Remanescente humano passeia de moto enquanto ativistas morrem como caça na Amazônia

Brazilian President Jair Bolsonaro takes part in a motorcade rally with his supporters in Manaus, Amazonas state, Brazil, on June 18, 2022. (Photo by RICARDO OLIVEIRA / AFP) (Photo by RICARDO OLIVEIRA/AFP via Getty Images)
Jair Bolsonaro festeja com apoiadores durante motociata em Manaus. Foto: Ricardo Oliveira/AFP (via Getty Images)

Foi-se o tempo em que, para ser considerada uma liderança apta para o posto, um presidente da República deveria demonstrar ao menos algum resquício de humanidade ou ensaio de apoio com a dor de quem supostamente deveria proteger.

Jair Bolsonaro não perde chance de ostentar um esforço em contrário. Talvez porque, para o núcleo-duro de seus apoiadores, ele represente não uma inspiração, mas um alívio. Se um presidente pode se comportar como se não houvesse vestígio de humanidade naquele corpo, nós também podemos.

Para a turma, pesa trafegar pelo mundo fingindo qualquer respeito com uma dor que não se sente. Viver é mais fácil e mais leve sem carregar culpa, consciência, responsabilidade ou lamento a respeito do estado das coisas –todo esse conjunto de procedimentos que nos ensinam a ser gente e hoje habitam o balaio do chamado politicamente correto.

É a lei inconsciente expressa por Regina Duarte ao se negar a comentar os horrores do mundo por não querer carregar um saco de mortos nas costas –das torturas mas também da asfixia produzida pelo vírus.

Esse saco de mortos uma hora ou outra volta para assombrar as consciências desativadas dessas pessoas na sala de jantar ocupadas apenas em nascer e morrer, mas essa é outra história.

Mais do que uma interdição, Bolsonaro representa a autorização ao gozo permanente e sem culpa –aqui em mais de um sentindo, como quando zomba de vítimas das tragédias causadas por omissão ou endosso imitando uma pessoa morta por asfixia.

Na pandemia esse “quero mais é ser feliz” virou desfile literal com um sorriso no rosto nos passeios de moto, cavalo e jet ski.

Por que seria diferente no momento em que nos assombramos com o que o estado de natureza humano é capaz de produzir quando defensores da floresta cruzam seu caminho?

Bolsonaro fez o que pode para desanuviar qualquer dor de consciência sobre como chegamos a tal estágio de crueldade ao atribuir a culpa pela morte de Dom Phillips e Bruno Pereira a uma suposta negligência das próprias vítimas com suas seguranças.

A “liberdade” defendida e infantilizada pelo presidente é também a liberdade de correr riscos e morrer por si, tá ok? Não, não está. O que está em jogo é só um esforço para esconder as balas disparadas por quem admite que a região onde se morre como caça está entregue ao livre arbítrio de quem tem liberdade também para decidir matar. A entrega de uns e outros à própria sorte é uma confissão de culpa e incompetência.

Enquanto, na linguagem técnica dos inquéritos policiais, os “remanescentes humanos” dos corpos assassinados na floresta são recolhidos, Bolsonaro suspendeu o luto de um país inteiro ao promover uma festa com direito a motociata com apoiadores em Manaus. Era como se dissesse (novamente e outra vez): vamos chorar até quando? Até quando seremos um país de maricas que lamenta e chora por seus mortos?

A atitude, como tantas, acelera o estado de decomposição da faixa presidencial que prometeu honrar um dia. Bolsonaro empobrece o exercício de poder à medida que também nos empobrece.

Mas, para os seguidores do ato de campanha em duas rodas, ela também inspira. Bolsonaro tirou da caixa de pandora o que havia de pior na multidão cansada de carregar mortos, remorsos ou esforços para deixar esse mundo um pouco melhor do que aquele onde nascemos. Se a decência aprisiona, a perversidade liberta.

E a essa altura não são poucos os que não estão nem um pouco dispostos a trancafiar seus demônios numa caixa e passar o resto da vida fingindo alguma dignidade. “Me deixa ser ruim”, parece dizer, entre buzinas, a multidão de capacetes sem rosto.

Se essa dignidade não existe nem nos governa, tudo é permitido –inclusive a blasfêmia de dizer que Jesus só não andava armado porque não tinha pistola em sua época.

Onde o mundo vê uma crise, Bolsonaro vê uma oportunidade. A ele parecia mesmo uma boa ideia agir como lobista da indústria armamentista enquanto o Brasil descobria que dois defensores da floresta foram mortos como presas por armas de caça.

Bolsonaro não faz questão de mostrar que habita qualquer resquício humano naquele corpo aprisionado por fantasias e desejo de gozo permanente. De todas as demonstrações de crueldade, a sequência de falas e atos no último fim de semana talvez seja a mais evidente.

Boa sorte para marqueteiros e beneficiários imediatos deste governo quem ainda tentam provar que debaixo daquela máscara de produção de ofensas possa existir uma boa pessoa.

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