilidade neste desafio”.

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Este artigo apareceu originalmente no HuffPost Brasil e foi atualizado.