Bolsonaro patina em seus delírios enquanto povo mostra que votará por comida na mesa

Bolsonaro passeia de jet ski enquanto o povo quer saber de comida na mesa, que está em falta (AP Photo/Eraldo Peres)
Bolsonaro passeia de jet ski enquanto o povo quer saber de comida na mesa, que está em falta (AP Photo/Eraldo Peres)

“Bolsonaro não gosta de gente, gosta de policial”. E sai a pesquisa DataFolha (bem impressionante, diga-se de passagem) que jogou uma bomba nas duas principais campanhas. Acabou com o clima de “já ganhou” no Palácio do Planalto e deu um belo gás na campanha do ex-presidente Lula, que vinha sofrendo reveses nos seus discursos. Para quem não lembra: Lula chegou a defender o aborto, um tema sempre muito delicado em campanhas, e deu a entender que “policial não é gente”. Se desculpou depois, mas o estrago foi feito, numa arena em que Bolsonaro domina.

E mesmo assim a pesquisa mostra que Lula venceria no primeiro turno. A gente não fala em eleição ganha de primeira assim desde 1998. Sabemos que quando Lula venceu, foi sempre no segundo turno, mas o tamanho desse impacto é gigantesco. Apesar de falas controversas, Lula tem tido uma mídia positiva: casou-se, tem falado muito em estar apaixonado, em ser esse o candidato que irá para as eleições tranquilo e sereno numa reedição do Lula paz e amor. E cresce entre as mulheres.

Porque Bolsonaro tem seu histórico de misoginia. Afasta as mulheres dele com uma destreza que deveria ser usada para governar. Numa jogada acertada, no entanto, discretamente, filia a mulher, Michele Bolsonaro, ao PL, a colocando à frente do jogo na disputa pelo voto delas. Lula tem Janja e o amor. Bolsonaro tem Michele, uma evangélica fervorosa e o “hoje já dei bom dia para ela, sabem como é”. Arruma de um lado mas estraga de outro. Até aqui me dei ao direito de opinar com as minhas percepções.

Mas vamos aos números? A situação não está nada boa para o PR: 54% dizem não votar em Bolsonaro de jeito algum. Associada a aprovação pequena de 27% temos um dado interessante. Bolsonaro segue falando para a bolha dele que gira em torno de 26% a 30%. Segue falando para os convertidos e só com eles não se ganha uma campanha.

A alta rejeição pode indicar também que o brasileiro está cansado do desgaste econômico e quer uma solução imediata, que o PR tenta disfarçar jogando cortina de fumaça com outras pautas: atacando as instituições. Pauta que não é da agenda comum do brasileiro que está preocupado com o aumento do gás de cozinha, que Lula acertadamente tem mencionado. Some-se a isso o número de indecisos...29%. Bolsonaro precisaria que todos os indecisos fossem com ele para vencer hoje. Nem Obama conseguiria isso!

E os ataques recomeçaram (ou nunca cessaram) assim que a pesquisa foi divulgada. Aliados do Centrão foram às redes desqualificar o DataFolha. Esse é outro ponto: até que momento eles ficarão ao lado do PR?

Bolsonaro venceu 2018 com um discurso para aquela parcela da população que estava desalentada com a corrupção e com a esquerda. Era uma eleição da Lava Jato. Agora é a eleição do “não consigo pagar os boletos”. Esse sentimento se vira contra ele. Não existe mais o menor resquício do cenário de quando ele venceu. Se ele não mudar o tom e tentar captar outra parcela do eleitorado que não seu fã clube, estará fadado ao fracasso. Bolsonaro tem o apoio do Centrão e a máquina do governo. Mas tem também o desgaste de 4 anos de governo que não tinha em 2018. Falei em outro texto aqui no Yahoo que a sorte esteve sempre ao lado de Bolsonaro. Fui achincalhada. Repito: essa mesma sorte mantém ele nos 30% que preferem vê-lo trabalhando na manutenção do conflito do que mantendo a democracia.

Lula vem com a redenção de quem teve as condenações anuladas, numa política polarizada e agressiva apela para o “amor” e tem o forte discurso de recuperar a economia. As lembranças vão ficando para trás e a Lava Jato foi tomando um outro tom, como algo que foi extremamente injusto ao ex-presidente. E, Bolsonaro não tem a sagacidade para recuperar essa memória.

O crescimento de Lula, no entanto, é expressivo que impressiona até quem acompanha política, como eu. Há muito mais para se pensar. A economia deve sim, ser uma pauta fundamental em 2022. A falta de confiança numa terceira via justifica esse crescimento. O voto útil pode ser explicado através do cansaço do eleitor que responsabiliza o atual governo pelos desmandos, pela alta nas coisas básicas. Não há perspectiva para a melhora no “pagamento dos boletos”. E Bolsonaro segue falando de Alexandre de Moraes enquanto o que preocupa mesmo é a falta de carne no prato.

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