O gerente patriota ficou louco! Lucro agora é coisa de comunista

Matheus Pichonelli
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ELDORADO, BRAZIL - SEPTEMBER 03: Jair Bolsonaro, President of Brazil speaks during the presentation of a bridge development project over the Ribeira de Iguape river on September 3, 2020 in Eldorado, Brazil. Eldorado is a city in the countryside of the state of Sao Paulo where Jair Bolsonaro was raised. The bridge will provide access from the Boa Esperanca neighborhood to the Quilombo de Sao Pedro. (Photo by Miguel Schincariol/Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro pediu patriotismo aos donos de supermercado para baixarem os preços. Foto: Miguel Schincariol/Getty Images

Dizem que o segredo da felicidade é a redução das expectativas.

Outro dia mesmo tinha pai revoltado com a alta do dólar levando a filha para manifestação com uma placa patriótica: “quero voltar a viajar para Disney”.

Isso foi em outros tempos, quando o próprio Paulo Guedes se queixava daquela “festa danada” nos aeroportos em que até a empregada doméstica podia visitar o Pateta.

Em março, o superministro dizia que era preciso fazer muita besteira para o dólar chegar a R$ 5. Mais ou menos na mesma época seu chefe afirmava que a preocupação com a pandemia, que já fazia estragos na Ásia e na Europa, era histeria. Um consultor do presidente para assuntos terraplanísticos-sanitários jurava que o coronavírus não faria mais estragos por aqui do que uma gripe comum. No máximo, chegaríamos a 4 mil mortos.

Como gestores de crise, os auxiliares de Bolsonaro são ótimos profetas. De besteira em besteira, o dólar já cruzou há tempos a fronteira dos R$ 5 e a pandemia está prestes a completar seis meses de passagem pelo Brasil com quase 130 mil vidas ceifadas. (Spoiler: já tem estudo de grande banco dizendo que controlar a morte é determinante para o consumo voltar. Aparentemente as grandes instituições e minha bisavó, que Deus a tenha, concordam que morto não consome nem produz).

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Na briga para salvar CNPJs e dizer que, no caso dos CPFs, morrer é parte da vida, Bolsonaro colheu no segundo trimestre um tombo de quase 10% do PIB, e a retomada em V prometida por seu Posto Ipiranga já encontra alguns percalços.

O dólar alto favorece as exportações e o crescimento da demanda por itens domésticos em tempos de isolamento fez o preço de alguns itens da cesta básica, como o arroz, o óleo de soja e algumas carnes, aumentar. No Espírito Santo, já tem linguiça vendida a R$ 24 o quilo e numa estrada de São Paulo saqueadores organizaram uma fila para pegar um pouco de carne de um caminhão frigorífico que tombou. Já tem gente trocando a Disney pelo churrasco no fim de ano.

Puxada pelo preço dos alimentos e também da gasolina, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo fechou agosto em alta de 0,24%, a maior desde 2016. Não é exatamente uma disparada, mas já provoca preocupação, justamente por pesar mais no bolso de quem pode menos.

Em ano de eleição, qualquer vacilo é fatal para quem não quer saber de cobrança.

Nesta oscilação, que tem a ver com o valor do dólar e a dinâmica das exportações, Bolsonaro, que sempre disse não entender nada de economia, decidiu jogar o consumidor final contra as varejistas, que pouco podem fazer na hora de botar produto na prateleira. Mas, na cabeça do bolsonarista obediente, reduzir a margem de lucros, após meses de confinamento, agora é questão de patriotismo.

“Estamos conversando, estou pedindo um sacrifício, um patriotismo, para os grandes donos de supermercados, para manter o preço na menor margem de lucro”, afirmou o presidente no fim de semana.

Para quem jurou amor ao livre mercado até outro dia, só faltou dizer que o lucro é coisa de comunista.

Não se sabe se entre os que receberam o pedido de amor à pátria está um velho conhecido de Bolsonaro, dono de uma rede de varejo que costuma desfilar de verde em amarelo nos eventos públicos levando a tiracolo seus templários contra a foice e o martelo. No aperto, sua rede passou a vender arroz e feijão para poder abrir as portas como atividade essencial na pandemia.

Vai ser patriota agora para reduzir os lucros em nome da pátria? A ver.

Antes disso, e com o dólar a R$ 5,30, há quem já prepare a sua placa para a próxima manifestação. Disney? Não. Só queremos voltar a comprar arroz sem precisar vender o carro.